terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Rói-te de inveja Zézé Camarinha

Warren Beatty dormiu com 12.775 mulheres.

Nem sempre nos lembramos dos nossos maiores avanços civilizacionais

"Não sabemos se Jorge Luis Borges escreveria de maneira diferente caso não tivesse cegado. O que ele teria lido. Como ele teria amado Buenos Aires, onde nasceu e viveu. Como ele teria amado Genebra, onde morreu. A cegueira, que é um dos nossos grandes pavores, foi total em Borges aos cinquenta anos. Em Louis Braille, cujo centenário se assinalou ontem, foi aos três anos – a criação de um alfabeto ou código para cegos constituiu uma das grande aventuras da humanidade e merece ser relembrado como um avanço indiscutível na nossa sensibilidade ao sofrimento dos outros. Braille imaginou o seu código associando-o à linguagem musical, o que já diz muito da beleza desconhecida que ele transporta. Com a obra de Braille ficámos, todos, mais humanos. Mais sensíveis. Visíveis."

Excerto da Crónica de Francisco José Viegas no Correio da Manhã a 05/01/2010. Retirada daqui.

Os piores livros lidos em 2009

1. "Bala Santa" - Luís Miguel Rocha - 1/10

    Um desastre completo. Como tinha lido o "Último Papa" e dentro do género o achei razoável, arrisquei ler a continuação, embora já desconfiado de que a estória não tinha por onde continuar. O livro é uma amálgama de lugares comuns narrativamente mutilados. A estória desenrola-se em demasiadas frentes, que demoram um tempo interminável a encontrar-se. Quando isso finalmente acontece, a recompensa não está minimamente à altura da agonia tolerada. As personagens do primeiro livro (principal foco de interesse para ler este), são relegados para segundo plano até uma fase avançada da narrativa. Trata-se de uma cópia de má qualidade do seu antecessor, em que basicamente basta substituir o nome do conspirador. Respeito o trabalho de quem escreve mesmo quando não gosto do resultado final, mas tenho de confessar que ter dispendido pasta de papel nesta obra constitui um atentado ambiental, e foram provavelmente os 10€ mais mal gastos em livros da minha vida. Só o hábito (que hoje em dia considero demasiado arreigado), de não deixar livros a meio, me fez voltar a pegar-lhe. "Bala Santa" termina com a frase: "Isto ainda não acabou." Para mim acabou de certeza.

2. "Fortaleza Digital" - Dan Brown - 2/10

    Primeiro livro de Dan Brown, apresenta todos os defeitos dos subsequentes, e nenhuma das suas qualidades. Nota-se ser uma primeira obra, em que Brown ainda está a desenvolver o seu domínio narrativo, aqui algo rombo. O livro não apresenta a fluídez que normalmente permite uma leitura contagiante dos seus thrillers, e que permite minimizar os efeitos das suas limitações. Um bom exemplo é como um dos heróis do livro não é apenas improvável, mas completamente inverosímel. Perfeitamente dispensável a menos que se seja um incondicional do autor. E mesmo aí...

3. "A Epopeia de Mr. Skullion" - Tom Sharpe - 3/10

    Uma das descobertas de 2009 foi Tom Sharpe. Depois de ler a tetralogia Wilt e o "Triunfo do Bastardo", tinha grandes expectativas para este livro, uma sátira ao meio académico britânico. Em abono da verdade, parece-me que o principal motivo para não ter apreciado o livro, foi precisamente a falta de conhecimento e identificação com as nuances desse meio. Ainda assim, gostei dos delírios amorosos do investigador Zipser com uma empregada de limpeza tida como o trambolho residente e o desfecho dado para o College e o seu ancestral guardião, Mr. Skullion.

4. "O Fado da Sombra" - Filipe Faria - 3,5/10

    É certo que se trata de um género (Fantasia, segmento youg adult) que não faz parte das minhas preferências. Mas tendo começado a ler as Crónicas de Allarya por me terem oferecido o primeiro livro, até gostei dos primeiros três volumes. As influências de outras obras tidas como referência no género são notórias, e embora a escrita fosse algo infantil (até derivado da jovem idade do autor), parecia um trabalho promissor, para mais numa área em que tanta gente se queixa de haver poucos escritores em Portugal. O problema é que não só Filipe Faria não evoluiu na sua escrita, como até regrediu. Nos dois volumes anteriores já a estória  havia estagnado, ao mesmo tempo que tentava elevar a intriga a uma qualquer dimensão etérea que não se compreende de todo. A segunda metade de "O Fado da Sombra" interrompe esse ciclo, mas acaba por cair no extremo oposto, encaixando demasiados acontecimentos significativos num diminuto número de páginas. Salvam-se as descrições das lutas, ainda que por vezes demasiado longas, que para serem eficazes têm de galvanizar o leitor. Numa literatura sem grande tradição das mesmas, o autor não se sai mal.

5. "Como tornar o Benfica Campeão" - José Veiga - 5/10

    Aficcionado de futebol e do Benfica, tinha curiosidade moderada acerca deste livro. O suficiente para o comprar quando o vi em promoção. É, em grande medida, uma defesa pública do trabalho que José Veiga realizou enquanto director desportivo do Sport Lisboa e Benfica. Começando por descrever a sua ascensão enquanto empresário de jogadores, debruça-se em maior pormenor sobre os pormenores da sua estadia no Benfica, que acabou por abandonar de forma conturbada. Como zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades, algumas das revelações que faz parecem credíveis. Temos a consciência de estar a ouvir apenas um lado da história, mas outra coisa não seria de esperar neste caso. É também a oportunidade para ouvir algumas histórias de balneário do último campeonato conquistado pelo Benfica.

6. "A Liga dos Homens Assustados" - Rex Stout - 5/10

    Gosto de ler policiais. E "A Liga dos Homens Assustados", não sendo um mau exemplo do género, não me prendeu a atenção. Sobretudo, não me senti cativado pelo carisma do protagonista, Nero Wolfe. Uma figura gargantuesca, como em determinada altura se refere a si próprio, que abomina movimentar-se fora do conforto do seu lar mais do que o estritamente necessário. Recorre ao seu associado para reúnir os elementos a partir dos quais deslindará o caso através dos seus processos mentais. Neste caso, a suspeita de que um escritor que ficou aleijado na sua juventude devido a uma brincadeira de mau gosto de um grupo de colegas, decidiu finalmente vingar-se. As mortes começam a suceder-se, e cabe a Nero Wolfe (a troco de uma significativa compensação financeira), averiguar da sua culpabilidade e dos meios empregados. Lê-se razoavelmente mas não deixa vestígios.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

As últimas compras de 2009


As melhores aquisições de 2009 (1)

      A monumental obra de Érico Veríssimo (em qualidade pelo que dizem, mas de certeza em dimensão), "O Tempo e o Vento", estava na minha lista de desejos há muito. Mas comprar sete volumes não é pêra doce, pelo que fui adiando a sua compra. Entretanto o preço dos mesmos desceu, situando-se agora nos 10€. E quando numa colaboração entre a Ambar e a revista "Os Meus Livros", se proporcionou a possibilidade de comprar alguns dos mesmos, decidi deitar mãos à obra. Cabe aqui fazer um grande e sincero agradecimento à Be. Estando a residir actualmente num lugar onde nunca ouviram sequer falar da revista, foi a Be., que conheço apenas do fórum Estante dos Livros, quem se ofereceu para mos comprar e enviar pelo correio. Graças a ela, poupei cerca de 13€ na compra de dois volumes, o que ajudou a amenizar a pancada. A promoção de Natal da Wook em que metade do valor das compras efectuadas em Dezembro, seria devolvido em Janeiro num vale de compras, fez o resto do serviço. Como alguns dos títulos já nem apareciam como disponíveis na página da editora, estive até à última com a incerteza se iria receber todos os livros ou não. A Ambar parece estar a desinvestir, senão mesmo desistir, da sua aposta na literatura. Não sei até que ponto esta percepção está correcta, mas acabou por precipitar a compra de tantos livros de uma só assentada.

    Uma última palavra, extremamente negativa, para a revista "Os Meus Livros". Bem se podem criar blogs, twitters e afins, com intuito de permanecer actualizado, que os mesmos acabam por não passar de meras ferramentas. Se alguém vos envia um mail a colocar uma questão, respondam por favor. É da mais elementar educação e competência em matéria de relações públicas. Nem que mandem a pessoa passear. Caso contrário, de nada vale terem o vosso endereço disponível no blog.





Livros lidos em 2009

    Deixo em seguida, a lista das minhas leituras ao longo de 2009, partindo da mais recente para a mais antiga. À frente de cada título, está uma classificação entre 0 e 10, ilustrativa da minha opinião. No que a opinar sobre livros diz respeito, tento conciliar uma análise mais objectiva do livro (qualidade de escrita; mecanismos narrativos utilizados; vocabulário seleccionado), com uma valoração pessoal do mesmo. Nem sempre os livros mais bem escritos são os que mais nos marcam. E nos que o fazem, nem sempre conseguimos explicar o porquê. Para mais, existem comparações que não têm cabimento. Como submeter à mesma avaliação Eça de Queiroz e Stieg Larsson? São universos (a nível de época, enredo, vocabulário, escrita, etc.) completamente distintos. Assim, as classificações valem o que valem, e pretendem apenas ser um indicador. Ao longo dos próximos dias, irei também deixar algumas linhas acerca das principais impressões que cada um dos integrantes da lista me deixou.

  • 60. "A História Fabulosa de Peter Schlemihl" - Adelbert von Chamisso 7/10
  • 59. "A Liga dos Homens Assustados" - Rex Stout - 5/10
  • 58. "O Meu Pé de Laranja Lima" - José Mauro de Vasconcelos - 10/10
  • 57. "A Águia do Império" - Simon Scarrow - 7,5/10
  • 56. "A Mancha Humana" - Philip Roth - 9,5/10
  • 55. "A Epopeia de Mr. Skullion" - Tom Sharpe - 3/10
  • 54."Russendisko" - Wladimir Kaminer - 6,5/10
  • 53."Despedida de Solteiro" - Peter James - 6,5/10
  • 52."O Criado Secreto" - Daniel Silva - 8,5/10
  • 51."O Assassino Inglês" - Daniel Silva - 8/10
  • 50."Vai e não voltes tão depressa" - Fred Vargas - 8/10
  • 49."O Carteiro de Pablo Neruda" - Antonio Skármeta - 7,5/10
  • 48."O Hóspede" - Marie Belloc Lowndes - 7/10
  • 47."Dead Until Dark" - Charlaine Harris - 6/10
  • 46."António e Cleópatra" - Colleen McCullough - 8,5/10
  • 45."O Priorado do Cifrão" - João Aguiar - 7/10
  • 44."Fortaleza Digital" - Dan Brown - 2/10
  • 43."O Grande Conspirador" - David Liss - 6/10
  • 42."O Vespeiro" - Patricia Cornwell - 5,5/10
  • 41."Os Pássaros da Morte" - Mo Hayder - 8/10
  • 40."O Fado da Sombra" - Filipe Faria - 3,5/10
  • 39."Pecados Íntimos - Little Children" - Tom Perrotta - 7,5/10
  • 38."O Cemitério dos Sem Nome" - Patricia Cornwell -  7/10
  • 37."A Quinta dos Cadáveres" - Patricia Cornwell - 7,5/10
  • 36."A Rainha no Palácio das Correntes de Ar" - Stieg Larsson - 9/10
  • 35."Cruel e Invulgar" - Patricia Cornwell - 8/10
  • 34."Tudo o que Resta" - Patricia Cornwell - 7/10
  • 33."O Monstro e Outros Contos" - Stephen Crane - 7/10
  • 32."O Primo Basílio" - Eça de Queiroz - 9/10
  • 31."Filho de Deus" - Cormac Mccarthy - 8/10
  • 30."A Maldição de Edgar" - Marc Dugain - 6,5/10
  • 29."O Homem em Queda" - Don Delillo - 7/10
  • 28."Sequestro em Directo" - Sebastian Fitzek - 7,5/10
  • 27."As Dez Figuras Negras" - Agatha Christie - 7/10
  • 26."Os Pecados do Lobo" - Anne Perry - 6/10
  • 25."A Canção de Kali" - Dan Simmons - 7/10
  • 24."As Velas Ardem Até ao Fim" - Sándor Márai - 8,5/10
  • 23."Ladrão de Almas" - Yrsa Sigurdadottir - 7/10
  • 22."20 Navios - Crónicas" - Ruy Guerra - 5,5/10
  • 21."Corpo de Delito" - Patricia Cornwell - 7/10
  • 20."O Corrupto e o Diabo"- Paulo Morgado - 7/10
  • 19."The Ignorance of Blood" - Robert Wilson - 7,5/10
  • 18."Tóquio Ano Zero" - David Peace - 8/10
  • 17."Noites de Cocaína" - J.G.Ballard - 7/10
  • 16."O Triunfo do Bastardo" - Tom Sharpe - 9/10
  • 15."Telefona se Precisares de Mim" - Raymond Carver - 7,5/10
  • 14."Assassini" - Thomas Gifford - 9/10
  • 13."Bala Santa" - Luís Miguel Rocha - 1/10
  • 12."O Homem que Corrompeu Hadleyburg" - Mark Twain - 8/10
  • 11."Como Tornar o Benfica Campeão" - José Veiga - 5/10
  • 10."A Tábua de Flandres" - Arturo-Perez Reverte - 7,5/10
  • 9. "Requiem para D. Quixote" - Dennis McShade - 7/10
  • 8. "Wilt em Parte Incerta" - Tom Sharpe 7/10
  • 7. "Mata-me se Puderes" - Peter James - 7/10
  • 6. "Wilt na Maior" - Tom Sharpe - 7,5/10
  • 5. "A Mão Direita do Diabo" - Dennis McShade - 7/10
  • 4. "Os Detectives Selvagens" - Roberto Bolaño - 9,5/10
  • 3. "Loja dos Suicídos" - Jean Teulé - 7/10
  • 2. "A Alternativa Wilt" - Tom Sharpe - 7,5/10
  • 1. "Wilt" - Tom Sharpe - 8/10

Lhasa de Sela parte aos 37 anos

Descubro através do Bibliotecário de Babel, que a cantora Lhasa de Sela faleceu no primeiro dia de 2010, finalmente sucumbindo ao cancro da mama que combateu durante 21 meses. Para além da dor que quem a amava estará a sentir, também o mundo fica um lugar mais triste sem a sua extraordinária voz. O seu primeiro álbum, La Llorona, permanece como um dos meus álbuns favoritos. Foi bela a marca que deixou no mundo.



Quando o Natal traz uma prenda indesejada

domingo, 3 de janeiro de 2010

Hannah E Martin

    A peça "Hannah e Martin", da autoria de Kate Fodor, é a mais recente encenação do Teatro Aberto. Hannah Arendt, uma conceituada académica judia (foi autora, por exemplo, de "Eichman em Israel"), regressa à Alemanha, onde nasceu e estudou, para realizar uma série de artigos acerca dos julgamentos de Nuremberga. Este regresso leva-a a revisitar querelas antigas, como o relacionamento com Martin, seu antigo professor e amante, entretanto convertido ao nazismo. Tido como um génio a certo ponto da sua vida, Martin foi entretanto afastado do ensino devido ao seu comportamento enquanto reitor universitário do III Reich. Tendo sido uma das que defendeu esse afastamento, Hannah questiona-se agora se foi a opção correcta. Até que ponto esse dilema é motivado por uma perspectiva objectiva ou por algo mais, não é transparente nem para a própria. Enquanto as lições de Martin se tornavam na pedra basilar do que haveria de ser o seu pensamento, a relação amorosa entre ambos deixava duradoiras marcas na sua personalidade. Assistimos às suas reflexões pessoais e intelectuais, somos transportados ao seu passado, e por último, assistimos ao inevitável reencontro com Martin.

    Recai sobre três grandes actores a responsabilidade do sucesso da peça: Ana Padrão, Rui Mendes e, em menor grau, Irene Cruz  (como a nazi de trazer por casa). Embora todos consigam óptimos desempenhos, é Ana Padrão quem brilha mais alto. A conjugação das suas diferentes expressões e tons de discurso, com o jogo de luzes que pauta a peça, torna extremamente credível a sua representação de duas Hannahs, passada e presente, mediadas entre si por mais de uma década. A peça tem intervalo e uma duração ligeiramente superior a 2 horas. O preço dos bilhetes é de 15€, sendo que com alguns descontos como o de espectador frequente, podem descer até aos 10€.

Em cena até 28 de Fevereiro.



"Durante os julgamentos de Nuremberga, Hannah Arendt visita Martin Heidegger, seu antigo professor, com quem tinha tido uma relação amorosa. Este encontro entre o filósofo que aderira ao nazismo e a pensadora judia que partira para o exílio nos Estados Unidos leva-os a reviver o passado e a procurar explicar o que os tinha unido e separado. Hannah e Martin é uma peça onde o universo mais íntimo das personagens se mistura com a política, a história e a ética, colocando questões pertinentes ao espectador de hoje.




A encenação irá criar uma fusão entre a linguagem teatral e a comunicação audiovisual, confrontando o espectador com uma multiplicidade de ângulos e leituras de imagens, ora reais, ora recriadas."



Versão
João Lourenço | Vera San Payo de Lemos
Dramaturgia
Vera San Payo de Lemos
Encenação e Realização Vídeo
João Lourenço
Cenário
António Casimiro | João Lourenço
Figurinos
Maria Gonzaga
Supervisão Audiovisual
Aurélio Vasques
Luz
Melim Teixeira

Interpretação
Ana Padrão | Cátia Ribeiro | Cristovão Campos | Diogo Mesquita | Francisco Pestana | Irene Cruz | João Ricardo | João Silvestre | Luís Alberto | Maria Ana Bernauer | Rui Mendes

Só encontramos a prenda ideal quando já é tarde demais


Entre oferendas de aniversário e Natal, foi uma excelente colheita


sábado, 2 de janeiro de 2010

Cantinho kitsch da música portuguesa #2 - Edição Natal (atrasada, mas ainda falta o dia de Reis)


     Quem ouviu esta música na altura em que esteve na moda, de certeza que se recorda da mesma. Quer queira, quer não, porque a sua letra e sonoridade ficam gravadas de forma indelével na nossa mente. Mas não há melhor para nos relembrar a motivação religiosa subjacente ao Natal.




José Cid - "Amar Como Jesus Amou"

Um dia uma criança me chamou
Olhou-me nos meus olhos a sorrir
Caneta e papel na sua mão
Tarefa escolar para cumprir
E perguntou no meio de um sorriso
O que é preciso para ser feliz?

Amar como Jesus amou
Sonhar como Jesus sonhou
Pensar como Jesus pensou
Viver como Jesus viveu
Sentir o que Jesus sentia
Sorrir como Jesus sorria
E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que dormiria muito mais feliz
Sentir o que Jesus sentia
Sorrir como Jesus sorria
E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que dormiria muito mais feliz

Ouvindo atentamente, ela me olhou
E disse que era lindo o que eu falei.
Pediu que eu repetisse, por favor,
Que não dissesse tudo de uma vez.
E perguntou no meio de um sorriso
O que é preciso para ser feliz ?

Amar como Jesus amou
Sonhar como Jesus sonhou
Pensar como Jesus pensou
Viver como Jesus viveu
Sentir o que Jesus sentia
Sorrir como Jesus sorria
E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que dormiria muito mais feliz
Sentir o que Jesus sentia
Sorrir como Jesus sorria
E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que dormiria muito mais feliz

Depois que eu acabei de repetir
Seus olhos não saíram do papel
Toquei na sua cara e a sorrir
Pedi que ao transmitir fosse fiel
E ela deu-me um beijo demorado
E ao meu lado foi cantando assim

Amar como Jesus amou
Sonhar como Jesus sonhou
Pensar como Jesus pensou
Viver como Jesus viveu
Sentir o que Jesus sentia
Sorrir como Jesus sorria
E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que dormiria muito mais feliz
Sentir o que Jesus sentia
Sorrir como Jesus sorria
E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que dormiria muito mais feliz

    Notamos que o mundo é um lugar diferente quando a primeira coisa em que pensamos ao ver José Cid  rodeado de criancinhas, uma delas ao seu colo, é na Casa Pia.

    O que muita gente não sabe, é que José Cid não foi um pioneiro apenas na música popular portuguesa. Muito antes de se ouvir falar em revistas como a FHM, o artista nacional por excelência, surpreendeu o país com um arrojado "ensaio fotográfico"  para a revista Nova Gente. O Alexandria deixa aqui uma prenda de Natal tardia às suas leitoras (e leitores se for caso disso. Por estas bandas não julgamos ninguém). Bom proveito!



Bem-vindo 2010



     E começou mais um ano. 2009 não foi nada mau, mas parece-me que 2010 vai ser ainda melhor. Estou apenas a falar a nível pessoal. Porque na forma como o mundo gira, não me admiro nada que venham por aí mais problemas. A crise pode já não ser uma presença frequente à mesa, mas serão provavelmente mais visíveis algumas das sequelas que deixou. Mas enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. Além do mais, o início de um novo ano pretende-se um período de renovação de esperança e empenho (por mais breve que seja).

    O que deveria ter sido uma ausência até ao início de Dezembro, acabou por perdurar até final do ano. Tenho pena de não conseguir actualizar o Alexandria com maior frequência, mas ocupando este um lugar de prazer e não de obrigação, vê-se muitas vezes relegado não para segundo lugar, mas para sexto ou sétimo (inclusive atrás do descanso e preguiça). Em alguns meses de blog, escrevi sobretudo sobre livros, o principal impulso por detrás do Alexandria. Existem outros assuntos sobre os quais gostaria de ter escrito mais. Talvez o consiga em 2010. Escrever sobre outras coisas, e escrever mais sobre livros. Foi também interessante e recompensador a forma como acabei por estabelecer contacto, ainda que superficial, com pessoas que partilham interesses comuns.

    E o Ano Novo não é Ano Novo sem as famosas resoluções. Fala-se de livros neste caso. Como com o passar dos anos me convenci que quanto maior a resolução, menor a sua esperança de vida, contento-me em estabelecer algumas orientações.  Após um ano em adquiri uma quantidade obscena de livros (271), exige-se maior ponderação em 2010. Por um lado, não se justifica gastar dinheiro em livros quando tenho matéria-prima em casa para ler que chegaria para encomendar um filho e deixá-lo concluir o ensino primário. Talvez aí, e não é sequer um facto adquirido, começassem a escassear as alternativas de leitura. A grande decisão foi então: ler mais livros do que aqueles que compro. Pelo menos o dobro. É verdade que existem sempre novos lançamentos a tentar-nos, mas também é verdade que uma grande parte dos livros que povoavam a minha lista de desejos já cá cantam. Para além de querer evitar gastos num ano recheado de despesas, o segundo elemento que quero administrar de forma mais saudável é o tempo. Embora seja um leitor rápido, existem alturas em que pouco se consegue, ou quer ler. Não sou de estabelecer antecipadamente os livros que vou ler ou a ordem em que o farei. Essas opções prendem-se normalmente com o meu estado de espírito na altura ou com circunstancialismos do dia-a-dia. Mas embora tenha interesse por muitos assuntos e géneros, o meu perfil  de leitor já está mais ou menos definido. Não quer dizer que seja imutável, mas simplesmente já não tenho aquela curiosidade de querer conhecer tudo. O tempo que se gasta não volta, pelo quero dispênde-lo cada vez mais com obras que me marquem, ao invés de livros que mal fecho a capa já os começo a esquecer. Não quero com isto dizer que vou cingir-me a ler apenas autores criticamente conceituados e clássicos da literatura mundial. Tal como no cinema ou música, creio fazer falta disfrutar de diferentes alternativas. Para um livro ser bom, basta que o seja dentro do respectivo género. Existem autores de que sou completamente aficcionado, mas se lesse apenas o seu trabalho, não demoraria muito tempo a desenvolver uma qualquer patologia de foro homicida.

    Existem alguns autores portugueses sobre quem quero conhecer mais (José Saramago, António Lobo Antunes, Vergílio Ferreira, Eça de Queiróz) ou simplesmente conhecer (Gonçalo M. Tavares). Nos autores estrangeiros, Philip Roth. Quero ler alguns livros que estão em lista de espera (ficção e não-ficção) sobre a II Guerra Mundial, assunto que muito me interessa. Quero também restruturar (começam a falhar e a misturar-se) e aprofundar os meus conhecimentos sobre a História de Portugal (planeio recorrer aos volumes da obra de José Mattoso, precisamente com esse nome, edição Círculo de Leitores). Nos livros que quero absolutamente ler em 2010, contam-se "Os Miseráveis" de Victor Hugo (li apenas o primeiro volume de cinco); "Shantaram" de Gregory David Roberts; "Somos o Esquecimento que Seremos" de Hector Abad Faciolince; "A Neta do Sr. Lihn" de Philippe Claudel; "Gente Independente" de Halldór Laxness; e iniciar a série "Crónicas de Gelo e Fogo" de G.R.R. Martin (tanta recomendação li que me convenci).

    Para começo de conversa chega e sobra. Bom ano de 2010 para todos!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ausência por motivos de força maior

Vou ali conhecer os Açores e volto dia 1.

A minha alegre casinha



A vista da minha nova casa. Pelo menos até Agosto.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Cantinho kitsch da música portuguesa #1

Voltado que ando para a nostalgia, tenho-me lembrado de algumas pérolas da música portuguesa, que por um motivo ou outro, não devem cair no esquecimento. Durante as próximas segundas-feiras, enquanto não esgotar a matéria prima, vou deixar aqui uma música para começar bem a semana.
E a primeira galardoada é:
"Vem devagar emigrante" de Graciano Saga

Uma música pungente como poucas, nascida da inspiração de um artista especializado no público emigrante.







Vem devagar emigrante -  Letra





"Imigrante vem devagar por favor,
temos muito tempo para lá chegar
e depois, lá diz o velho ditado:
Mais vale um minuto na vida,
do que a vida num minuto."

Passou-se no mês de Agosto,
este drama tão cruel
de um imigrante infeliz
Foi tanta a pouca sorte,
na estrada encontrou a morte
quando vinha ao seu país
Do trabalho veio a casa,
preparou a sua mala
e partia da Alemanha
Mas seu destino afinal
acabou por ser fatal
numa estrada em Espanha
Dizem aqueles que viram
que ele ia tão apressado
a grande velocidade
Foi o sono que lhe deu
o controlo ele perdeu
desse carro de maldade

Foi o sono que lhe deu
o controlo ele perdeu
desse carro de maldade

Trazia na sua mente
ir ver o seu pai doente
que estava no hospital
Na ideia um só pensar
o seu paizinho beijar
ao chegar a Portugal
Mas tudo foi de repente
partiu de Benavente
o drama aconteceu
Ele vinha tão cansado
de tanto já ter rolado
e então adormeceu
Nada podendo fazer
num camião foi bater
e deu-se o choque frontal
Seu carro se esmagou
e desfeito ele ficou
num acidente mortal

Seu carro se esmagou
e desfeito ele ficou
num acidente mortal

Ele não vinha sozinho
trazia também consigo
sua mulher e filhinho
Sem dar conta de nada
e naquela madrugada
morrem os três no caminho
Quando a notícia chegou
no hospital alguém contou
o desastre que aconteceu
Seu pai que tanto sofria
nunca mais o filho via
fechou os olhos morreu
Imigrantes oiçam bem
não vale a pena correr
porque pode ser fatal
Venham todos devagar
há tempo para cá chegar
e abraçar Portugal

Venham todos devagar
há tempo para cá chegar
e abraçar Portugal


sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Lançamentos que me ficaram na retina




A Porta dos Infernos
Laurent Gaudé - Porto Editora

«Épico e sonoro, trágico ou inspirado, Laurent Gaudé comporta todo um mundo de trevas. Nas guerras, na pobreza ou no exílio, o autor procura fazer entender a dimensão solar com que cada personagem ilumina a sua própria trajectória. Ritmado, potente e fascinante, A Porta dos Infernos opõe à finitude humana a fé dos homens na possibilidade de arrancar um ser ao vazio.
A narrativa começa em 1982 quando, a caminho da escola, levado pela mão do pai, Pippo é atingido por uma bala perdida no meio de uma refrega das máfias de Nápoles. Matteo e Giuliana, os pais, passam a viver obcecados pela vingança – mas Matteo não consegue a coragem necessária para abater Cullaccio, o responsável pela morte do seu filho.
Abandonado pela mulher, Matteo vagueia pela noite de Nápoles, onde travará conhecimento com um conjunto de personagens estranhos: Grace, um travesti felliniano, Garibaldo, dono de um café que permanece aberto toda a noite, o velho padre Mazerotti e o professore Provolone, um especialista em questões esotéricas que lhes garante que é possível descer aos Infernos e que conhece, na própria Nápoles, uma das entradas possíveis. Acompanhado do padre, Matteo aventura-se então nas entranhas do Reino dos Mortos em busca do seu filho perdido.»

Passatempo "Pobres e mal-agradecidos"

    Nos últimos tempos, têm-se multiplicado os passatempos para oferecer livros nos mais variados blogs. Não há fome que não dê em fartura, e ainda bem que assim é. Participo em muitos destes passatempos e já ganhei alguns. Tenho verificado no entanto, um aumento no número de insinuações acerca da transparência dos mesmos. Cada um pensa o que quer, mas eu encaro estas iniciativas de boa-fé na honestidade de quem as organiza. Até onde sei, não retiram qualquer vantagem dos mesmos, e convenhamos que os prémios não são assim tão valiosos. 
 
    Por mais que goste de receber livros que me agradam de borla, tento não perder de vista que falamos de simples passatempos. As únicas exigências que me parecem legítimas fazer aos seus responsáveis, é que os termos de participação e os critérios para determinar os vencedores, sejam explicitados o melhor possível.
 
    A quem quiser continuar a alimentar suspeitas, digo sinceramente que acho não valer a pena. Porque se quem organiza estes passatempos os quiser falsear, nada mais fácil de fazer. É verdade que, nem que seja estatisticamente, é provável que aconteçam algumas trafulhices. Mas a quem estiver convencido de estar perante uma farsa, resta sempre a possibilidade de não participar nos mesmos. Agora fazê-lo, e posteriormente questionar a hombridade de quem os organizou, parece-me rude e sinal de alguma ingratidão. Se fosse eu a organizar um destes passatempos, e me deparasse com esse tipo de reacções, muito provavelmente ficaria irritado e a considerar se valia a pena continuar a fazê-lo. 

Versão alargadada dos comentários que deixei hoje numa discussão sobre este assunto no Porta-livros.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Palavras leva-as o vento, o que fica são os actos





   Admirava Drogba como futebolista. Agora admiro-o como ser humano. É verdade que abdicar deste dinheiro não afectará em nada o seu nível de vida, mas isso não diminui em nada a nobreza do seu gesto. São muitas as personalidades com fortunas iguais ou superiores, que nunca tiveram a mesma atitude. Não creio que se deva criticar a forma como cada um gasta o seu dinheiro. Mas deve-se louvar quem o faz desta maneira. São iniciativas que têm um profundo impacto na vida de inúmeras pessoas, que todos os dias lutam para sobreviver em contextos que a maior parte de nós não consegue sequer conceber.  E coloca sob uma luz diferente muitos comportamentos e apelos públicos tidos como beneméritos, que muitas vezes não passam de uma gota de água perante a amplitude dos recursos ao dispôr de quem os pratica.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Lançamentos que me ficaram na retina



 
 
O Sindicato dos Polícias Iídiches
Chabon, Michael
«Um dos melhores romances literários, ao nível de Philip K. Dick e Philip Roth.» ('Qué Leer') O autor é Prémio Pulitzer, o livro venceu o Nebula Award, o The Locus Award, o Hugo Award e o Sidewise Award for Alternate History. Será brevemente adaptado para o cinema pelas mãos dos irmãos Joel e Ethan Cohen. Ao longo de sessenta anos, refugiados judeus e os seus descendentes prosperaram no Distrito Federal de Sitka, um refúgio temporário criado no rescaldo das revelações do Holocausto e do chocante colapso do recém-criado Estado de Israel. Orgulhosos, gratos e esperançosos de se tornarem americanos, os judeus do Distrito de Sitka criaram um pequeno mundo num pedaço no Alasca, uma cidade fronteiriça vibrante, corajosa e complexa, que pulsava ao ritmo do dialecto iídiche. Por sessenta anos foram deixados sós, negligenciados e esquecidos, mas agora, os ventos da História ameaçam devolver a região aos nativos locais. O detective de homicídios Meyer Landsman, da Polícia Distrital, já tem problemas suficientes para ainda se preocupar com a Reversão, a grande devolução do território. A sua vida é uma confusão, um naufrágio. O seu casamento e a sua carreira são um desastre. Para piorar, a nova supervisora de Landsman é o amor da sua vida, mas também o seu pior pesadelo. Até que no hotel decadente onde ele está hospedado alguém comete um homicídio mesmo debaixo do seu nariz. Por hábito, obrigação e um misterioso sentimento de que esse caso lhe oferece, de algum modo, a própria redenção, Landsman começa a investigar a morte do seu vizinho, um ex-prodígio do xadrez.

«...um livro excepcional e de difícil classificação: é ao mesmo tempo um policial na linha ortodoxa de noir americano de entre os anos 30 e 50, um romance "literário" de História alternativa, e recebeu, pelo menos, quatro prémios de ficção científica...»
Público, ípsilon

«...pastiche simultâneo de Raymond Chandler e Lenny Bruce e cuja metáfora central é um problema de xadrez concebido por Nabokov.»
Rogério Casanova, Expresso, actual