terça-feira, 2 de novembro de 2010

Lado B outra vez

"Dois homens foram detidos por assaltarem a caixa de esmolas de uma igreja (...), ou como os padres dizem: o dinheiro para a vaselina."


Lado B, com Bruno Nogueira, 22 Outubro, RTP

O lado B de Pedro Paixão



  No passado dia 22 de Outubro, vi a entrevista de Pedro Paixão no Lado B. Fiquei estupefacto. Pensei que o homem não tinha os cinco alqueires bem medidos. Com uma conversa daquelas, ou o homem estava pedrado, ou um consumo continuado de absinto havia finalmente feito estragos irreparáveis aos seus neurónios. Gosto do que li do homem, mas aquilo era para além de estranho, chegando a ser constrangedor (não apenas para o expectador, mas também para os presentes).

  Descobri entretanto que Pedro Paixão padece de doença bipolar, diagnosticada aos 19 anos, o que explica, pelo menos parcialmente, um comportamento tão peculiar. E se digo pelo menos parcialmente, é porque existem muitas pessoas diagnosticadas com esta doença que fazem a sua vida de forma perfeitamente ordinária. Desconheço a gravidade do caso concreto, e nunca vi sequer outras presenças do autor em televisão para saber se é recorrente este comportamento. Pode simplesmente ter-se esquecido de tomar o medicamento (sem sarcasmos, em muitos casos nota-se logo). O desconhecimento de determinada informação pode ser o bastante para condicionar as conclusões a que chegamos. Por este motivo, não consigo ter uma opinião definida se estamos perante uma prova de coragem de alguém que quer viver a sua vida normalmente, ou se aproveitamento por parte de quem o recebe (neste caso pareceu-me que não; Bruno Nogueira foi precisamente quem mais constrangido me pareceu). Pode até tratar-se de ambas ou nenhuma das hipóteses enunciadas. 

  De qualquer forma, do ponto de vista da opinião pública, é sempre positivo que personalidades que se destaquem em áreas mediáticas assumam e partilhem a sua convivência com esta doença (muito mais disseminada do que se possa pensar), contribuíndo para a desmistificar aos olhos de todos, incluindo os próprios doentes.

  Num testemunho para uma colectânea da Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares, o escritor descreveu "o pólo depressivo da sua doença de modo existencial e quase clínico":

  “ O tempo aparece como uma massa informe, pegajosa, impenetrável, porque o sentido que podia ordenar se ausentou, fez greve, sumiu. Ora, não havendo futuro, não há passado nem presente, não há nada. As sinapses dos meus neurónios mandaram-me passear”

  O autor foi um dos 3 casos abordados na reportagem da SIC, Mentes Inquietas, emitida em 2009.



  "Em Portugal, há mais de 100 mil pessoas que sofrem de algum tipo de distúrbio bipolar; uma perturbação psíquica que se caracteriza por oscilações acentuadas do humor com crises repetidas de depressão e de euforia. Cada um dos doentes tem uma forma particular de manifestar a bipolaridade e de reagir ao diagnóstico, à terapeutica e ao estigma."

  "A vida de 3 pessoas que sofrem de doença bipolar Pedro Paixão tinha 19 anos quando lhe foi diagnosticada a doença maniaco-depressiva. Em 1976, era esta a designação da doença bipolar. Só aos 30 anos, é que o então professor universitário de Filosofia, começou a ser acompanhado regularmente por um psiquiatra e aderiu à terapeutica. Hoje, o escritor - que abandonou a vida académica em 2005 por causa da doença - garante que aprendeu a lidar melhor com os seus humores."

Entrevista a Carlos Moreno

  Se ontem falava do livro Como o Estado Gasta o Nosso Dinheiro, nem de propósito o seu autor, o  juiz-conselheiro do Tribunal de Contas jubilado Carlos Moreno, dá uma entrevista ao Público de hoje:

- Perfil;
- “Ninguém sabe quanto dinheiro deve o Estado";
- "Estão em curso renegociações nas Estradas que serão escandalosas";
- "As parcerias público-privadas não são recomendáveis".

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Debaixo d'olho Outubro (1) - Mas em tempo de crise arrisco-me a ficar indisposto...


Os Donos de Portugal - Um trabalho conjunto sobre como certos clãs familiares têm concentrado em si uma significativa parte da riqueza de Portugal. As uniões através de casamentos e os negócios que permitiram a rápida recuperação de alguns empresários após um 25 de Abril que muito os penalizou, são algumas das temáticas abordadas no livro. Fruto de uma investigação por pessoas assumidamente de esquerda, desde logo sofreu a crítica de parcialidade e propaganda, embora muitos dos que a fizeram assumam que a façam por presunção. Prefiro encará-lo como uma perspectiva, posteriormente sujeita ao senso crítico de cada um.

Quem são os donos de Portugal? - texto no Arrastão  

Nível de interesse: Moderado

Um livro que analisa as opções em que o Estado gasta, e muitas vezes desperdiça, os recursos obtidos através de impostos. Uma discussão adequada face ao contexto político-económico actual, precisamente por esse motivo pode ser propício a provocar-me azia. E em época de vacas magras, vai provavelmente ficar para segundo plano. Como não posso controlar a forma como o Estado gasta o nosso dinheiro, tenho de me cingir a como gasto o meu.

Nível de interesse: Moderado

Alexandria reinaugurado


O Benfica tem a Vitória para assinalar efemérides, o Alexandria tem a Maria.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Notas sobre o mundo dos livros - Sol na eira e chuva no nabal

  Há alguns meses foram divulgados relatórios que revelam o crescimento da indústria editorial em Portugal. Para além das vozes que se levantaram, e bem, para parabenizar o feito, para mais em tempo de crise, outras houve que salientaram, em tom censuratório, como o mesmo foi alcançado sem apoios do Estado, ao contrario de outras industrias culturais nacionais (com o cinema, esse eterno elefante branco, à cabeça). 

  Com toda a paixão que tenho pelos livros, não vislumbro nenhum mérito extraordinário em um negócio dar lucro. Ainda que seja um dotado das particularidades próprias do universo dos livros. Vejo motivos de regozijo, de orgulho por um trabalho bem sucedido. Para alguns, a satisfação de contribuir para o enriquecimento da sociedade através da cultura. Mas a indústria editorial não deixa de ser um negócio, e deve prosperar por si próprio. 

  Discordo do discurso de dois pesos e duas medidas que muitas vezes se lhe aplica. Como quando se critica os grandes grupos do mundo editorial de se comportarem de forma similar ao que fariam no ramo das farturas, detergentes ou viagens, sem o respeito devido pelas suas especificidades. Não morro de amores por essa perspectiva. Mas não deixa de ser uma perspectiva, para mais fiável, porque normalmente esses grupos são de facto lucrativos. E nem toda a gente que depende desta indústria para viver, o faz, em parte ou sobretudo, por amor e vocação. Para muitos é apenas um ganha-pão. Nem sempre podemos ter o melhor de dois mundos. E ainda bem que o mundo em que vivemos começa a permitir a vitalidade do livro sem apoios artificiais.

  Nota-se um esforço na maior parte dos seus intervenientes para caminhar para uma progressiva profissionalização e modernização. Mas ainda existe um longo caminho a percorrer, nomeadamente na transparência com que comunicam publicamente os seus resultados. Falta de transparência essa que permite um recurso ao discurso do coitadinho quando conveniente. Se um determinado negócio não é rentável, embora muitas vezes lastimável o desfecho, encerra-se o mesmo. Se se tratar de uma área entendida como de interesse público (porque nem tudo o que é bom e importante tem lucro, e vice-versa), apesar do seu prejuízo crónico, intervém o financiamento público.

  Mas nem sequer é verdade que este sector esteja isento de apoios do Estado. Desde logo por estar sujeito a uma taxa de IVA reduzida. E não está sequer sujeito a um escrutínio que determine que livros devem beneficiar de isenção completa, intermédia, ou simplesmente não a ter (ao contrário do que sucede nos bens alimentares por exemplo). Por mais que goste de ler, não consigo em boa consciência, descrever o último livro de António Lobo Antunes ou da saga "Sangue Fresco", como bens essenciais. Este benefício poderia muito bem estar reservado aos manuais escolares, livros técnicos ou a um conjunto de obras seleccionadas  (o problema seria estabelecer os critérios a que obedeceria a essa escolha, mas não é esse o assunto que se pretende tratar). Tal sucede porque se entende que estimular a leitura é de tal forma importante, que esta política deve estender-se desde a maior obra-prima literária à mais execrável amálgama literária jamais concebida. Mas nunca deve ser encarada como irrelevante uma incidência fiscal inferior em 15% (a indústria discográfica bem se tem queixado do tratamento diferenciado). 

  E embora este me pareça o incentivo mais relevante, não se trata do único. A CML (logo, dinheiros públicos), atribuiu por diversas ocasiões, subsídios à organização da Feira do Livro de Lisboa (desconheço se ainda o faz). Existem campanhas de estímulo à leitura periódicas, que embora se podendo questionar a sua eficácia, o facto é que o dinheiro que as financia é gasto.

  Pode-se discutir como o orçamento destinado à cultura é parco em Portugal. E de como este é inadequadamente distribuído. Mas nessa conversa, já teremos de incluir o teatro, a dança, o cinema, a música, a pintura, entre muitos outros intervenientes. E dificilmente todos sairão satisfeitos.

sábado, 24 de julho de 2010

Ele vive...

  Quatro meses decorridos; quatro meses certinhos desde a última actualização deste blog. Pouco tempo ou vontade tive para lhe dedicar. E esteve longe de ser o único a passar para segundo plano. Tarefas e momentos mais importantes surgiram. Felizmente quase todos bons, mas trabalhosos. Nem sequer agradeci ou potenciei a referência desta casa pelo Estante dos Livros (vale mais tarde do que nunca), o que deve fazer de mim uma espécie de avestruz em termos de marketing de blogs (deve ter mais visitas por dia do que o Alexandria desde que surgiu). Aproveito para agradecer à minha fiel média de 17 visitantes diários que se tem mantido pelos vistos. Poucos mas bons.

  Por andar numa correria, aliado a estar a viver num meio particularmente isolado (dupla insularidade é um termo que compreendemos apenas quando por ele passamos), acabei por me desligar um pouco do mundo em geral. E soube-me bem. Durante meses, praticamente não vi notícias. Só por mero acaso tomei conhecimento da morte de Saramago, de que se realizaram eleições no Reino Unido, e que em breve qualquer coisa como 40% da população portuguesa ver-se-á forçada a recorrer ao Banco Alimentar tendo em conta o que ouvi sobre a crise (o mais deprimente é que algo do género pode mesmo acontecer). Completamente alienado. Mas também, agora que restabeleci contacto com o mundo, começo a duvidar da sanidade da minha opção tendo em conta as inanidades que ouço (Passos Coelho, amigo, o povo  não está contigo).
 
   Esta postura foi extensiva ao mundo da blogosfera. Mas não sei se esta se alterará. São cada vez menos os blogs que acompanho. Estou convencido de que ter um blog afecta normalmente o sentido de auto-importância de uma pessoa. Com total liberdade de conteúdos, em que o filtro está completamente do lado dos leitores, é fácil subir-nos um pouco à cabeça a suposta importância do que escrevemos e de quem somos. São cada vez mais os blogs que me parecem feiras de vaidade ou locais propensos a acertos de contas. Mas cada um escolhe o que lê e deixa de ler. Se achas algo asnático, coloca na borda do prato. O nosso tempo, sobretudo quando temos menos para despender, deve ser empreendido a ler o que realmente nos agrada. Nos últimos meses, a melhor coisa que tirei da blogosfera foi a ideia de experimentar o gaspacho do pingo doce (obrigado Ouriquense). Neste regresso, gostava de ter um impacto semelhante em algum leitor.

  Quanto a livros, tenho-me moderado nas compras após alguns excessos na Feira do Livro de Lisboa (que culpa tenho eu de ter ido a Lisboa precisamente no fim-de-semana em que esta encerrava). Comprei, inclusive, um livro ao moço do Irmão Lúcia, o que me deve tornar membro honorário de algum fórum da blogosfera. O desgraçado estava a penar que nem um frango no espeto naqueles stands que mais parecem galinheiros, com o sol a bater forte e feio. O que quer que lhes paguem, é pouco. Mas contenção orçamental oblige. Apesar de tudo tenho sorte, porque a esposa recém adquirida compreende a minha dependência. Mas os fundos para pagar aos agiotas incompetentes do banco (que estavam a cobrar em excesso por uma bacorada exclusivamente deles), têm de vir de algum lado (ou vários para ser mais exacto). É claro que neste momento, a minha consideração e apego pelas instituições bancárias está algures entre a EMEL e as estações de tratamento de resíduos sólidos. E enfim, lá se vai levando a vidinha.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O encerramento da Os Meus Livros

   A revista Os Meus Livros (doravante OML) de Março será a última. Já muito boa gente expressou a sua opinião sobre este destino (aqui, aqui, aqui e aqui). Como é habitual com os recentemente falecidos, a maioria das pessoas apenas tem palavras amáveis acerca do mesmo. Confesso que não é o meu caso. Quase todas as reacções ao seu encerramento referem como é triste o desaparecimento de uma publicação exclusivamente dedicada a livros num país que praticamente não as tem. Mas poucos falam dos méritos e deméritos da mesma. Não me basta que uma publicação seja sobre um assunto que me interessa. Importa a qualidade com que o aborda.

   Comecei a ler a revista com alguma regularidade numa altura em que a anterior encarnação da LER ainda existia. Entre as duas, preferia claramente a OML. Mas desde então notei um progressivo decréscimo na sua qualidade, e simplesmente deixei de achar que valesse a pena comprá-la. As críticas a livros tornaram-se cada vez mais genéricas e as apresentações de novos lançamentos muitas vezes pouco ou nada acrescentavam às lombadas e capas dos livros. Os temas seleccionados para desenvolvimento, nem sempre se revestiam de interesse (pese a subjectividade) ou eram explorados da forma mais conveniente. Até este último número, foram sempre as entrevistas que me mereceram a maior atenção.

   O outro aspecto que destacaria dos textos que li, são os elogios ao seu director cessante, João Morales.  Acredito que fizessse muito com os parcos recursos que aparentemente tinha. Também acredito que um aumento dos mesmos se reflectisse na qualidade da publicação. Mas não querendo parecer insensível, isso pouco interesse tem. O importante para o consumidor final é que o interesse que a revista lhe suscita justifique comprá-la. E infelizmente, isso já não acontecia no meu caso. Só podemos sentir a falta de algo por que genuinamente ansiamos.

Para completar, apenas algumas notas soltas:

1. O ressurgimento da LER, por si só, já era suficiente para aumentar a concorrência sobre a OML. A forma como a LER foi praticamente incensada por muitos, em muito contribuiu para relegar a OML à obscuridade.

2. A OML tinha graves problemas de distribuição. Não era uma revista fácil de encontrar, sobretudo fora de Lisboa. Se deixou de ser colocada nas bancas porque não vendia, ou não vendia porque não era colocada nas bancas, não sei. Mas por mais de uma vez a quis comprar e não a encontrei.

3. Encerrar uma revista é uma opção do grupo económico que a detém, e concorde-se ou não, é legítima. Afinal de contas trata-se de um negócio, e é sempre mais fácil opinar sobre como gastar o dinheiro alheio. Mas isso não invalida que se possa, e deva, demonstrar respeito pelos seus responsáveis e leitores, permitindo-lhe ao menos uma despedida condigna.

4. É verdade que com a Internet, e sobretudo o advento dos blogs, a informação disponível aumentou substancialmente. Para sobreviver, a revista tem claramente de oferecer conteúdos distintos e mais aprofundados dos disponíveis em espaços de cariz predominantemente amador, sob pena de se esgotar a sua razão de ser. Mas a par dessa concorrência, existe também a possibilidade de descobrir pessoas que possam trazer contributos inovadores para esses projectos.

5. Quis o destino que o último número da OML oferecesse um livro da Ambar na sua compra. Ambar, que parece ter abandonado a sua vertente editorial, começando a ser difícil encontrar os seus livros. Acabei por comprar um livro de António Manuel Venda que me interessava ("O Que Entra Nos Livros"). Ironicamente, não consigo imaginar melhor despedida.

Cantinho kitsch da música portuguesa #3

   Porque a reinserção social dos cidadãos que prestaram contas à justiça é uma causa que merece a atenção de todos, aqui fica a contribuição do Alexandria para a mesma. Se tocar um coração que seja, já valeu a pena.

Ser Benfiquista

   Ainda que tarde e a más horas, quero aproveitar para deixar aqui algumas breves notas que me ocorreram após a vitória do Benfica no passado Domingo:

1. Obrigado Jesus por colocares o Benfica a jogar futebol. Estava farto de me deixar dormir antes do intervalo, ou pior, praguejar até me doer a garganta;

2. O Quique Flores não percebe ponta de corno de bola. Com que então está desconfiado que não utilizou o Cardozo da melhor forma? Marcar golos do banco realmente é complicado. Mas o Aimar, Di Maria e David Luiz também não foram exactamente optimizados;

3. Os jogadores do Porto podiam ser um slogan ao mau perder. Não gostar de perder é uma coisa, aqueles comportamentos são algo completamente diferente. Verdade seja dita, limitaram-se a seguir o exemplo do seu capitão. E ainda não foi desta que descobri o que o Bruno Alves precisa fazer para ser expulso;

4. As claques, sejam elas quais forem, neste momento fazem tanta falta ao futebol como a fome a um etíope;

5. Para o Jesualdo Ferreira ainda está para ser formada a equipa que seja superior em campo ao Porto em determinada ocasião. O adversário nunca foi melhor; o Porto é que esteve em dia não. Vou sentir falta destas teorias nas conferências de imprensa do ano que vem.

E no fim-de-semana há jogo com o Braga.

terça-feira, 23 de março de 2010

Cem anos de Kurosawa

  
   Se Akira Kurosawa fosse vivo, celebraria hoje 100 anos. O realizador japonês é ainda hoje um dos ícones do cinema mundial, e a sua obra continua a reflectir-se em muito do que se filma. Não apenas na abordagem de temas como a honra e a culpa, mas também nos conceitos visuais que introduziu, nomeadamente a forma como utilizava a cor nas suas películas. Muitos dos seus filmes foram posteriormente alvo de adaptações, umas mais autorizadas que outras. As mais famosas são provavelmente The Magnificent Seven, remake americano de Seven Samurais (Shichinin no Samurai), e os western spaghetti celebrizados por Sergio Leone, o qual encontrou grande parte da sua inspiração no cineasta nipónico.

   Como é costume nestas efemérides, são muitos os que falam como detendo um profundo conhecimento do autor. Não é o meu caso. Conheço pouco, muito pouco. Apenas o suficiente para ter consciência do que estou a perder quando permito que os seus filmes continuem na categoria de "por ver", em detrimento de muita coisa que acaba por ter prioridade apenas por ser mais recente. A pequena resolução pessoal de Março, na área do lazer, será ver um filme de Kurosawa por mês. Se o continuasse a adiar, o mais provável seria acabar por não o fazer.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Unidos nunca mais serão vencidos

   Concretizou-se finalmente o anúncio oficial de uma das primeiras grandes alterações de 2010 no mercado editorial português: a editora Sextante passa a integrar o Grupo Porto Editora. João Rodrigues (Sextante) e Manuel Alberto Valente (Porto Editora), tidos como dois dos mais conceituados editores nacionais, vão passar a trabalhar juntos. Manuel Alberto Valente chegou à Porto Editora algum tempo após abandonar a ASA, de onde saiu de forma algo conturbada após a aquisiçao desta pela Leya. Desde então, em conjunto com Cláudia Gomes, não tem parado de angariar obras e autores (alguns dos quais o acompanharam da ASA), que possibilitem o crecimento agressivo que o Grupo Porto Editora pretende para os segmentos de mercado externos ao livro escolar. Com esta aquisição, obtém acesso a um catálogo criticamente aclamado, mas apelativo a um segmento de mercado mais reduzido. A Sextante, em razão dos problemas financeiros que afectaram a distribuidora com que trabalhava, precisava ela própria de encontrar um novo fôlego. Terá assim acesso a uma estrutura alicerçada em recursos financeiros e logísticos significativamente superiores aos que estava habituada.

   As movimentações que envolvem a Porto Editora podem não ficar por aqui, uma vez que continuam a ser veiculadas notícias que a dão como concorrente da Leya na eventual aquisição da rede de livrarias Bertrand. O anúncio do grupo alemão Bertelsmann, em como pretende vender os seus investimentos em Portugal (Editoras Bertrand, Temas e Debates, e a renascida Quetzal; Círculo de Leitores; Rede de livrarias Bertrand), obriga os principais intervenientes no mercado livreiro a avaliar os custos e benefícios de avançar para estas aquisições, bem como das consequências possíveis de ser um dos seus concorrentes a fazê-lo.

Escolha o seu veneno

   Janeiro é mês de saldos, tradição que entretanto também chegou aos livros. Não se vá dar o caso de terem sobrado alguns cobres do Natal, aparecem nesta altura algumas oportunidades adequadas para os gastar.

   Se os fundos forem escassos, começa amanhã uma nova colecção da revista Sábado, em que cada livro pode ser adquirido por 1€ adicional (embora em muitos lugares seja possível comprar apenas o livro). Foi no blog Estante dos Livros, que tive conhecimento de mais esta iniciativa, incluindo os títulos que a integram e respectiva data de lançamento. Causa-me alguma estranheza que a divulgação destas colecções raramente tenha o apoio dos blogues literários de profissionais da área. É verdade que as mesmas já não são novidade, e apresentam algumas limitações. Mas quando ouvimos constantemente zurzir que os portugueses não lêem nem compram livros, é algo contraditório que quando obras de autores como Arundhati Roy, Kingsley Amis ou Richard Yates ("Revolutionary Road" foi um dos grandes destaques de 2009), são disponibilizadas a preços simbólicos (não faço ideia de como conseguem comercialiar estes livros a um preço tão reduzido), a ocasião não seja aproveitada para recuperar críticas antigas sobre os mesmos, e para (re)apresentar estes escritores. Cada um escreve no seu blog sobre o que bem entende, mas numa altura em que se promove, do melhor ao pior, praticamente tudo, parece um desperdício. É claro que a divulgação cultural, embora se tente muitas vezes passar uma imagem de desinteressado altruísmo, é sempre mais apetecível quando acarreta a respectiva compensação económica. Talvez passe por aí parte da explicação.

   O suplemento Ípsilon, do Público, lançou uma nova colecção de DVD's a um preço de 1,95€ cada. Embora tenha um preço simpático, já não se trata de uma raridade nos dias que correm. O que a distingue, são os filmes seleccionados, maioritariamente cinema independente. Muitos são difíceis de encontrar legendados em português, mesmo para os adeptos de uma estratégia aquisitiva mais criativa que explore todos os recursos que a internet oferece.

   Na FNAC, já é habitual Janeiro ser mês de outlet (até 27 de Janeiro). São muitos os livros em destaque, embora nem todos sejam contemplados por um desconto tão significativo quanto isso. Destacam-se alguns títulos da regressada Cavalo de Ferro, com descontos que vão até aos 50% ("Os Crimes do Acordeão" e "The Shipping News" de E. Annie Proulx; "Os Milagres do Anticristo" de Selma Lagerlöf; ou "As Aventuras de Pinóquio" de Carlo Collodi, com ilustrações de Paula Rego).

   Também a Bertrand, com a sua campanha "Mega Livros, mini preços", disponibiliza diversas opções com preços entre os 5 e os 10€, algumas das quais constituem uma excelente oportunidade tendo em conta o binómio qualidade/preço: "Dádiva Divina" de Rui Zink (5€); "Quinhentos Escudos Falsos" de Thomas Gifford (5€); "A Torre do Desassossego" de Lawrence Wright (7€); "A Neblina do Passado" de Leonardo Padura (7,5€), entre outros. No mesmo grupo editorial, quem se tornar agora assinante da revista LER, beneficiará da oferta do livro "a Bíblia para todos", com um p.v.p. de 34,90€. Como um ano de assinatura fica a 40€ para leitores Bertrand (a adesão não tem custos), quem tiver interesse em ambas, é de aproveitar.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Felicidades aos noivos!

O que é que a performer Dita von Teese e a actriz Rachel Evan Wood têm em comum?



O mesmo gosto em homens



Quando von Teese era Mrs. Marilyn Manson



A próxima geração



Gostos não se discutem. 

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Rói-te de inveja Zézé Camarinha

Warren Beatty dormiu com 12.775 mulheres.

Nem sempre nos lembramos dos nossos maiores avanços civilizacionais

"Não sabemos se Jorge Luis Borges escreveria de maneira diferente caso não tivesse cegado. O que ele teria lido. Como ele teria amado Buenos Aires, onde nasceu e viveu. Como ele teria amado Genebra, onde morreu. A cegueira, que é um dos nossos grandes pavores, foi total em Borges aos cinquenta anos. Em Louis Braille, cujo centenário se assinalou ontem, foi aos três anos – a criação de um alfabeto ou código para cegos constituiu uma das grande aventuras da humanidade e merece ser relembrado como um avanço indiscutível na nossa sensibilidade ao sofrimento dos outros. Braille imaginou o seu código associando-o à linguagem musical, o que já diz muito da beleza desconhecida que ele transporta. Com a obra de Braille ficámos, todos, mais humanos. Mais sensíveis. Visíveis."

Excerto da Crónica de Francisco José Viegas no Correio da Manhã a 05/01/2010. Retirada daqui.

Os piores livros lidos em 2009

1. "Bala Santa" - Luís Miguel Rocha - 1/10

    Um desastre completo. Como tinha lido o "Último Papa" e dentro do género o achei razoável, arrisquei ler a continuação, embora já desconfiado de que a estória não tinha por onde continuar. O livro é uma amálgama de lugares comuns narrativamente mutilados. A estória desenrola-se em demasiadas frentes, que demoram um tempo interminável a encontrar-se. Quando isso finalmente acontece, a recompensa não está minimamente à altura da agonia tolerada. As personagens do primeiro livro (principal foco de interesse para ler este), são relegados para segundo plano até uma fase avançada da narrativa. Trata-se de uma cópia de má qualidade do seu antecessor, em que basicamente basta substituir o nome do conspirador. Respeito o trabalho de quem escreve mesmo quando não gosto do resultado final, mas tenho de confessar que ter dispendido pasta de papel nesta obra constitui um atentado ambiental, e foram provavelmente os 10€ mais mal gastos em livros da minha vida. Só o hábito (que hoje em dia considero demasiado arreigado), de não deixar livros a meio, me fez voltar a pegar-lhe. "Bala Santa" termina com a frase: "Isto ainda não acabou." Para mim acabou de certeza.

2. "Fortaleza Digital" - Dan Brown - 2/10

    Primeiro livro de Dan Brown, apresenta todos os defeitos dos subsequentes, e nenhuma das suas qualidades. Nota-se ser uma primeira obra, em que Brown ainda está a desenvolver o seu domínio narrativo, aqui algo rombo. O livro não apresenta a fluídez que normalmente permite uma leitura contagiante dos seus thrillers, e que permite minimizar os efeitos das suas limitações. Um bom exemplo é como um dos heróis do livro não é apenas improvável, mas completamente inverosímel. Perfeitamente dispensável a menos que se seja um incondicional do autor. E mesmo aí...

3. "A Epopeia de Mr. Skullion" - Tom Sharpe - 3/10

    Uma das descobertas de 2009 foi Tom Sharpe. Depois de ler a tetralogia Wilt e o "Triunfo do Bastardo", tinha grandes expectativas para este livro, uma sátira ao meio académico britânico. Em abono da verdade, parece-me que o principal motivo para não ter apreciado o livro, foi precisamente a falta de conhecimento e identificação com as nuances desse meio. Ainda assim, gostei dos delírios amorosos do investigador Zipser com uma empregada de limpeza tida como o trambolho residente e o desfecho dado para o College e o seu ancestral guardião, Mr. Skullion.

4. "O Fado da Sombra" - Filipe Faria - 3,5/10

    É certo que se trata de um género (Fantasia, segmento youg adult) que não faz parte das minhas preferências. Mas tendo começado a ler as Crónicas de Allarya por me terem oferecido o primeiro livro, até gostei dos primeiros três volumes. As influências de outras obras tidas como referência no género são notórias, e embora a escrita fosse algo infantil (até derivado da jovem idade do autor), parecia um trabalho promissor, para mais numa área em que tanta gente se queixa de haver poucos escritores em Portugal. O problema é que não só Filipe Faria não evoluiu na sua escrita, como até regrediu. Nos dois volumes anteriores já a estória  havia estagnado, ao mesmo tempo que tentava elevar a intriga a uma qualquer dimensão etérea que não se compreende de todo. A segunda metade de "O Fado da Sombra" interrompe esse ciclo, mas acaba por cair no extremo oposto, encaixando demasiados acontecimentos significativos num diminuto número de páginas. Salvam-se as descrições das lutas, ainda que por vezes demasiado longas, que para serem eficazes têm de galvanizar o leitor. Numa literatura sem grande tradição das mesmas, o autor não se sai mal.

5. "Como tornar o Benfica Campeão" - José Veiga - 5/10

    Aficcionado de futebol e do Benfica, tinha curiosidade moderada acerca deste livro. O suficiente para o comprar quando o vi em promoção. É, em grande medida, uma defesa pública do trabalho que José Veiga realizou enquanto director desportivo do Sport Lisboa e Benfica. Começando por descrever a sua ascensão enquanto empresário de jogadores, debruça-se em maior pormenor sobre os pormenores da sua estadia no Benfica, que acabou por abandonar de forma conturbada. Como zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades, algumas das revelações que faz parecem credíveis. Temos a consciência de estar a ouvir apenas um lado da história, mas outra coisa não seria de esperar neste caso. É também a oportunidade para ouvir algumas histórias de balneário do último campeonato conquistado pelo Benfica.

6. "A Liga dos Homens Assustados" - Rex Stout - 5/10

    Gosto de ler policiais. E "A Liga dos Homens Assustados", não sendo um mau exemplo do género, não me prendeu a atenção. Sobretudo, não me senti cativado pelo carisma do protagonista, Nero Wolfe. Uma figura gargantuesca, como em determinada altura se refere a si próprio, que abomina movimentar-se fora do conforto do seu lar mais do que o estritamente necessário. Recorre ao seu associado para reúnir os elementos a partir dos quais deslindará o caso através dos seus processos mentais. Neste caso, a suspeita de que um escritor que ficou aleijado na sua juventude devido a uma brincadeira de mau gosto de um grupo de colegas, decidiu finalmente vingar-se. As mortes começam a suceder-se, e cabe a Nero Wolfe (a troco de uma significativa compensação financeira), averiguar da sua culpabilidade e dos meios empregados. Lê-se razoavelmente mas não deixa vestígios.