quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Um burro, mesmo velho, aprende sempre novas línguas

  A integração da internet no nosso dia-a-dia está a influenciar a nossa forma de escrever e ler. Pelo menos é o que alguns estudos indicam:

Excertos de Texto publicado na edição da Pública de 31.10.2011

  "A verdade é que todas as nossas experiências nos modificam o cérebro, redesenham-nos os circuitos, como se fosse um computador (..) E, quanto mais repetitivas e praticadas forem as nossas acções, mais intenso será esse efeito de plasticidade do cérebro. Os músicos profissionais têm mais matéria cinzenta nas áreas cerebrais relacionadas com o planeamento dos movimentos dos dedos. Os cérebros dos atletas são mais volumosos nas zonas responsáveis por controlar a coordenação entre os olhos e as mãos."

  "Mas a descoberta desta plasticidade do cérebro, desta capacidade permanente de se alterar, é algo recente (...). Até então, o que se aceitava era algo que a sabedoria popular traduzia no provérbio "de pequenino se torce o pepino": o cérebro não mudava grande coisa desde a infância. O que não se aprendia em pequenino dificilmente se aprenderia em adulto."

   Se alguém aprender a escrever no teclado do computador - sem passar pela aprendizagem à mão -, não vai ter a necessidade de pegar em papel e caneta para tirar dúvidas, como se a mão soubesse mais de ortografia do que o cérebro onde ficam guardadas as memórias e o que aprendemos. (...) gesto ainda hoje corrente, quase um reflexo - tirar notas à mão -, vá desaparecer, mais tarde ou mais cedo."

   Nicholas Carr  (jornalista de tecnologia norte-americano) 

  "Não tenho andado a pensar como costumava pensar. Sinto-o sobretudo quando estou a ler. Costumava achar fácil mergulhar num livro ou num artigo longo. A minha mente deixava-se apanhar nas voltas da narrativa ou nas reviravoltas dos argumentos, e passava horas a passear por longas caminhadas de prosa. Hoje é raro fazer isso. Agora a minha concentração começa a vaguear passada uma página ou duas.  Começo a mexer-me, perco o fio à meada, começo a procurar outra coisa qualquer para fazer. Sinto que tenho de estar sempre a arrastar o meu cérebro indisciplinado de volta ao texto. A leitura aprofundada que antes me vinha naturalmente tornou-se agora numa luta." 

  Maryanne Wolf (especialista em dislexia)

  "Se a nossa atenção é constantemente distraída, isso influencia a profundidade da leitura, deixamos de conseguir analisar profundamente o que lemos".(...) "A leitura superficial não conduz a uma forma de pensar profunda. E o pensamento superficial não nos leva a uma vida virtuosa, na forma como nos relacionamos com os outros".(...) reconhece não existirem muitos estudos que provem ou desmintam as suas preocupações.

   "Um estudo da Universidade do Michigan chegou a uma conclusão bastante preocupante: a empatia, a capacidade de entender uma situação a partir do ponto de vista do outro, diminuiu cerca de 40 por cento entre os estudantes universitários norte-americanos durante os últimos 30 anos. Isto está a passar-se com a geração do Facebook e do Twitter."

Parabéns merecidos

  Ainda que com alguns dias de atraso, aqui ficam os merecidos parabéns ao Porta-Livros (um dos meus blogs de livros favoritos), pelo seu melhor mês de sempre em termos de visitas. Isto a 27 de Outubro. Fico com curiosidade de conhecer os números finais, e que o Porta-Livros continue por muitos e bons anos, pois pelos vistos não falta quem o aprecie. 

  Parabéns Rui Azeredo!

Debaixo d'olho Outubro (3) - Quando a fome se junta à vontade de comer


Três razões tornam O Homem do Castelo Alto numa tentação praticamente irresistível para mim:
1. É escrito por Philip K. Dick, autor com algumas das idéias mais criativas que já vi, mas igualmente inventivo na forma como as desenvolve.
2. Aborda a temática da II Guerra Mundial, um dos meus temas de eleição.
3. Fá-lo explorando a possibilidade de um desfecho diferente do real (embora existam outras obras que o façam, como por exemplo Pátria de Robert Harris).

Como o preço não é nada meigo (18,85€, 288 pág.), vai ter de esperar um pouco. Ou em alternativa, ser comprado em inglês.

Nível de interesse: Muito Elevado

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Debaixo d'olho Outubro (2) - Eduardo Mendoza


  De Eduardo Mendoza li "O mistério da cripta assombrada" e "O labirinto das azeitonas" (editados em Portugal pela Casa das Letras), e achei ambos hilariantes. O autor recorre a um humor que consegue ser simultaneamente inteligente (na forma como a sua escrita nos faz avançar na estória), e tresloucado (nos pressupostos que nos apresenta, e nas circunstâncias que engendra). O herói comum a ambos é um psicopata internado (cujo nome nunca nos é revelado), que é "requisitado" pelo comissário Flores para missões que requerem os seus talentos especiais. Mais do que a curiosidade que "A assombrosa viagem de Pompónio Flato" me suscita em concreto, o que eu realmente quero é conhecer mais da obra de Mendoza.

  O escritor catalão Eduardo Mendoza é o vencedor do Premio Planeta 2010, atribuído pelo grupo editorial espanhol Planeta ao romance sobre a Guerra Civil de Espanha «Riña de gatos», que escreveu sob o pseudónimo de Ricardo Medina.

Nível de interesse: Elevado

Capas que ficam na retina (1)


O livro não me desperta interesse, mas a fotografia foi bem escolhida.
 Será que o maestro se inspirou em Dali?

 

D. Amélia - Isabel Stilwell


  Isabel Stilwell recria neste romance a vida da última rainha de Portugal, D. Amélia (1865-1951). Cobrindo a totalidade da sua vida, e predominantemente através da perspectiva pessoal da própria Amélia, o livro tem particular incidência sobre o período do seu crescimento em França (após o regresso familiar do exílio inglês), e os anos de casamento com D. Carlos. De forma mais sucinta, refere igualmente o período subsequente ao regicídio, que haveria de culminar em novo exílio (realidade que marcou a sua vida), e que a acompanhou até à sua morte.

  Através das suas vivências contactamos com um período tumultuoso da história europeia, no que ao término ou sobrevivência de monarquias se refere. Primeiro, com o clã Orleães, quando o seu pai regressa a França na esperança de reinstituir a monarquia que havia terminado com o seu avô, ensejo que nunca alcançaria. É com Amélia, a filha mais velha, que o Conde de Paris partilha as suas convicções e visões para o futuro de França, sobre a égide de uma monarquia constitucional. É com Luís Filipe que Amélia forma a convicção do que um rei deve ser, sempre tendo como fundamental a noção de dever para com o seu povo. Acompanhamos a sua infância, de uma criança séria e contida, sempre preocupada com o que é esperado de si, e decidida a não desapontar o seu ídolo, o pai. Com uma família unida (facto a que não era alheia uma propensão pelo casamento com primos direitos), é difícil a D. Amélia deixar para trás tudo o conheceu quando chega o momento do seu casamento.

  A sua nova vida tem início aquando do seu casamento com o príncipe herdeiro de Portugal, de seu garboso nome Carlos Fernando Luís Maria Vítor Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis José Simão de Bragança Sabóia Saxe-Coburgo-Gotha, a partir do qual o nosso país seria a sua nova pátria. Apesar de uma aliança entre duas casas reais, este casamento foi também um casamento por amor. As elevadas expectativas que tinha para uma vida em comum foram inicialmente cumpridas, talvez mesmo excedidas. Mas o passar dos anos haveria de trazer um fosso crescente entre ambos, à medida que deixava de reconhecer o Carlos que conhecera e pelo qual se apaixonara, fraco perante os prazeres da vida, e negligente face às necessidades do povo. Não que D. Carlos tivesse apenas defeitos. Mas os seus dotes (nomeadamente diplomáticos) eram largamente superados pelas suas falhas. Acompanhamos a ascensão de Carlos ao trono após a morte do seu pai; a forma como a sua sogra, D.Maria Pia, se vingava no erário público das humilhações públicas a que era sujeita pelo marido; o nascimento e infância dos princípes herdeiros; e como a sua forte noção de dever se materializou numa impressionante, sobretudo para a época, obra social que visava a melhoria das condições de vida dos mais desfavorecidos. Conhecemos ainda o clima e os sinais que precederam a instauração da república no nosso país.

  As convicções de D. Amélia, ainda que sólidas, acabaram por sofrer a erosão de uma vida atravessada por dificuldades. Carlos, foi um marido desrespeitador, e que menosprezava aquele que podia ser o seu contributo para o seu reinado, mas a quem apesar de tudo amava. Mais preocupado com o prazer do que com o país, D.Amélia vivia no receio que os filhos seguissem o seu exemplo. Empenhou-se então em preparar o filho para ser o melhor rei possível, e um regente de que se pudesse orgulhar. Quando este lhe é roubado, desaparece com ele a sua razão de viver. D. Amélia sentia que o seu povo nunca a chegou a amar, apesar do seu esforço, e que via em si, e na sua família, apenas gente que espoliava o país de preciosos recursos financeiros sem em nada retribuir. D. Amélia é-nos apresentada como alguém de extrema dignidade, que foi-se tornando uma mulher amargurada e descrente, com a sua existência trespassada pelo adágio que um dia ouviu a uma tia: "a felicidade cobra sempre o seu preço".

  A autora consegue captar a essência de uma mulher nobre (em ambos os sentidos), mas que foi preparada para um mundo que rapidamente desaparecia. O seu colar de 671 pérolas, cada uma representativa de um dos bons momentos que viveu em Portugal. Voltou a Portugal uma única vez após o exílio (a convite de Salazar a quem muito admirava), em 1945.

  Isabel Stilwell, conhecida sobretudo pelo seu trabalho como jornalista (foi directora da Notícias Magazine), tem-se firmado nos últimos anos como autora de romances históricos: Filipa de Lencastre e Catarina de Bragança, igualmente sobre a vida de raínhas. As fotos que Isabel Stilwell incorpora no livro aumentam significativamente o seu impacto, na medida que temos uma consciência mais apurada de como o que estamos a ler teve uma base real. Muitas das cartas reproduzidas no livro são reais, já não sucedendo o mesmo com os diários, embora a autora se tenha baseado nos originais. A escrita de Stilwell é cuidada, mas perfeitamente acessível. Embora não seja um livro barato, dificelmente damos o nosso dinheiro por mal empregue.

Classificação: 9/10 - O livro consegue cumprir de forma sublime o objectivo a que se propõe.

Autora: Isabel Stilwell
Editora: Esfera dos Livros
Edição: Março 2010
Páginas: 554
Preço: 22€


Lado B outra vez

"Dois homens foram detidos por assaltarem a caixa de esmolas de uma igreja (...), ou como os padres dizem: o dinheiro para a vaselina."


Lado B, com Bruno Nogueira, 22 Outubro, RTP

O lado B de Pedro Paixão



  No passado dia 22 de Outubro, vi a entrevista de Pedro Paixão no Lado B. Fiquei estupefacto. Pensei que o homem não tinha os cinco alqueires bem medidos. Com uma conversa daquelas, ou o homem estava pedrado, ou um consumo continuado de absinto havia finalmente feito estragos irreparáveis aos seus neurónios. Gosto do que li do homem, mas aquilo era para além de estranho, chegando a ser constrangedor (não apenas para o expectador, mas também para os presentes).

  Descobri entretanto que Pedro Paixão padece de doença bipolar, diagnosticada aos 19 anos, o que explica, pelo menos parcialmente, um comportamento tão peculiar. E se digo pelo menos parcialmente, é porque existem muitas pessoas diagnosticadas com esta doença que fazem a sua vida de forma perfeitamente ordinária. Desconheço a gravidade do caso concreto, e nunca vi sequer outras presenças do autor em televisão para saber se é recorrente este comportamento. Pode simplesmente ter-se esquecido de tomar o medicamento (sem sarcasmos, em muitos casos nota-se logo). O desconhecimento de determinada informação pode ser o bastante para condicionar as conclusões a que chegamos. Por este motivo, não consigo ter uma opinião definida se estamos perante uma prova de coragem de alguém que quer viver a sua vida normalmente, ou se aproveitamento por parte de quem o recebe (neste caso pareceu-me que não; Bruno Nogueira foi precisamente quem mais constrangido me pareceu). Pode até tratar-se de ambas ou nenhuma das hipóteses enunciadas. 

  De qualquer forma, do ponto de vista da opinião pública, é sempre positivo que personalidades que se destaquem em áreas mediáticas assumam e partilhem a sua convivência com esta doença (muito mais disseminada do que se possa pensar), contribuíndo para a desmistificar aos olhos de todos, incluindo os próprios doentes.

  Num testemunho para uma colectânea da Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares, o escritor descreveu "o pólo depressivo da sua doença de modo existencial e quase clínico":

  “ O tempo aparece como uma massa informe, pegajosa, impenetrável, porque o sentido que podia ordenar se ausentou, fez greve, sumiu. Ora, não havendo futuro, não há passado nem presente, não há nada. As sinapses dos meus neurónios mandaram-me passear”

  O autor foi um dos 3 casos abordados na reportagem da SIC, Mentes Inquietas, emitida em 2009.



  "Em Portugal, há mais de 100 mil pessoas que sofrem de algum tipo de distúrbio bipolar; uma perturbação psíquica que se caracteriza por oscilações acentuadas do humor com crises repetidas de depressão e de euforia. Cada um dos doentes tem uma forma particular de manifestar a bipolaridade e de reagir ao diagnóstico, à terapeutica e ao estigma."

  "A vida de 3 pessoas que sofrem de doença bipolar Pedro Paixão tinha 19 anos quando lhe foi diagnosticada a doença maniaco-depressiva. Em 1976, era esta a designação da doença bipolar. Só aos 30 anos, é que o então professor universitário de Filosofia, começou a ser acompanhado regularmente por um psiquiatra e aderiu à terapeutica. Hoje, o escritor - que abandonou a vida académica em 2005 por causa da doença - garante que aprendeu a lidar melhor com os seus humores."

Entrevista a Carlos Moreno

  Se ontem falava do livro Como o Estado Gasta o Nosso Dinheiro, nem de propósito o seu autor, o  juiz-conselheiro do Tribunal de Contas jubilado Carlos Moreno, dá uma entrevista ao Público de hoje:

- Perfil;
- “Ninguém sabe quanto dinheiro deve o Estado";
- "Estão em curso renegociações nas Estradas que serão escandalosas";
- "As parcerias público-privadas não são recomendáveis".

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Debaixo d'olho Outubro (1) - Mas em tempo de crise arrisco-me a ficar indisposto...


Os Donos de Portugal - Um trabalho conjunto sobre como certos clãs familiares têm concentrado em si uma significativa parte da riqueza de Portugal. As uniões através de casamentos e os negócios que permitiram a rápida recuperação de alguns empresários após um 25 de Abril que muito os penalizou, são algumas das temáticas abordadas no livro. Fruto de uma investigação por pessoas assumidamente de esquerda, desde logo sofreu a crítica de parcialidade e propaganda, embora muitos dos que a fizeram assumam que a façam por presunção. Prefiro encará-lo como uma perspectiva, posteriormente sujeita ao senso crítico de cada um.

Quem são os donos de Portugal? - texto no Arrastão  

Nível de interesse: Moderado

Um livro que analisa as opções em que o Estado gasta, e muitas vezes desperdiça, os recursos obtidos através de impostos. Uma discussão adequada face ao contexto político-económico actual, precisamente por esse motivo pode ser propício a provocar-me azia. E em época de vacas magras, vai provavelmente ficar para segundo plano. Como não posso controlar a forma como o Estado gasta o nosso dinheiro, tenho de me cingir a como gasto o meu.

Nível de interesse: Moderado

Alexandria reinaugurado


O Benfica tem a Vitória para assinalar efemérides, o Alexandria tem a Maria.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Notas sobre o mundo dos livros - Sol na eira e chuva no nabal

  Há alguns meses foram divulgados relatórios que revelam o crescimento da indústria editorial em Portugal. Para além das vozes que se levantaram, e bem, para parabenizar o feito, para mais em tempo de crise, outras houve que salientaram, em tom censuratório, como o mesmo foi alcançado sem apoios do Estado, ao contrario de outras industrias culturais nacionais (com o cinema, esse eterno elefante branco, à cabeça). 

  Com toda a paixão que tenho pelos livros, não vislumbro nenhum mérito extraordinário em um negócio dar lucro. Ainda que seja um dotado das particularidades próprias do universo dos livros. Vejo motivos de regozijo, de orgulho por um trabalho bem sucedido. Para alguns, a satisfação de contribuir para o enriquecimento da sociedade através da cultura. Mas a indústria editorial não deixa de ser um negócio, e deve prosperar por si próprio. 

  Discordo do discurso de dois pesos e duas medidas que muitas vezes se lhe aplica. Como quando se critica os grandes grupos do mundo editorial de se comportarem de forma similar ao que fariam no ramo das farturas, detergentes ou viagens, sem o respeito devido pelas suas especificidades. Não morro de amores por essa perspectiva. Mas não deixa de ser uma perspectiva, para mais fiável, porque normalmente esses grupos são de facto lucrativos. E nem toda a gente que depende desta indústria para viver, o faz, em parte ou sobretudo, por amor e vocação. Para muitos é apenas um ganha-pão. Nem sempre podemos ter o melhor de dois mundos. E ainda bem que o mundo em que vivemos começa a permitir a vitalidade do livro sem apoios artificiais.

  Nota-se um esforço na maior parte dos seus intervenientes para caminhar para uma progressiva profissionalização e modernização. Mas ainda existe um longo caminho a percorrer, nomeadamente na transparência com que comunicam publicamente os seus resultados. Falta de transparência essa que permite um recurso ao discurso do coitadinho quando conveniente. Se um determinado negócio não é rentável, embora muitas vezes lastimável o desfecho, encerra-se o mesmo. Se se tratar de uma área entendida como de interesse público (porque nem tudo o que é bom e importante tem lucro, e vice-versa), apesar do seu prejuízo crónico, intervém o financiamento público.

  Mas nem sequer é verdade que este sector esteja isento de apoios do Estado. Desde logo por estar sujeito a uma taxa de IVA reduzida. E não está sequer sujeito a um escrutínio que determine que livros devem beneficiar de isenção completa, intermédia, ou simplesmente não a ter (ao contrário do que sucede nos bens alimentares por exemplo). Por mais que goste de ler, não consigo em boa consciência, descrever o último livro de António Lobo Antunes ou da saga "Sangue Fresco", como bens essenciais. Este benefício poderia muito bem estar reservado aos manuais escolares, livros técnicos ou a um conjunto de obras seleccionadas  (o problema seria estabelecer os critérios a que obedeceria a essa escolha, mas não é esse o assunto que se pretende tratar). Tal sucede porque se entende que estimular a leitura é de tal forma importante, que esta política deve estender-se desde a maior obra-prima literária à mais execrável amálgama literária jamais concebida. Mas nunca deve ser encarada como irrelevante uma incidência fiscal inferior em 15% (a indústria discográfica bem se tem queixado do tratamento diferenciado). 

  E embora este me pareça o incentivo mais relevante, não se trata do único. A CML (logo, dinheiros públicos), atribuiu por diversas ocasiões, subsídios à organização da Feira do Livro de Lisboa (desconheço se ainda o faz). Existem campanhas de estímulo à leitura periódicas, que embora se podendo questionar a sua eficácia, o facto é que o dinheiro que as financia é gasto.

  Pode-se discutir como o orçamento destinado à cultura é parco em Portugal. E de como este é inadequadamente distribuído. Mas nessa conversa, já teremos de incluir o teatro, a dança, o cinema, a música, a pintura, entre muitos outros intervenientes. E dificilmente todos sairão satisfeitos.

sábado, 24 de julho de 2010

Ele vive...

  Quatro meses decorridos; quatro meses certinhos desde a última actualização deste blog. Pouco tempo ou vontade tive para lhe dedicar. E esteve longe de ser o único a passar para segundo plano. Tarefas e momentos mais importantes surgiram. Felizmente quase todos bons, mas trabalhosos. Nem sequer agradeci ou potenciei a referência desta casa pelo Estante dos Livros (vale mais tarde do que nunca), o que deve fazer de mim uma espécie de avestruz em termos de marketing de blogs (deve ter mais visitas por dia do que o Alexandria desde que surgiu). Aproveito para agradecer à minha fiel média de 17 visitantes diários que se tem mantido pelos vistos. Poucos mas bons.

  Por andar numa correria, aliado a estar a viver num meio particularmente isolado (dupla insularidade é um termo que compreendemos apenas quando por ele passamos), acabei por me desligar um pouco do mundo em geral. E soube-me bem. Durante meses, praticamente não vi notícias. Só por mero acaso tomei conhecimento da morte de Saramago, de que se realizaram eleições no Reino Unido, e que em breve qualquer coisa como 40% da população portuguesa ver-se-á forçada a recorrer ao Banco Alimentar tendo em conta o que ouvi sobre a crise (o mais deprimente é que algo do género pode mesmo acontecer). Completamente alienado. Mas também, agora que restabeleci contacto com o mundo, começo a duvidar da sanidade da minha opção tendo em conta as inanidades que ouço (Passos Coelho, amigo, o povo  não está contigo).
 
   Esta postura foi extensiva ao mundo da blogosfera. Mas não sei se esta se alterará. São cada vez menos os blogs que acompanho. Estou convencido de que ter um blog afecta normalmente o sentido de auto-importância de uma pessoa. Com total liberdade de conteúdos, em que o filtro está completamente do lado dos leitores, é fácil subir-nos um pouco à cabeça a suposta importância do que escrevemos e de quem somos. São cada vez mais os blogs que me parecem feiras de vaidade ou locais propensos a acertos de contas. Mas cada um escolhe o que lê e deixa de ler. Se achas algo asnático, coloca na borda do prato. O nosso tempo, sobretudo quando temos menos para despender, deve ser empreendido a ler o que realmente nos agrada. Nos últimos meses, a melhor coisa que tirei da blogosfera foi a ideia de experimentar o gaspacho do pingo doce (obrigado Ouriquense). Neste regresso, gostava de ter um impacto semelhante em algum leitor.

  Quanto a livros, tenho-me moderado nas compras após alguns excessos na Feira do Livro de Lisboa (que culpa tenho eu de ter ido a Lisboa precisamente no fim-de-semana em que esta encerrava). Comprei, inclusive, um livro ao moço do Irmão Lúcia, o que me deve tornar membro honorário de algum fórum da blogosfera. O desgraçado estava a penar que nem um frango no espeto naqueles stands que mais parecem galinheiros, com o sol a bater forte e feio. O que quer que lhes paguem, é pouco. Mas contenção orçamental oblige. Apesar de tudo tenho sorte, porque a esposa recém adquirida compreende a minha dependência. Mas os fundos para pagar aos agiotas incompetentes do banco (que estavam a cobrar em excesso por uma bacorada exclusivamente deles), têm de vir de algum lado (ou vários para ser mais exacto). É claro que neste momento, a minha consideração e apego pelas instituições bancárias está algures entre a EMEL e as estações de tratamento de resíduos sólidos. E enfim, lá se vai levando a vidinha.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O encerramento da Os Meus Livros

   A revista Os Meus Livros (doravante OML) de Março será a última. Já muito boa gente expressou a sua opinião sobre este destino (aqui, aqui, aqui e aqui). Como é habitual com os recentemente falecidos, a maioria das pessoas apenas tem palavras amáveis acerca do mesmo. Confesso que não é o meu caso. Quase todas as reacções ao seu encerramento referem como é triste o desaparecimento de uma publicação exclusivamente dedicada a livros num país que praticamente não as tem. Mas poucos falam dos méritos e deméritos da mesma. Não me basta que uma publicação seja sobre um assunto que me interessa. Importa a qualidade com que o aborda.

   Comecei a ler a revista com alguma regularidade numa altura em que a anterior encarnação da LER ainda existia. Entre as duas, preferia claramente a OML. Mas desde então notei um progressivo decréscimo na sua qualidade, e simplesmente deixei de achar que valesse a pena comprá-la. As críticas a livros tornaram-se cada vez mais genéricas e as apresentações de novos lançamentos muitas vezes pouco ou nada acrescentavam às lombadas e capas dos livros. Os temas seleccionados para desenvolvimento, nem sempre se revestiam de interesse (pese a subjectividade) ou eram explorados da forma mais conveniente. Até este último número, foram sempre as entrevistas que me mereceram a maior atenção.

   O outro aspecto que destacaria dos textos que li, são os elogios ao seu director cessante, João Morales.  Acredito que fizessse muito com os parcos recursos que aparentemente tinha. Também acredito que um aumento dos mesmos se reflectisse na qualidade da publicação. Mas não querendo parecer insensível, isso pouco interesse tem. O importante para o consumidor final é que o interesse que a revista lhe suscita justifique comprá-la. E infelizmente, isso já não acontecia no meu caso. Só podemos sentir a falta de algo por que genuinamente ansiamos.

Para completar, apenas algumas notas soltas:

1. O ressurgimento da LER, por si só, já era suficiente para aumentar a concorrência sobre a OML. A forma como a LER foi praticamente incensada por muitos, em muito contribuiu para relegar a OML à obscuridade.

2. A OML tinha graves problemas de distribuição. Não era uma revista fácil de encontrar, sobretudo fora de Lisboa. Se deixou de ser colocada nas bancas porque não vendia, ou não vendia porque não era colocada nas bancas, não sei. Mas por mais de uma vez a quis comprar e não a encontrei.

3. Encerrar uma revista é uma opção do grupo económico que a detém, e concorde-se ou não, é legítima. Afinal de contas trata-se de um negócio, e é sempre mais fácil opinar sobre como gastar o dinheiro alheio. Mas isso não invalida que se possa, e deva, demonstrar respeito pelos seus responsáveis e leitores, permitindo-lhe ao menos uma despedida condigna.

4. É verdade que com a Internet, e sobretudo o advento dos blogs, a informação disponível aumentou substancialmente. Para sobreviver, a revista tem claramente de oferecer conteúdos distintos e mais aprofundados dos disponíveis em espaços de cariz predominantemente amador, sob pena de se esgotar a sua razão de ser. Mas a par dessa concorrência, existe também a possibilidade de descobrir pessoas que possam trazer contributos inovadores para esses projectos.

5. Quis o destino que o último número da OML oferecesse um livro da Ambar na sua compra. Ambar, que parece ter abandonado a sua vertente editorial, começando a ser difícil encontrar os seus livros. Acabei por comprar um livro de António Manuel Venda que me interessava ("O Que Entra Nos Livros"). Ironicamente, não consigo imaginar melhor despedida.

Cantinho kitsch da música portuguesa #3

   Porque a reinserção social dos cidadãos que prestaram contas à justiça é uma causa que merece a atenção de todos, aqui fica a contribuição do Alexandria para a mesma. Se tocar um coração que seja, já valeu a pena.

Ser Benfiquista

   Ainda que tarde e a más horas, quero aproveitar para deixar aqui algumas breves notas que me ocorreram após a vitória do Benfica no passado Domingo:

1. Obrigado Jesus por colocares o Benfica a jogar futebol. Estava farto de me deixar dormir antes do intervalo, ou pior, praguejar até me doer a garganta;

2. O Quique Flores não percebe ponta de corno de bola. Com que então está desconfiado que não utilizou o Cardozo da melhor forma? Marcar golos do banco realmente é complicado. Mas o Aimar, Di Maria e David Luiz também não foram exactamente optimizados;

3. Os jogadores do Porto podiam ser um slogan ao mau perder. Não gostar de perder é uma coisa, aqueles comportamentos são algo completamente diferente. Verdade seja dita, limitaram-se a seguir o exemplo do seu capitão. E ainda não foi desta que descobri o que o Bruno Alves precisa fazer para ser expulso;

4. As claques, sejam elas quais forem, neste momento fazem tanta falta ao futebol como a fome a um etíope;

5. Para o Jesualdo Ferreira ainda está para ser formada a equipa que seja superior em campo ao Porto em determinada ocasião. O adversário nunca foi melhor; o Porto é que esteve em dia não. Vou sentir falta destas teorias nas conferências de imprensa do ano que vem.

E no fim-de-semana há jogo com o Braga.

terça-feira, 23 de março de 2010

Cem anos de Kurosawa

  
   Se Akira Kurosawa fosse vivo, celebraria hoje 100 anos. O realizador japonês é ainda hoje um dos ícones do cinema mundial, e a sua obra continua a reflectir-se em muito do que se filma. Não apenas na abordagem de temas como a honra e a culpa, mas também nos conceitos visuais que introduziu, nomeadamente a forma como utilizava a cor nas suas películas. Muitos dos seus filmes foram posteriormente alvo de adaptações, umas mais autorizadas que outras. As mais famosas são provavelmente The Magnificent Seven, remake americano de Seven Samurais (Shichinin no Samurai), e os western spaghetti celebrizados por Sergio Leone, o qual encontrou grande parte da sua inspiração no cineasta nipónico.

   Como é costume nestas efemérides, são muitos os que falam como detendo um profundo conhecimento do autor. Não é o meu caso. Conheço pouco, muito pouco. Apenas o suficiente para ter consciência do que estou a perder quando permito que os seus filmes continuem na categoria de "por ver", em detrimento de muita coisa que acaba por ter prioridade apenas por ser mais recente. A pequena resolução pessoal de Março, na área do lazer, será ver um filme de Kurosawa por mês. Se o continuasse a adiar, o mais provável seria acabar por não o fazer.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010