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terça-feira, 2 de novembro de 2010

O lado B de Pedro Paixão



  No passado dia 22 de Outubro, vi a entrevista de Pedro Paixão no Lado B. Fiquei estupefacto. Pensei que o homem não tinha os cinco alqueires bem medidos. Com uma conversa daquelas, ou o homem estava pedrado, ou um consumo continuado de absinto havia finalmente feito estragos irreparáveis aos seus neurónios. Gosto do que li do homem, mas aquilo era para além de estranho, chegando a ser constrangedor (não apenas para o expectador, mas também para os presentes).

  Descobri entretanto que Pedro Paixão padece de doença bipolar, diagnosticada aos 19 anos, o que explica, pelo menos parcialmente, um comportamento tão peculiar. E se digo pelo menos parcialmente, é porque existem muitas pessoas diagnosticadas com esta doença que fazem a sua vida de forma perfeitamente ordinária. Desconheço a gravidade do caso concreto, e nunca vi sequer outras presenças do autor em televisão para saber se é recorrente este comportamento. Pode simplesmente ter-se esquecido de tomar o medicamento (sem sarcasmos, em muitos casos nota-se logo). O desconhecimento de determinada informação pode ser o bastante para condicionar as conclusões a que chegamos. Por este motivo, não consigo ter uma opinião definida se estamos perante uma prova de coragem de alguém que quer viver a sua vida normalmente, ou se aproveitamento por parte de quem o recebe (neste caso pareceu-me que não; Bruno Nogueira foi precisamente quem mais constrangido me pareceu). Pode até tratar-se de ambas ou nenhuma das hipóteses enunciadas. 

  De qualquer forma, do ponto de vista da opinião pública, é sempre positivo que personalidades que se destaquem em áreas mediáticas assumam e partilhem a sua convivência com esta doença (muito mais disseminada do que se possa pensar), contribuíndo para a desmistificar aos olhos de todos, incluindo os próprios doentes.

  Num testemunho para uma colectânea da Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares, o escritor descreveu "o pólo depressivo da sua doença de modo existencial e quase clínico":

  “ O tempo aparece como uma massa informe, pegajosa, impenetrável, porque o sentido que podia ordenar se ausentou, fez greve, sumiu. Ora, não havendo futuro, não há passado nem presente, não há nada. As sinapses dos meus neurónios mandaram-me passear”

  O autor foi um dos 3 casos abordados na reportagem da SIC, Mentes Inquietas, emitida em 2009.



  "Em Portugal, há mais de 100 mil pessoas que sofrem de algum tipo de distúrbio bipolar; uma perturbação psíquica que se caracteriza por oscilações acentuadas do humor com crises repetidas de depressão e de euforia. Cada um dos doentes tem uma forma particular de manifestar a bipolaridade e de reagir ao diagnóstico, à terapeutica e ao estigma."

  "A vida de 3 pessoas que sofrem de doença bipolar Pedro Paixão tinha 19 anos quando lhe foi diagnosticada a doença maniaco-depressiva. Em 1976, era esta a designação da doença bipolar. Só aos 30 anos, é que o então professor universitário de Filosofia, começou a ser acompanhado regularmente por um psiquiatra e aderiu à terapeutica. Hoje, o escritor - que abandonou a vida académica em 2005 por causa da doença - garante que aprendeu a lidar melhor com os seus humores."

terça-feira, 23 de março de 2010

Cem anos de Kurosawa

  
   Se Akira Kurosawa fosse vivo, celebraria hoje 100 anos. O realizador japonês é ainda hoje um dos ícones do cinema mundial, e a sua obra continua a reflectir-se em muito do que se filma. Não apenas na abordagem de temas como a honra e a culpa, mas também nos conceitos visuais que introduziu, nomeadamente a forma como utilizava a cor nas suas películas. Muitos dos seus filmes foram posteriormente alvo de adaptações, umas mais autorizadas que outras. As mais famosas são provavelmente The Magnificent Seven, remake americano de Seven Samurais (Shichinin no Samurai), e os western spaghetti celebrizados por Sergio Leone, o qual encontrou grande parte da sua inspiração no cineasta nipónico.

   Como é costume nestas efemérides, são muitos os que falam como detendo um profundo conhecimento do autor. Não é o meu caso. Conheço pouco, muito pouco. Apenas o suficiente para ter consciência do que estou a perder quando permito que os seus filmes continuem na categoria de "por ver", em detrimento de muita coisa que acaba por ter prioridade apenas por ser mais recente. A pequena resolução pessoal de Março, na área do lazer, será ver um filme de Kurosawa por mês. Se o continuasse a adiar, o mais provável seria acabar por não o fazer.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Felicidades aos noivos!

O que é que a performer Dita von Teese e a actriz Rachel Evan Wood têm em comum?



O mesmo gosto em homens



Quando von Teese era Mrs. Marilyn Manson



A próxima geração



Gostos não se discutem. 

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Nem sempre nos lembramos dos nossos maiores avanços civilizacionais

"Não sabemos se Jorge Luis Borges escreveria de maneira diferente caso não tivesse cegado. O que ele teria lido. Como ele teria amado Buenos Aires, onde nasceu e viveu. Como ele teria amado Genebra, onde morreu. A cegueira, que é um dos nossos grandes pavores, foi total em Borges aos cinquenta anos. Em Louis Braille, cujo centenário se assinalou ontem, foi aos três anos – a criação de um alfabeto ou código para cegos constituiu uma das grande aventuras da humanidade e merece ser relembrado como um avanço indiscutível na nossa sensibilidade ao sofrimento dos outros. Braille imaginou o seu código associando-o à linguagem musical, o que já diz muito da beleza desconhecida que ele transporta. Com a obra de Braille ficámos, todos, mais humanos. Mais sensíveis. Visíveis."

Excerto da Crónica de Francisco José Viegas no Correio da Manhã a 05/01/2010. Retirada daqui.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Lhasa de Sela parte aos 37 anos

Descubro através do Bibliotecário de Babel, que a cantora Lhasa de Sela faleceu no primeiro dia de 2010, finalmente sucumbindo ao cancro da mama que combateu durante 21 meses. Para além da dor que quem a amava estará a sentir, também o mundo fica um lugar mais triste sem a sua extraordinária voz. O seu primeiro álbum, La Llorona, permanece como um dos meus álbuns favoritos. Foi bela a marca que deixou no mundo.



segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A polémica Saramago



    Confesso que continuo sem compreender a dimensão da polémica em redor das declarações de José Saramago. Deve ser o prazer da polémica pela polémica. Saramago proferiu declarações que facilmente se podem caracterizar de levianas, não apenas pelo tom, mas pela superficialidade em relação à complexidade do tema. É certo que o homem é Nobel, mas não é por isso que o vão levar a sério quando se propõe resolver em duas penadas o mais controverso e antigo dilema do ser humano. Mas foi essa a conclusão pessoal a que chegou e decidiu partilhá-la. Não percebo a celeuma porque não creio que seja, nem de perto nem de longe, das coisas mais ignorantes ou desrespeitosas jamais ditas, mesmo que a um crente. É apenas uma opinião, ainda que não tenha sido expressa nos termos mais elegantes. E não é exactamente um segredo de Fátima, que o Deus descrito no Antigo Testamento ainda não tinha adoptado plenamente a máxima de dar a outra face. Mesmo sendo um rapazinho de educação católica, desde que instituída a  tradição de rever "Os Dez Mandamentos" todo o santo Natal na saudosa época dos dois canais, que me apercebi que o Todo Poderoso não é flôr que se cheire quando lhe pisam os calos. Achei muito elucidativa a forma como quinou todos os primogénitos do Egipto após o Faraó recusar libertar o seu povo, que muita falta lhe fazia para construir as pirâmides a baixo preço de custo.

    Além disso, não se trata exactamente de uma situação inédita. Se a memória não fosse curta, bastava lembrar as declarações de Saramago em que equiparava o comportamento de Israel na Palestina ao dos nazis no Holocausto (o exemplo do Gulag teria sido igualmente convincente), ou de como Cuba era um exemplo para todos nós. O facto de ser um escritor extraordinário significa que escreve bons livros e as suas opiniões têm um impacto mediático acrescido. Não implica que a qualidade dos primeiros se transmita por osmose às segundas. E a verdade é que podia defender coisas bem piores, como o ensino do criacionismo no ensino público ou algo semelhante.

    Quanto às declarações acerca da renúncia de nacionalidade por parte de um deputado europeu português em busca dos seus 15 minutos de fama, não me parece que sejam necessários quaisquer esforços argumentativos para demonstrar que são disparatadas. Falamos de um direito do qual apenas o próprio pode dispôr. Se declarações asnáticas fossem motivo para o reivindicar, já este senhor estava a pregar noutra freguesia.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Lobo Antunes confessa-se em entrevista



António Lobo Antunes foi entrevistado por Judite de Sousa a propósito do lançamento do seu novo livro, "Que cavalos são Aqueles que fazem Sombra no Mar?". Quando questionado acerca da polémica envolvendo as declarações de José Saramago,  começou por dizer que preferia não comentar. E ao não comentar, mas já comentando, lá afirmou que embora sem conhecer as declarações em profundidade, lhe parecia que a comunicação social havia encarniçado umas declarações infelizes. A conversa prosseguiu, e acabou por revelar que o que não gostava era de chegar aquela idade com tão pouco senso crítico. Para quem afirma não haver polémica entre ambos, acabou por utilizar um eufemismo não muito subtil para chamar a Saramago velho e caduco.

No mais, embora tenha ficado conotado com uma postura arrogante nos últimos anos, continua a ser um prazer ouvir as suas entrevistas. Falou da doença que sofreu, e o que isso mudou na sua visão do mundo. A importância de um segurar de mão antes da operação. Ele que confessou que quando era novo e exercia medicina, os pacientes eram sobretudo casos, meros números. Viu-se agora do outro lado da barricada. Contou como chegava a uma sala de espera cheia, com as televisões ligadas para quem ninguém olhava. O orgulho que sentiu em ser português quando viu a dignidade com que aquelas pessoas encaravam a morte certa. Como quando já sabia que ia viver, olhava para crianças que não iam, e pensava como era injusto. Contou a história de um velhote que sempre que ia à consulta, levava o seu melhor fato, sem g ravata. O seu melhor fato era também o seu único, pelo que com o tempo foi ficando cheio de manchas. No entanto, quando se levantava, caminhava com a graciosidade de um príncipe. E nessa postura, Lobo Antunes viu a gravata mais bela do mundo.
 

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Serenata para Maité Proença




 Se você disser que eu sou burrinho, amor
Saiba que isso não provoca em mim qualquer dor
Só privilegiados têm inteligência igual à sua
Eu possuo apenas o que Deus me deu
Se você insiste em classificar
Meu comportamento de esquisitinho
Eu me sinto na obrigação de te contar
Que isto é Portugal
Se não gosta escusa de voltar
O que você não sabe nem sequer pressente
É que os portugueses para você se estão a marinbar
Vi você na minha televisão
Revelou-se a sua enorme ingratidão
Faz favor de cuspir no seu país
Prefiro ser patego a ser porco
Você com o seu humor esqueceu o principal
Para a gente rir a piada tem de entender
Mas sabe como é este povo atrasado
Melhor ficar no Brasil que sabe te compreender
Faz um favor e chama o Sousa Tavares
Pressinto que vão se entender
Se você disser que eu sou saloio, amor
Saiba que isso não provoca em mim qualquer dor
Só privilegiados têm classe igual à sua
Eu possuo apenas o que Deus me deu
E se você insiste em classificar
Meu comportamento de limitado, amor
Me sinto na obrigação de te informar
Que o Tejo não é o mar
E tivemos mais que 20 anos de Salazar
Mas deixa te perguntar
Na favela os números tão todos no lugar?
Faz favor de comer mais um pastelzinho
Com a boca cheia não sai asneira
Seu avô português deve tar virando na cova
Que ironia a genética pode ser
Você com a sua ignorância esqueceu o principal
É que para Deus dar num lado
Para ser mesmo generoso
Para fazer algo tão gostoso
Não pode dar no outro

Versão mutilada da letra de "Desafinado" de Tom Jobim

domingo, 5 de julho de 2009

Paulo Coelho III

E, aparentemente em contradição total com os dois posts anteriores, assumo o meu interesse em ler a biografia do homem. Confusos? A culpa foi da entrevista dada pelo autor, o jornalista brasileiro Fernando Morais, a Isabel Coutinho; e do texto da Pipoca mais doce a 22 de Maio de 2009 que abaixo reproduzo (não consegui colocar o link directo) :

"Coisas que fiz e das quais tenho vergonha #1: comprar um livro do Paulo Coelho (mais ou menos)

Então foi assim que a coisa se deu: faz amanhã duas semanas entrei na Fnac ao final do dia. Estava à espera que o meu homem me fosse buscar e, para fazer tempo, dei um salto ao bar da Fnac só para comprar uma água. Acontece que estava a decorrer a apresentação de um livro, feita pela Leonor Xavier. Não percebi que livro era, pela conversa pareceu-me altamente entediante, até que passaram a palavra ao autor. Era um brasileiro, com idade para ser meu pai, e daqueles que abre a boca e uma pessoa já não consegue desligar. Peguei na água, sentei-me, e fiquei a ouvi-lo mais de uma hora. Ora o livro deste senhor, de seu nome Fernando Morais, é nada mais nada menos do que a biografia do Paulo Coelho. Pois. Um calhamaço com mais de 600 páginas. Mas o senhor (que é jornalista, e daqueles mesmo bons) vendeu a história tão convincentemente (e que história, a vida do homem mete todas as drogas e mais algumas, satanisno, choques eléctricos, experiências homossexuais... e, ainda assim, vende livros como ninguém), que eu dei por mim a folhear o livro. Senti-me mais aliviada quando ele anunciou que o livro era tanto para os que amavam como para os que não percebiam o fenómeno Paulo Coelho. Como estou neste último sector (apesar de ter lido vários livros do senhor na adolescência), acabei por levar o livro para casa. No fim fui falar com o Fernando Morais e disse-lhe isto tudo. Que só tinha ido comprar uma água e que, sabe-se lá como, tinha acabado com a biografia do Paulo Coelho nas mãos. E que nem gostava dele. E ele disse que mais do que gostar de Paulo Coelho, o livro valia pela história. Já percebi que sim, que o homem escreve bem que se farta e que é um excelente contador de histórias. Mas agora tenho de andar no metro com um livro chamado "O Mago", onde o nome Paulo Coelho é bem maior do que o do próprio autor. E tenho um bocadinho de nada de vergonha. E vou sempre a tentar esconder a capa. E odeio forrar livros, se é essa a vossa sugestão. Pois, pois, sou preconceituosa, que fazer?"

Paulo Coelho II

Será que a Veronika decidiu morrer porque a obrigaram a ler a obra completa do senhor? É que só de ler "O Alquimista", já tive vontade de pegar no cajado do protagonista e desatar a distribuir bordoada a torto e a direito. Não me convenceu. Parece-me a estrutura narrativa de uma parábola bíblica, cruzada com um livro de auto-ajuda. Na onda daqueles livrinhos que os jeovás nos impingiam. E a mim não ajudou. Mas gostos são gostos. E a verdade, é que se trata de um livro que potencia ao máximo os valores que os leitores nele queiram projectar. Sejam eles quais forem.

Adenda politicamente correcta, mas ainda assim verdadeira: não tenho nenhum problema com a fé Jeová, ou com a maioria das religiões disponíveis no mercado. Nunca reagi foi bem ao marketing agressivo.

Entrevista a Miguel Sousa Tavares

Hoje, entrevista a Miguel Sousa Tavares no DN.

Paulo Coelho I

"Se alguém se esforça além dos seus próprios limites, também quebra a sua vontade." Ler Paulo Coelho é como ler o nosso signo; há sempre um dia em que parece que está escrito à nossa medida.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A vida é frágil

Foi noticiada a morte da coreógrafa alemã Pina Bausch, a um mês de completar 69 anos. Tinha descoberto apenas cinco dias antes, que estava doente com cancro. Cinco dias. A vida é muito frágil...