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terça-feira, 27 de julho de 2010

Notas sobre o mundo dos livros - Sol na eira e chuva no nabal

  Há alguns meses foram divulgados relatórios que revelam o crescimento da indústria editorial em Portugal. Para além das vozes que se levantaram, e bem, para parabenizar o feito, para mais em tempo de crise, outras houve que salientaram, em tom censuratório, como o mesmo foi alcançado sem apoios do Estado, ao contrario de outras industrias culturais nacionais (com o cinema, esse eterno elefante branco, à cabeça). 

  Com toda a paixão que tenho pelos livros, não vislumbro nenhum mérito extraordinário em um negócio dar lucro. Ainda que seja um dotado das particularidades próprias do universo dos livros. Vejo motivos de regozijo, de orgulho por um trabalho bem sucedido. Para alguns, a satisfação de contribuir para o enriquecimento da sociedade através da cultura. Mas a indústria editorial não deixa de ser um negócio, e deve prosperar por si próprio. 

  Discordo do discurso de dois pesos e duas medidas que muitas vezes se lhe aplica. Como quando se critica os grandes grupos do mundo editorial de se comportarem de forma similar ao que fariam no ramo das farturas, detergentes ou viagens, sem o respeito devido pelas suas especificidades. Não morro de amores por essa perspectiva. Mas não deixa de ser uma perspectiva, para mais fiável, porque normalmente esses grupos são de facto lucrativos. E nem toda a gente que depende desta indústria para viver, o faz, em parte ou sobretudo, por amor e vocação. Para muitos é apenas um ganha-pão. Nem sempre podemos ter o melhor de dois mundos. E ainda bem que o mundo em que vivemos começa a permitir a vitalidade do livro sem apoios artificiais.

  Nota-se um esforço na maior parte dos seus intervenientes para caminhar para uma progressiva profissionalização e modernização. Mas ainda existe um longo caminho a percorrer, nomeadamente na transparência com que comunicam publicamente os seus resultados. Falta de transparência essa que permite um recurso ao discurso do coitadinho quando conveniente. Se um determinado negócio não é rentável, embora muitas vezes lastimável o desfecho, encerra-se o mesmo. Se se tratar de uma área entendida como de interesse público (porque nem tudo o que é bom e importante tem lucro, e vice-versa), apesar do seu prejuízo crónico, intervém o financiamento público.

  Mas nem sequer é verdade que este sector esteja isento de apoios do Estado. Desde logo por estar sujeito a uma taxa de IVA reduzida. E não está sequer sujeito a um escrutínio que determine que livros devem beneficiar de isenção completa, intermédia, ou simplesmente não a ter (ao contrário do que sucede nos bens alimentares por exemplo). Por mais que goste de ler, não consigo em boa consciência, descrever o último livro de António Lobo Antunes ou da saga "Sangue Fresco", como bens essenciais. Este benefício poderia muito bem estar reservado aos manuais escolares, livros técnicos ou a um conjunto de obras seleccionadas  (o problema seria estabelecer os critérios a que obedeceria a essa escolha, mas não é esse o assunto que se pretende tratar). Tal sucede porque se entende que estimular a leitura é de tal forma importante, que esta política deve estender-se desde a maior obra-prima literária à mais execrável amálgama literária jamais concebida. Mas nunca deve ser encarada como irrelevante uma incidência fiscal inferior em 15% (a indústria discográfica bem se tem queixado do tratamento diferenciado). 

  E embora este me pareça o incentivo mais relevante, não se trata do único. A CML (logo, dinheiros públicos), atribuiu por diversas ocasiões, subsídios à organização da Feira do Livro de Lisboa (desconheço se ainda o faz). Existem campanhas de estímulo à leitura periódicas, que embora se podendo questionar a sua eficácia, o facto é que o dinheiro que as financia é gasto.

  Pode-se discutir como o orçamento destinado à cultura é parco em Portugal. E de como este é inadequadamente distribuído. Mas nessa conversa, já teremos de incluir o teatro, a dança, o cinema, a música, a pintura, entre muitos outros intervenientes. E dificilmente todos sairão satisfeitos.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O encerramento da Os Meus Livros

   A revista Os Meus Livros (doravante OML) de Março será a última. Já muito boa gente expressou a sua opinião sobre este destino (aqui, aqui, aqui e aqui). Como é habitual com os recentemente falecidos, a maioria das pessoas apenas tem palavras amáveis acerca do mesmo. Confesso que não é o meu caso. Quase todas as reacções ao seu encerramento referem como é triste o desaparecimento de uma publicação exclusivamente dedicada a livros num país que praticamente não as tem. Mas poucos falam dos méritos e deméritos da mesma. Não me basta que uma publicação seja sobre um assunto que me interessa. Importa a qualidade com que o aborda.

   Comecei a ler a revista com alguma regularidade numa altura em que a anterior encarnação da LER ainda existia. Entre as duas, preferia claramente a OML. Mas desde então notei um progressivo decréscimo na sua qualidade, e simplesmente deixei de achar que valesse a pena comprá-la. As críticas a livros tornaram-se cada vez mais genéricas e as apresentações de novos lançamentos muitas vezes pouco ou nada acrescentavam às lombadas e capas dos livros. Os temas seleccionados para desenvolvimento, nem sempre se revestiam de interesse (pese a subjectividade) ou eram explorados da forma mais conveniente. Até este último número, foram sempre as entrevistas que me mereceram a maior atenção.

   O outro aspecto que destacaria dos textos que li, são os elogios ao seu director cessante, João Morales.  Acredito que fizessse muito com os parcos recursos que aparentemente tinha. Também acredito que um aumento dos mesmos se reflectisse na qualidade da publicação. Mas não querendo parecer insensível, isso pouco interesse tem. O importante para o consumidor final é que o interesse que a revista lhe suscita justifique comprá-la. E infelizmente, isso já não acontecia no meu caso. Só podemos sentir a falta de algo por que genuinamente ansiamos.

Para completar, apenas algumas notas soltas:

1. O ressurgimento da LER, por si só, já era suficiente para aumentar a concorrência sobre a OML. A forma como a LER foi praticamente incensada por muitos, em muito contribuiu para relegar a OML à obscuridade.

2. A OML tinha graves problemas de distribuição. Não era uma revista fácil de encontrar, sobretudo fora de Lisboa. Se deixou de ser colocada nas bancas porque não vendia, ou não vendia porque não era colocada nas bancas, não sei. Mas por mais de uma vez a quis comprar e não a encontrei.

3. Encerrar uma revista é uma opção do grupo económico que a detém, e concorde-se ou não, é legítima. Afinal de contas trata-se de um negócio, e é sempre mais fácil opinar sobre como gastar o dinheiro alheio. Mas isso não invalida que se possa, e deva, demonstrar respeito pelos seus responsáveis e leitores, permitindo-lhe ao menos uma despedida condigna.

4. É verdade que com a Internet, e sobretudo o advento dos blogs, a informação disponível aumentou substancialmente. Para sobreviver, a revista tem claramente de oferecer conteúdos distintos e mais aprofundados dos disponíveis em espaços de cariz predominantemente amador, sob pena de se esgotar a sua razão de ser. Mas a par dessa concorrência, existe também a possibilidade de descobrir pessoas que possam trazer contributos inovadores para esses projectos.

5. Quis o destino que o último número da OML oferecesse um livro da Ambar na sua compra. Ambar, que parece ter abandonado a sua vertente editorial, começando a ser difícil encontrar os seus livros. Acabei por comprar um livro de António Manuel Venda que me interessava ("O Que Entra Nos Livros"). Ironicamente, não consigo imaginar melhor despedida.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Passatempo "Pobres e mal-agradecidos"

    Nos últimos tempos, têm-se multiplicado os passatempos para oferecer livros nos mais variados blogs. Não há fome que não dê em fartura, e ainda bem que assim é. Participo em muitos destes passatempos e já ganhei alguns. Tenho verificado no entanto, um aumento no número de insinuações acerca da transparência dos mesmos. Cada um pensa o que quer, mas eu encaro estas iniciativas de boa-fé na honestidade de quem as organiza. Até onde sei, não retiram qualquer vantagem dos mesmos, e convenhamos que os prémios não são assim tão valiosos. 
 
    Por mais que goste de receber livros que me agradam de borla, tento não perder de vista que falamos de simples passatempos. As únicas exigências que me parecem legítimas fazer aos seus responsáveis, é que os termos de participação e os critérios para determinar os vencedores, sejam explicitados o melhor possível.
 
    A quem quiser continuar a alimentar suspeitas, digo sinceramente que acho não valer a pena. Porque se quem organiza estes passatempos os quiser falsear, nada mais fácil de fazer. É verdade que, nem que seja estatisticamente, é provável que aconteçam algumas trafulhices. Mas a quem estiver convencido de estar perante uma farsa, resta sempre a possibilidade de não participar nos mesmos. Agora fazê-lo, e posteriormente questionar a hombridade de quem os organizou, parece-me rude e sinal de alguma ingratidão. Se fosse eu a organizar um destes passatempos, e me deparasse com esse tipo de reacções, muito provavelmente ficaria irritado e a considerar se valia a pena continuar a fazê-lo. 

Versão alargadada dos comentários que deixei hoje numa discussão sobre este assunto no Porta-livros.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Dan Brown, o McDonald's da literatura



     Eu ainda sou do tempo em que o McDonald's existia em Lisboa e pouco mais. Um almoço no dito cujo, chegava a ser descrito na escola com honrarias de ponto alto de uma viagem ao estrangeiro. Quando começaram a aparecer novos restaurantes da marca, era normal vê-los cheios com famílias inteiras em refeições de fim-de-semana, festas de aniversário e almoços de negócios. Depois, entrou na nossa rotina e generalizou-se. Passou a moda e surgiram os sucedâneos. Ainda hoje é um sítio onde um grande número das pessoas vai comer de tempos a tempos. Um pequeno guilty pleasure. Surgiram nessa altura os puros e castos. Gente que jura a pés juntos que nunca comeu aquela porcaria. Outros comeram, mas entretanto tiveram uma epifania, e antes morrer a tragar McDonald's novamente. Cada um é livre de comer o que quer. E houve evidentemente, muita gente que nunca sentiu o apelo do ícone americano da fast food. É precisamente por ser algo tão natural, que não sentem a necessidade de o anunciar ao mundo como se tivessem salvo uma vida. Mas o que é que esta conversa mal enxertada tem a ver com o Dan Brown?

    É que é precisamente este tipo de comportamento, de que me recordo quando penso nas reacções manifestadas em relação a "O Código da Vinci", durante os anos que mediaram a edição deste e de "O Símbolo Perdido". Aquando do seu lançamento, gerou um fenómeno ainda hoje difícil de igualar no mercado editorial nacional, vendendo mais de 500 mil exemplares. Pessoalmente, acho o "Código da Vinci" um bom livro. Lido compulsivamente, cumpriu plenamente a função recreativa que dele esperava. Não vai ficar para a história como uma obra maior da literatura, mas também não me parece esse o seu lugar ou pretensão. Parece-me que a maior fragilidade, não do livro, mas da obra de Dan Brown, é a estrutura narrativa. Porque é sempre a mesma. O número de personagens principais; os ardis utilizados para desviar a atenção do verdadeiro vilão; a dinâmica romântica dos casais principais; até a forma como a montanha acaba por parir o rato nas conspirações, fruto de um indivíduo tresloucado e não das instituições milenares. E como cereja no topo do bolo, há aquele momento aerodinâmico no "Anjos e Demónios", a que os americanos chamariam jump the shark (quem leu o livro sabe de certeza ao que me refiro), que de tão rídiculo nos impossibilita qualquer hipótese de levar a sério o livro.

    Entretanto, parece que ninguém tinha lido o livro. Que se tornou um fenómeno de geração espôntanea. Um livro que se via por todo o lado, escolha de eleição para oferta de Natal e aniversários, tornou-se no manuscrito maldito. Na crítica literária, é recorrentemente nomeado como um exemplo intragável de livro ou simplesmente tratado com a condescendência reservada ao trabalho de um amador esforçado. Critica-se a falta de exactidão histórica do mesmo e a falta de densidade dramática. São verdade ambas as críticas. A inexactidão de factos não me incomoda particularmente porque ficções históricas não me parecem o melhor meio de adquirir informações fidedignas acerca de que assunto for, para além de algumas noções gerais. É verdade que existem algumas excepções, mas que servem sobretudo para confirmar a regra. Quanto à densidade dramática, existem de facto melhores alternativas. Ide ler os clássicos. Mas nem só de Tolstoi e Balzac se alimenta o intelecto (acho eu). Tal como no cinema ou música, na literatura existem alternativas para diversas necessidades e estados de espírito. A literatura de aeroporto também serve o seu propósito. E para quem enquadra "O Código da Vinci" nessa categoria, é no contexto da mesma que a deve avaliar. É perfeitamente normal que muita boa gente o ache pura e simplesmente lixo. Mas parece-me difícil, por qualquer cânone, considerá-lo como do que pior surgiu nos escaparates das livrarias. Quanto mais não seja, porque na enxurrada de thrillers esotéricos que tentaram capitalizar o seu sucesso (embora um efeito colateral pelo qual não pode ser responsabilizado directamente, talvez este sim, seja o pior malefício que se lhe pode apontar), existem muitos candidatos melhor qualificados para esse papel.

    Entretanto, foi lançado "O Símbolo Perdido" e os ânimos serenaram. Afinal de contas, o livro está a vender bem e não parece ser uma boa altura para as vozes críticas se manifestarem. Se alguém conceituado admitir ler Dan Brown (#469), provavelmente até terá direito a ser louvado pelo ecletismo que caracteriza as suas leituras. Não sou um defensor incondicional de Brown. Li quatro dos seus livros, sendo que um deles, "Fortaleza Digital", pareceu-me um simples desperdício de papel. Para ser sincero, duvido que possa retirar mais alguma coisa da sua escrita. Tenho uma curiosidade reduzida pelo seu mais recente romance, e a possibilidade de o ler está subordinada a um eventual negócio de ocasião. Simplesmente, e sendo verdade que a opinião é totalmente livre, não perder o sentido de proporção quando se opina nunca fez mal a ninguém.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Construir uma biblioteca a partir de um quiosque

    Embora se continuem a vender livros com publicações de imprensa, o grande boom aconteceu há alguns anos atrás. Não sendo pioneira (pelo menos a Visão lançou duas colecções anteriores, das quais ainda hoje é normal encontrar exemplares para venda em feiras do livro), a colecção Mil Folhas do Público (2002) foi um marco neste tipo de iniciativas. Com uma primeira série de 30 volumes, acabou por se perpetuar durante um período de 2 anos, até atingir o número 100. A tiragem média das suas edições foi de 50 mil exemplares e incluiu títulos tão diversos como "O Nome da Rosa" de Umberto Eco, "Sinais de Fogo" de Jorge de Sena, ou "1984" de George Orwell. Disponibilizou inclusive, alguns livros que eram difíceis de encontrar no mercado português.

    Animados pelo sucesso da Mil Folhas, outros intervenientes tentaram recriar o modelo. Umas tentativas mais bem sucedidas que outras. O DN, por exemplo, lançou uma colecção com obras de diferentes Prémios Nobel. O próprio Público repetiu a receita com a colecção Geração, e muitas outras subsequentes, numa aposta que perdura até aos dias de hoje.

    A Banda Desenhada teve os seus 15 minutos de fama com a colecção completa das aventuras de Tintim e  Corto Maltese a 4€ cada volume. O segmento dos livros de arte foi fortemente promovido junto do público através da parceria Taschen/Público, que permitiu que dezenas dos seus títulos Basic Art chegassem aos quiosques a 4,50€. Posteriormente, esta parceria foi repetida na área de arquitectura. A revista Sábado lançou uma colecção de livros patrocinada por um banco (o patrocínio de uma entidade específica não é invulgar nestas colecções), sobre os mais famosos Museus do Mundo e as obras que albergam, que continham  reproduções de pinturas com uma qualidade invulgar para edições que rondavam os 13€. Lançaram-se números únicos sobre assuntos tão díspares como a obra gráfica de Paula Rego ou o conflito entre Israel e a Palestina. Ao longo dos anos, foram  contempladas áreas como a literatura, culinária, arte, viagens, BD, policiais e poesia, entre outras (com o cinema e o formato de DVD aconteceu um fenómeno semelhante).

    Muita gente manifesta desconfiança em relação a estas edições. Seja por desagrado perante a utilização de publicações periódicas para vender outros produtos, ou cepticismo quanto à qualidade de uma edição nestes moldes e preço. Cada um é livre de pensar o que quiser. Pessoalmente, foi a partir desse momento que a constituição da minha biblioteca sofreu um impulso irreversível. Possibilitou-me o acesso a preços acessíveis (até para um estudante sem grandes rendimentos na altura) a um vasto conjunto de obras e respectivos enquadramentos, o que contribuiu para solidificar um quadro de referências literárias. Foi uma oportunidade de conhecer muitos autores diferentes, representativos de correntes e períodos diversos. Descobri livros que normalmente não teria comprado, ou sequer ouvido falar.

Existem de facto exemplos em que a qualidade se ressente. Pode ser na encadernação, na mancha usada ou na qualidade da tradução. Mas uma grande parte da resistência advêm da mentalidade portuguesa. Se é barato não pode ser bom. E ainda hoje, os livros que se compram (a importância da novidade) e onde se compram, constituem muitas vezes um acto de afirmação.

Uma parte significativa das edições publicadas nestes termos, utilizam traduções cedidas pelas editoras que detêm os direitos para Portugal (facto que quando sucede, vem devidamente assinalado na ficha técnica ). São diferentes os direitos de autor para livros a vender em livrarias, e para comercialização com publicações periódicas, pelo que não podendo impedir a sua publicação, negociar os direitos de tradução é uma boa forma das editoras recuperarem parte do investimento.

    Houve algum tumulto como é costume nestas situações, com alguns livreiros e editores a acenarem com os perigos de desequilíbrio do mercado que estas edições trariam. É indeterminado o impacto das mesmas no mercado livreiro e editorial, visto que não são sectores que pugnem pela disponibilização de dados fidedignos. O preço das novidades parece ter-se mantido mais ou menos constantes. Mas o que se alterou, foi o preço a que eram vendidas edições mais antigas, até então praticamente insensível à data do seu lançamento. Verificou-se um crescimento das feiras de final de edição. Se as pessoas estavam receptivas a comprar livros que não eram novidades desde que por um preço mais baixo, porque não aproveitá-lo para rentabilizar livros que já haviam ultrapassado o seu período útil de mercado. Sobretudo numa altura em que a rotatividade de títulos nas livros aumentava a olhos vistos. É muito provável que tenha existido uma relação directa entre estas duas realidades.

    Com o tempo, houve uma saturação do mercado (muitas vezes, grande parte destes produtos é comprado por um público recorrente. E com o aumento da oferta, deixaram de constituir oportunidades tão irresístiveis). Começaram a sair menos colecções, e as que saíam tinham um custo cada vez mais elevado (passando a barreira psicológica dos 5€). Mas já tinham desmpenhado um importante papel. E não desapareceram completamente, continuando a surgir bons negócios. Um bom exemplo são as colecções que a revista Sábado tem lançado com uma incidência cada vez maior, em que por 1,5€ podemos conhecer obras de nomes como Roth, Allende ou Eco. E acrescentar mais uns títulos à biblioteca.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A polémica Saramago



    Confesso que continuo sem compreender a dimensão da polémica em redor das declarações de José Saramago. Deve ser o prazer da polémica pela polémica. Saramago proferiu declarações que facilmente se podem caracterizar de levianas, não apenas pelo tom, mas pela superficialidade em relação à complexidade do tema. É certo que o homem é Nobel, mas não é por isso que o vão levar a sério quando se propõe resolver em duas penadas o mais controverso e antigo dilema do ser humano. Mas foi essa a conclusão pessoal a que chegou e decidiu partilhá-la. Não percebo a celeuma porque não creio que seja, nem de perto nem de longe, das coisas mais ignorantes ou desrespeitosas jamais ditas, mesmo que a um crente. É apenas uma opinião, ainda que não tenha sido expressa nos termos mais elegantes. E não é exactamente um segredo de Fátima, que o Deus descrito no Antigo Testamento ainda não tinha adoptado plenamente a máxima de dar a outra face. Mesmo sendo um rapazinho de educação católica, desde que instituída a  tradição de rever "Os Dez Mandamentos" todo o santo Natal na saudosa época dos dois canais, que me apercebi que o Todo Poderoso não é flôr que se cheire quando lhe pisam os calos. Achei muito elucidativa a forma como quinou todos os primogénitos do Egipto após o Faraó recusar libertar o seu povo, que muita falta lhe fazia para construir as pirâmides a baixo preço de custo.

    Além disso, não se trata exactamente de uma situação inédita. Se a memória não fosse curta, bastava lembrar as declarações de Saramago em que equiparava o comportamento de Israel na Palestina ao dos nazis no Holocausto (o exemplo do Gulag teria sido igualmente convincente), ou de como Cuba era um exemplo para todos nós. O facto de ser um escritor extraordinário significa que escreve bons livros e as suas opiniões têm um impacto mediático acrescido. Não implica que a qualidade dos primeiros se transmita por osmose às segundas. E a verdade é que podia defender coisas bem piores, como o ensino do criacionismo no ensino público ou algo semelhante.

    Quanto às declarações acerca da renúncia de nacionalidade por parte de um deputado europeu português em busca dos seus 15 minutos de fama, não me parece que sejam necessários quaisquer esforços argumentativos para demonstrar que são disparatadas. Falamos de um direito do qual apenas o próprio pode dispôr. Se declarações asnáticas fossem motivo para o reivindicar, já este senhor estava a pregar noutra freguesia.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Editoras & Blogues Literários Amadores

A Internet, enquanto meio fundamental de comunicação nos dias que correm, é alvo de uma abordagem cada vez mais cuidada por parte das empresas. As editoras não são excepção. Uma das vertentes em que têm apostado, é em estabelecer uma ligação privilegiada entre si e os blogues literários. Não me refiro neste caso, a blogues criados como extensão de uma actividade profissional ligada ao sector editorial. Falo dos amadores (referência ao seu carácter e não à qualidade), criados sem outros intuitos que não os de partilhar informação e opiniões sobre uma paixão comum: os livros. Essa proximidade, reflecte-se normalmente numa colaboração exercida através de uma de duas vias:
-organização de passatempos;
-fornecimento dos lançamentos mais recentes para crítica.

Não pára de aumentar o número de passatempos organizados, bem como a frequência com que são realizados. Para promover um novo título, é convidado um blogue, onde serão oferecidos, em média, entre 1 a 5 exemplares do mesmo. Mas começam a surgir situações em que o mesmo passatempo, é organizado de forma simultânea em vários blogues. Um bom exemplo, foi o recente passatempo "Quem matou o General Zia?" da Porto Editora, que abrangeu cinco blogues diferentes (Estante dos Livros, Porta-Livros, Marcador dos Livros, Planeta Márcia e Segredo dos Livros). Os critérios mais comuns para determinar os vencedores são: responder correctamente a questões sobre a obra e autor, a rapidez da resposta ou o recurso a sorteio. O modo como estas iniciativas se processam, pode passar pelo simples fornecimento de exemplares de um livro (quase sempre novidades), ficando as regras aplicáveis ao critério do autor do blogue. Noutros casos, a aceitação desses exemplares está dependente de se aceitar igualmente determinados contornos para o passatempo. Uma variante frequente, é a que implica a leitura do primeiro capítulo do livro pelos participantes para responder a questões. Se agradar a quem o leu, ainda que não sejam os contemplados, há uma maior probabilidade de ficarem cativados pela história e o adquirirem. Numa altura em que a rotatividade de títulos nas livrarias é tão elevada, o fundamental é dar a conhecer que o título existe. Se não for para adquirir imediatamente, para entrar para a wishlist de cada um, o que pode contribuir para aumentar o período de vida útil em que é apelativo ao mercado. Quem for frequentador assíduo deste tipo de blogues, sabe que existe uma grande sobreposição de visitas habituais e referências recíprocas entre si. Marcando presença ainda que numa pequena parte deste universo, acaba-se por chegar à quase totalidade do seu público.

Depois, existe a disponibilização das novidades que vão sendo introduzidas no mercado. Algumas editoras disponibilizam os títulos escolhidos, enquanto outras perguntam se determinado livro interessa ou não. Em troca de uma opinião sobre a obra, os livros são cedidos gratuitamente. Não é muito diferente do que grande parte das editoras faz ao enviar exemplares dos suas novas apostas para diversos críticos literários, na esperança de uma recensão que muitas vezes nunca chega. Aqui, existe a certeza de que o gasto se vai materializar numa contrapartida. Nada garante que a opinião seja positiva, mas já se está a falar do livro. Não acredito que quem recebe o livro se sinta na obrigação de dizer que gostou do mesmo se não foi o caso. Mas tratando-se de ofertas, admito que no caso de uma opinião negativa, os termos da mesma possam ser menos agressivos. Parece-me uma reacção humana natural, mas dependerá da personalidade de cada um. Os prazos não parecem ser definidos antecipadamente, confiando na razoabilidade de quem recebeu os livros. Esta política, vem também responder a uma necessidade de chegar a um público que já não se revê na crítica tradicional, e procura este meio como alternativa para adquirir informação.

Como é que as editoras escolhem os blogues a quem propõem estas parcerias? Antes de mais, acredito que pelo número de visitas recebidas. O objectivo é sempre chegar ao maior número possível de potenciais leitores/clientes. Mas não é o único critério. Cada blogue tem a sua própria identidade. Alguns são dedicados a géneros específicos de literatura. E mesmo os que não tenham optado por um escopo tão específico, reflectem sempre os gostos de quem os escreve. Estamos a falar de projectos essencialmente pessoais, logo não condicionados por uma intenção de imparcialidade. É inevitável imergir um padrão de tendências. Quem os lê regularmente, reage precisamente a isso. Pelo que é possível definir aproximadamente que público arrasta cada blogue. Em função da ideia que formem, as editoras podem então seleccionar os que apresentem uma identidade mais adequada à mensagem que querem passar.

Algumas editoras têm sido particularmente activas nesta matéria. É o caso da Saída de Emergência, da Porto Editora, da Gailivro e, em particular, da Presença. Cada uma das partes retira diferentes benefícios desta parceria. Para as editoras, é a oportunidade de por um custo reduzido, colocar outros a publicitarem os seus livros. Pelo custo de alguns exemplares, conseguem chegar a um público que embora não seja tão vasto ou ainda tão previsível a nível de mercado como o atingido por outros meios, tem à partida, uma forte predisposição para este tipo de consumo. Para os responsáveis pelos blogues, é a oportunidade de receber de oferta livros recentes. E quem for leitor compulsivo, sabe que a carteira dificilmente consegue acompanhar os novos desejos. Para mais, já iam escrever as suas opiniões sobre o que lêem de qualquer forma. Um ponto negativo, é que as suas leituras podem facilmente ficar cingidas ao que lhes for enviado pelas editoras. Mas isso caberá à opção de cada um. Quanto aos prémios atribuídos, acho que deve ser extremamente recompensador para alguém que dedica tanto tempo e carinho a um blogue, poder dessa forma retribuir a atenção que lhe é dada por outros. Acredito mesmo, que possa ser tão tão agradável como receber os livros para si próprios. Para além de ser uma medida que atrai sempre novos leitores.

Estas são meras conclusões pessoais, a que cheguei através do que vou observando. Não correspondem a nenhum estudo fundamentado, feito com base em parâmetros definidos. As únicas vezes em que estive envolvido neste tipo de iniciativas, foi como concorrente. É perfeitamente possível que alguma da informação não seja a mais correcta, ou simplesmente peque por defeito. Se for o caso, sintam-se à vontade para o dizer. Pretendi apenas esquematizar as minhas noções sobre um fenómeno que me parece recente no panorama editorial, mas que revela uma importância crescente. Estou convencido que uma parte cada vez mais significativa da comunicação das editora com os seus leitores, passará por esta dinâmica.

domingo, 5 de julho de 2009

Agora falando a sério

A trilogia de posts anterior, "Cada tiro, cada melro", aborda de forma algo sarcástica algumas das reacções padrão a situações de criminalidade em bairros considerados problemáticos. Para mim, ao autonomizar e amplificar ao limite uma das vertentes do problema, um determinado interveniente simplifica excessivamente a discussão do mesmo. Acredito que algumas vezes o faça por convicção e não por má-fé. Mas também acredito que essa abordagem resulta em mais mal do que bem. Porque poucas questões são hoje em dia tão complexas como as causas por detrás desta realidade.

Tenho algumas opiniões que gostava de partilhar sobre a temática, mas acho importante fazê-lo de forma fundamentada. Fica por agora, apenas a intenção de publicar aqui, uma série de textos sobre a mesma. Assim haja tempo.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Não acredito em bruxas...mas que elas existem, existem


Hoje, dos três noticiários televisivos das 13h00, a TVI e SIC começaram com a comunicação do Governo de que se opõe à aquisição de parte da TVI (30%) pela PT. A RTP optou pela morte de Michael Jackson. E nessa matéria permaneceu durante 14 minutos. Passou testemunhos vindos da América. Entrevistou Nuno Braancamp, organizador de um concerto dado pelo artista em Portugal. Entrevistou também animadores de rádio e funcionários de lojas discográficas acerca do assunto. E só depois abordou a comunicação do Governo. Ouvimos o Primeiro-Ministro falar, como se tratasse de uma coisa de somenos importância. Como se tivesse mudado de ideias acerca do nome a atribuir a uma iniciativa governamental corriqueira. Em seguida, declarações de um representante parlamentar de cada um dos partidos da oposição. Por último, um extracto da entrevista dada por Zeinal Bava na véspera à RTP. No total, não chegou a 6 minutos. Menos de 50% do tempo dedicado ao falecimento de Jackson. Nenhuma referência a como se trata de um assunto sensível, cheio de avanços e recuos mal explicados. Nenhuma referência ao sapo que mais parecia um boi, que o Governo teve de engolir depois das declarações anteriores. Nenhuma análise sobre as repercussões que este passo terá na empresa de telecomunicações.

Pacheco Pereira disserta recorrentemente contra a instrumentalização da televisão pública pelo Governo. Nem sempre concordo com a sua opinião, ou pelo menos com o grau da mesma. Mas tenho de admitir que não está apenas em causa uma imaginação fértil e teorias da conspiração. E tenho curiosidade em saber; numa altura em muitos jornalistas (felizmente não todos) realizam mais julgamentos sumários do que investigações acerca de todos os quadrantes da sociedade, se aplicarmos o mesmo crivo ao seu trabalho, quais os critérios jornalísticos seguidos que justifiquem esta opção?

O segredo deve mesmo ser a alma do negócio


Ficamos a saber que as Feiras do Livro de Lisboa e Porto foram um sucesso. Mais de 350 mil visitantes e um aumento entre 10 a 20% nas vendas, em relação ao ano anterior (em tempos de crise é sempre positivo). O que ficamos sem saber, novamente, é o volume e valor de vendas de cada editora, que recusaram fornecer esses dados. Cada vez mais ouvimos falar na profissionalização do mercado da edição em virtude das suas novas exigências; em como é preciso inovar porque não falamos apenas de livros, agora são conteúdos. É necessária uma estratégia para diferentes plataformas. Faz sentido. E será que para a tão almejada maturidade e profissionalização do mercado, não seria importante dados fidedignos? Não é importante saber o que se vende e em que quantidade? Continua a haver uma resistência por parte das editoras em providenciar os dados da sua actividade. Não falamos de dados confidenciais, mas dos normais resultados da sua actividade. Excepto se estivermos a falar de um best-seller que bateu recordes no número de edições e exemplares vendidos. Nesse caso, não falta a indispensável fitinha que nos lembra fazermos parte de algo maior que nós; de um verdadeiro fenómeno.

Não acredito em negócios que se mantenham abertos com prejuízos crónicos. Editoras inclusive. Ninguém vive do ar, pelo que o que não dá dinheiro acaba por fechar (salvo uma excepção ou outra). Podem dar pouco dinheiro, mas dão algum. A verdade, é que estamos constantemente a ser bombardeados com discursos de como a edição é um negócio periclitante. Cerca de 50% dos portugueses não compra um livro por ano! As pessoas não lêem e o Estado devia intervir! Se alguém insinua que um livro é caro para o consumidor (o que é diferente de afirmar que é caro para os custos de produção, distribuição e retalho que teve), cai o carmo e a trindade. Permitam então que os interessados possam cruzar o máximo de informação possível sobre a edição literária, e não apenas a que lhes convém. Quanto mais informação disponível houver, mais aumenta a probabilidade de cada um dos seus agentes fazer opções adequadas no futuro. E mais legitimidade terão para chamar a atenção para os seus problemas específicos. Que mais não seja para evitar casos destes, que nos remetem para uma tão típica chico-espertice portuguesa.

Adenda: Pelo menos a Leya disponibilizou alguns dados referentes à facturação e aos autores mais vendidos (genericamente, sem referir números quanto aos exemplares vendidos). Mas no seu caso compreende-se. Um grande grupo, com grandes vendas, transmite uma imagem de vitalidade. Se alguém souber onde existe informação mais detalhada acerca destas matérias, não se coíba de a partilhar. Fica desde já o meu agradecimento.

sábado, 13 de junho de 2009

Tudo isto aconteceu. Tudo isto voltará a acontecer(?)

Ao fazer um intervalo no trabalho, passei os olhos na rtp2. Estava a dar um documentário sobre um campo de concentração alemão, que tem sido mantido como testemunho do que aconteceu. Os visitantes escutam os guias explicarem como funcionava aquele lugar. Os registos de mortes que se dividiam entre os suicídios e as mortes legais. Não havia outro tipo de mortes. Às vezes, os SS executavam alguém a sangue frio. Sem necessidade de um porquê. Atiravam depois o corpo para a vedação, tiravam uma foto para o registo, e pronto, mais um que não aguentou a pressão. Quem é que ia estranhar? Estamos a falar de judeus e afins. Não se pode esperar muito. Quem é que se ia importar? Às vezes, os detidos estavam tão magros, que quando lhes batiam com um bastão de borracha, a pele rasgava. Tudo era tão organizado, tão eficiente. Existia um organograma para dividir os ocupantes em categorias. Os mais susceptíveis de fugir tinham um ponto nas costas. Uma ajuda visual para os guardas. O pior dos piores, era o judeu homossexual. Mas esses não duravam muito. Uma vizinha do campo, conta como viu uma pilha de corpos empilhados quando voltava das compras. Nem se deram ao trabalho de os matar a todos antes. Faz sentido. Optimização de recursos. Faz todo o sentido. Vemos os "duches", os fornos. Vemos os excursionistas questionarem-se como metiam as pessoas no seu interior. Estariam mortos ou vivos; iriam de livre vontade?

Meu Deus! Como é que isto foi possível? Racionalmente sei até onde pode ir a crueldade humana. Sei até onde já foi, pelo menos. Mas ao ver aquilo...Como é que fomos capazes de o fazer, de o permitir. Elie Wiesel, sobrevivente do holocausto e Prémio Nobel da Paz, escreveu uma frase no seu livro "Noite", em que relata as experiências que viveu em dois desses campos:"Eu era o acusador, e Deus o acusado. Com os olhos bem abertos, vejo que estou só - terrivelmente só num mundo sem Deus e sem Homem." É uma boa maneira de pôr as coisas.

Quanto mais o tempo passa, mais necessários parecem estes santuários reconvertidos. Para nos lembrarem do que se passou; para nos subtraírem a possibilidade de esquecer ou relativizar. Confesso que achava um pouco macabra a peregrinação a estes lugares (excepção feita a sobreviventes). Vou vendo as coisas de forma diferente. Os testemunhos que nos foram legados materializam-se ali. Existiu mesmo. Parece coisa pouca, mas pouco mais de 60 anos foram suficientes para surgir o negacionismo destas atrocidades (com um número crescente de adeptos). Ou então, discutem-se os números. Como seis milhões de mortos é claramente exagerado. Na melhor das hipóteses, quatro. E vá lá. Não por rigor histórico. Mas como atenuante. Não foi tão grave assim afinal. Não importa que o único motivo para não ter sido ultrapassada a barreira dos dez milhões; dos vinte milhões, foi alguém tê-los detido. Mas talvez alguns lamentem apenas que os nazis não tenham conseguido acabar o serviço.

No final, um dos responsáveis explica que as aves e os animais não se aproximam do campo. Pode ser do cheiro do crematório, diz. Ele acredita que é porque sentem a morte.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Diferença entre defender a lei e a filha-da-putice 2

Primeiro ver Diferença entre defender a lei e a filha-da-putice

Consultando o site da IGAC, temos acesso ao diploma que regula a lei do preço fixo do livro. Esta, no seu artigo 15, nº1, alínea b) estabelece como excepção ao regime da mesma, os livros usados e de bibliófilo, ficando estes isentos.

Uma grande parte dos livros em questão estão em bom estado, mas não deixam de ser usados. Quando entraram no mercado, entraram respeitando a lei. As flutuações nos seus preços aconteceram já após entrarem na esfera de um privado. Caso contrário, nem lhe seria possível praticar preços significativamente mais baixos. Não falamos de um grande grupo económico, com capacidade para comprar a preço de custo. Teve necessariamente de os comprar mais baratos do que os vende. Sei disto porque é apenas lógico, e porque eu próprio já lhe vendi livros. Não tantos quanto os que lhe comprei, mas aconteceu.

A lei parece clara mas talvez haja uma interpretação ou um artigo que me tenha escapado. Afinal de contas, houve lugar a uma coima. Algum motivo a teve de fundamentar, não é?

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Diferença entre defender a lei e a filha-da-putice

A semana passada, visitei o meu vendedor de livros usados favorito a participar numa feira temporária, e fiz o meu avio do mês. Na conversa com esse meu conhecido, soube que tinha recebido uma visita da IGAC devido a uma denúncia por desrespeito da lei do preço fixo (durante os primeiros 18 meses após a sua edição, um livro não pode ser vendido com um desconto superior a 10% do preço de editor. Estão ainda disponíveis um número limitado de dias em que se pode fazer um desconto máximo de 20%, se respeitadas certas circunstâncias.). Desta visita resultou uma coima. Não conheço a lei em concreto e não sei se abrange o mercado de usados. Sei isso sim, que estamos a falar de 1 ou 2 exemplares de cada livro. Os títulos disponíveis são os que calham. Muitas vezes nem se tratam de compras e vendas, mas sim de trocas directas. Sei ainda que existe uma diferença entre alguém bater-se pelas leis concorrenciais do mercado que visam evitar desequilíbrios no mesmo, e a FILHA-DA-PUTICE MESQUINHA E INVEJOSA de quem está de olho em mais meia dúzia de trocos e não tem problemas em prejudicar alguém que faz isto nos fins-de-semana mais por carolice e um pequeno extra que outra coisa. Não se preocupem. Como é honesto, todos os livros nessas condições foram guardados até que tenha certezas sobre se pode vendê-los ou não. Mas tenho uma questão: se comprar um livro que seja uma trampa, e o vender a preço de uva mijona reflectindo a pouca estima que lhe nutro a um amigo antes dos 18 meses, posso ser alvo de coima? E o amigo que mo compre? Malandros...Devíamos ficar proibidos de ler durante 18 meses.

Mais uma vitória para os auto-proclamados guardiões da cultura!