sábado, 2 de janeiro de 2010

Cantinho kitsch da música portuguesa #2 - Edição Natal (atrasada, mas ainda falta o dia de Reis)


     Quem ouviu esta música na altura em que esteve na moda, de certeza que se recorda da mesma. Quer queira, quer não, porque a sua letra e sonoridade ficam gravadas de forma indelével na nossa mente. Mas não há melhor para nos relembrar a motivação religiosa subjacente ao Natal.




José Cid - "Amar Como Jesus Amou"

Um dia uma criança me chamou
Olhou-me nos meus olhos a sorrir
Caneta e papel na sua mão
Tarefa escolar para cumprir
E perguntou no meio de um sorriso
O que é preciso para ser feliz?

Amar como Jesus amou
Sonhar como Jesus sonhou
Pensar como Jesus pensou
Viver como Jesus viveu
Sentir o que Jesus sentia
Sorrir como Jesus sorria
E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que dormiria muito mais feliz
Sentir o que Jesus sentia
Sorrir como Jesus sorria
E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que dormiria muito mais feliz

Ouvindo atentamente, ela me olhou
E disse que era lindo o que eu falei.
Pediu que eu repetisse, por favor,
Que não dissesse tudo de uma vez.
E perguntou no meio de um sorriso
O que é preciso para ser feliz ?

Amar como Jesus amou
Sonhar como Jesus sonhou
Pensar como Jesus pensou
Viver como Jesus viveu
Sentir o que Jesus sentia
Sorrir como Jesus sorria
E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que dormiria muito mais feliz
Sentir o que Jesus sentia
Sorrir como Jesus sorria
E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que dormiria muito mais feliz

Depois que eu acabei de repetir
Seus olhos não saíram do papel
Toquei na sua cara e a sorrir
Pedi que ao transmitir fosse fiel
E ela deu-me um beijo demorado
E ao meu lado foi cantando assim

Amar como Jesus amou
Sonhar como Jesus sonhou
Pensar como Jesus pensou
Viver como Jesus viveu
Sentir o que Jesus sentia
Sorrir como Jesus sorria
E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que dormiria muito mais feliz
Sentir o que Jesus sentia
Sorrir como Jesus sorria
E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que dormiria muito mais feliz

    Notamos que o mundo é um lugar diferente quando a primeira coisa em que pensamos ao ver José Cid  rodeado de criancinhas, uma delas ao seu colo, é na Casa Pia.

    O que muita gente não sabe, é que José Cid não foi um pioneiro apenas na música popular portuguesa. Muito antes de se ouvir falar em revistas como a FHM, o artista nacional por excelência, surpreendeu o país com um arrojado "ensaio fotográfico"  para a revista Nova Gente. O Alexandria deixa aqui uma prenda de Natal tardia às suas leitoras (e leitores se for caso disso. Por estas bandas não julgamos ninguém). Bom proveito!



Bem-vindo 2010



     E começou mais um ano. 2009 não foi nada mau, mas parece-me que 2010 vai ser ainda melhor. Estou apenas a falar a nível pessoal. Porque na forma como o mundo gira, não me admiro nada que venham por aí mais problemas. A crise pode já não ser uma presença frequente à mesa, mas serão provavelmente mais visíveis algumas das sequelas que deixou. Mas enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. Além do mais, o início de um novo ano pretende-se um período de renovação de esperança e empenho (por mais breve que seja).

    O que deveria ter sido uma ausência até ao início de Dezembro, acabou por perdurar até final do ano. Tenho pena de não conseguir actualizar o Alexandria com maior frequência, mas ocupando este um lugar de prazer e não de obrigação, vê-se muitas vezes relegado não para segundo lugar, mas para sexto ou sétimo (inclusive atrás do descanso e preguiça). Em alguns meses de blog, escrevi sobretudo sobre livros, o principal impulso por detrás do Alexandria. Existem outros assuntos sobre os quais gostaria de ter escrito mais. Talvez o consiga em 2010. Escrever sobre outras coisas, e escrever mais sobre livros. Foi também interessante e recompensador a forma como acabei por estabelecer contacto, ainda que superficial, com pessoas que partilham interesses comuns.

    E o Ano Novo não é Ano Novo sem as famosas resoluções. Fala-se de livros neste caso. Como com o passar dos anos me convenci que quanto maior a resolução, menor a sua esperança de vida, contento-me em estabelecer algumas orientações.  Após um ano em adquiri uma quantidade obscena de livros (271), exige-se maior ponderação em 2010. Por um lado, não se justifica gastar dinheiro em livros quando tenho matéria-prima em casa para ler que chegaria para encomendar um filho e deixá-lo concluir o ensino primário. Talvez aí, e não é sequer um facto adquirido, começassem a escassear as alternativas de leitura. A grande decisão foi então: ler mais livros do que aqueles que compro. Pelo menos o dobro. É verdade que existem sempre novos lançamentos a tentar-nos, mas também é verdade que uma grande parte dos livros que povoavam a minha lista de desejos já cá cantam. Para além de querer evitar gastos num ano recheado de despesas, o segundo elemento que quero administrar de forma mais saudável é o tempo. Embora seja um leitor rápido, existem alturas em que pouco se consegue, ou quer ler. Não sou de estabelecer antecipadamente os livros que vou ler ou a ordem em que o farei. Essas opções prendem-se normalmente com o meu estado de espírito na altura ou com circunstancialismos do dia-a-dia. Mas embora tenha interesse por muitos assuntos e géneros, o meu perfil  de leitor já está mais ou menos definido. Não quer dizer que seja imutável, mas simplesmente já não tenho aquela curiosidade de querer conhecer tudo. O tempo que se gasta não volta, pelo quero dispênde-lo cada vez mais com obras que me marquem, ao invés de livros que mal fecho a capa já os começo a esquecer. Não quero com isto dizer que vou cingir-me a ler apenas autores criticamente conceituados e clássicos da literatura mundial. Tal como no cinema ou música, creio fazer falta disfrutar de diferentes alternativas. Para um livro ser bom, basta que o seja dentro do respectivo género. Existem autores de que sou completamente aficcionado, mas se lesse apenas o seu trabalho, não demoraria muito tempo a desenvolver uma qualquer patologia de foro homicida.

    Existem alguns autores portugueses sobre quem quero conhecer mais (José Saramago, António Lobo Antunes, Vergílio Ferreira, Eça de Queiróz) ou simplesmente conhecer (Gonçalo M. Tavares). Nos autores estrangeiros, Philip Roth. Quero ler alguns livros que estão em lista de espera (ficção e não-ficção) sobre a II Guerra Mundial, assunto que muito me interessa. Quero também restruturar (começam a falhar e a misturar-se) e aprofundar os meus conhecimentos sobre a História de Portugal (planeio recorrer aos volumes da obra de José Mattoso, precisamente com esse nome, edição Círculo de Leitores). Nos livros que quero absolutamente ler em 2010, contam-se "Os Miseráveis" de Victor Hugo (li apenas o primeiro volume de cinco); "Shantaram" de Gregory David Roberts; "Somos o Esquecimento que Seremos" de Hector Abad Faciolince; "A Neta do Sr. Lihn" de Philippe Claudel; "Gente Independente" de Halldór Laxness; e iniciar a série "Crónicas de Gelo e Fogo" de G.R.R. Martin (tanta recomendação li que me convenci).

    Para começo de conversa chega e sobra. Bom ano de 2010 para todos!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ausência por motivos de força maior

Vou ali conhecer os Açores e volto dia 1.

A minha alegre casinha



A vista da minha nova casa. Pelo menos até Agosto.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Cantinho kitsch da música portuguesa #1

Voltado que ando para a nostalgia, tenho-me lembrado de algumas pérolas da música portuguesa, que por um motivo ou outro, não devem cair no esquecimento. Durante as próximas segundas-feiras, enquanto não esgotar a matéria prima, vou deixar aqui uma música para começar bem a semana.
E a primeira galardoada é:
"Vem devagar emigrante" de Graciano Saga

Uma música pungente como poucas, nascida da inspiração de um artista especializado no público emigrante.







Vem devagar emigrante -  Letra





"Imigrante vem devagar por favor,
temos muito tempo para lá chegar
e depois, lá diz o velho ditado:
Mais vale um minuto na vida,
do que a vida num minuto."

Passou-se no mês de Agosto,
este drama tão cruel
de um imigrante infeliz
Foi tanta a pouca sorte,
na estrada encontrou a morte
quando vinha ao seu país
Do trabalho veio a casa,
preparou a sua mala
e partia da Alemanha
Mas seu destino afinal
acabou por ser fatal
numa estrada em Espanha
Dizem aqueles que viram
que ele ia tão apressado
a grande velocidade
Foi o sono que lhe deu
o controlo ele perdeu
desse carro de maldade

Foi o sono que lhe deu
o controlo ele perdeu
desse carro de maldade

Trazia na sua mente
ir ver o seu pai doente
que estava no hospital
Na ideia um só pensar
o seu paizinho beijar
ao chegar a Portugal
Mas tudo foi de repente
partiu de Benavente
o drama aconteceu
Ele vinha tão cansado
de tanto já ter rolado
e então adormeceu
Nada podendo fazer
num camião foi bater
e deu-se o choque frontal
Seu carro se esmagou
e desfeito ele ficou
num acidente mortal

Seu carro se esmagou
e desfeito ele ficou
num acidente mortal

Ele não vinha sozinho
trazia também consigo
sua mulher e filhinho
Sem dar conta de nada
e naquela madrugada
morrem os três no caminho
Quando a notícia chegou
no hospital alguém contou
o desastre que aconteceu
Seu pai que tanto sofria
nunca mais o filho via
fechou os olhos morreu
Imigrantes oiçam bem
não vale a pena correr
porque pode ser fatal
Venham todos devagar
há tempo para cá chegar
e abraçar Portugal

Venham todos devagar
há tempo para cá chegar
e abraçar Portugal


sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Lançamentos que me ficaram na retina




A Porta dos Infernos
Laurent Gaudé - Porto Editora

«Épico e sonoro, trágico ou inspirado, Laurent Gaudé comporta todo um mundo de trevas. Nas guerras, na pobreza ou no exílio, o autor procura fazer entender a dimensão solar com que cada personagem ilumina a sua própria trajectória. Ritmado, potente e fascinante, A Porta dos Infernos opõe à finitude humana a fé dos homens na possibilidade de arrancar um ser ao vazio.
A narrativa começa em 1982 quando, a caminho da escola, levado pela mão do pai, Pippo é atingido por uma bala perdida no meio de uma refrega das máfias de Nápoles. Matteo e Giuliana, os pais, passam a viver obcecados pela vingança – mas Matteo não consegue a coragem necessária para abater Cullaccio, o responsável pela morte do seu filho.
Abandonado pela mulher, Matteo vagueia pela noite de Nápoles, onde travará conhecimento com um conjunto de personagens estranhos: Grace, um travesti felliniano, Garibaldo, dono de um café que permanece aberto toda a noite, o velho padre Mazerotti e o professore Provolone, um especialista em questões esotéricas que lhes garante que é possível descer aos Infernos e que conhece, na própria Nápoles, uma das entradas possíveis. Acompanhado do padre, Matteo aventura-se então nas entranhas do Reino dos Mortos em busca do seu filho perdido.»

Passatempo "Pobres e mal-agradecidos"

    Nos últimos tempos, têm-se multiplicado os passatempos para oferecer livros nos mais variados blogs. Não há fome que não dê em fartura, e ainda bem que assim é. Participo em muitos destes passatempos e já ganhei alguns. Tenho verificado no entanto, um aumento no número de insinuações acerca da transparência dos mesmos. Cada um pensa o que quer, mas eu encaro estas iniciativas de boa-fé na honestidade de quem as organiza. Até onde sei, não retiram qualquer vantagem dos mesmos, e convenhamos que os prémios não são assim tão valiosos. 
 
    Por mais que goste de receber livros que me agradam de borla, tento não perder de vista que falamos de simples passatempos. As únicas exigências que me parecem legítimas fazer aos seus responsáveis, é que os termos de participação e os critérios para determinar os vencedores, sejam explicitados o melhor possível.
 
    A quem quiser continuar a alimentar suspeitas, digo sinceramente que acho não valer a pena. Porque se quem organiza estes passatempos os quiser falsear, nada mais fácil de fazer. É verdade que, nem que seja estatisticamente, é provável que aconteçam algumas trafulhices. Mas a quem estiver convencido de estar perante uma farsa, resta sempre a possibilidade de não participar nos mesmos. Agora fazê-lo, e posteriormente questionar a hombridade de quem os organizou, parece-me rude e sinal de alguma ingratidão. Se fosse eu a organizar um destes passatempos, e me deparasse com esse tipo de reacções, muito provavelmente ficaria irritado e a considerar se valia a pena continuar a fazê-lo. 

Versão alargadada dos comentários que deixei hoje numa discussão sobre este assunto no Porta-livros.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Palavras leva-as o vento, o que fica são os actos





   Admirava Drogba como futebolista. Agora admiro-o como ser humano. É verdade que abdicar deste dinheiro não afectará em nada o seu nível de vida, mas isso não diminui em nada a nobreza do seu gesto. São muitas as personalidades com fortunas iguais ou superiores, que nunca tiveram a mesma atitude. Não creio que se deva criticar a forma como cada um gasta o seu dinheiro. Mas deve-se louvar quem o faz desta maneira. São iniciativas que têm um profundo impacto na vida de inúmeras pessoas, que todos os dias lutam para sobreviver em contextos que a maior parte de nós não consegue sequer conceber.  E coloca sob uma luz diferente muitos comportamentos e apelos públicos tidos como beneméritos, que muitas vezes não passam de uma gota de água perante a amplitude dos recursos ao dispôr de quem os pratica.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Lançamentos que me ficaram na retina



 
 
O Sindicato dos Polícias Iídiches
Chabon, Michael
«Um dos melhores romances literários, ao nível de Philip K. Dick e Philip Roth.» ('Qué Leer') O autor é Prémio Pulitzer, o livro venceu o Nebula Award, o The Locus Award, o Hugo Award e o Sidewise Award for Alternate History. Será brevemente adaptado para o cinema pelas mãos dos irmãos Joel e Ethan Cohen. Ao longo de sessenta anos, refugiados judeus e os seus descendentes prosperaram no Distrito Federal de Sitka, um refúgio temporário criado no rescaldo das revelações do Holocausto e do chocante colapso do recém-criado Estado de Israel. Orgulhosos, gratos e esperançosos de se tornarem americanos, os judeus do Distrito de Sitka criaram um pequeno mundo num pedaço no Alasca, uma cidade fronteiriça vibrante, corajosa e complexa, que pulsava ao ritmo do dialecto iídiche. Por sessenta anos foram deixados sós, negligenciados e esquecidos, mas agora, os ventos da História ameaçam devolver a região aos nativos locais. O detective de homicídios Meyer Landsman, da Polícia Distrital, já tem problemas suficientes para ainda se preocupar com a Reversão, a grande devolução do território. A sua vida é uma confusão, um naufrágio. O seu casamento e a sua carreira são um desastre. Para piorar, a nova supervisora de Landsman é o amor da sua vida, mas também o seu pior pesadelo. Até que no hotel decadente onde ele está hospedado alguém comete um homicídio mesmo debaixo do seu nariz. Por hábito, obrigação e um misterioso sentimento de que esse caso lhe oferece, de algum modo, a própria redenção, Landsman começa a investigar a morte do seu vizinho, um ex-prodígio do xadrez.

«...um livro excepcional e de difícil classificação: é ao mesmo tempo um policial na linha ortodoxa de noir americano de entre os anos 30 e 50, um romance "literário" de História alternativa, e recebeu, pelo menos, quatro prémios de ficção científica...»
Público, ípsilon

«...pastiche simultâneo de Raymond Chandler e Lenny Bruce e cuja metáfora central é um problema de xadrez concebido por Nabokov.»
Rogério Casanova, Expresso, actual

Servir de cupido

    Nos últimos tempos, algumas pessoas têm vindo parar a este blog através de critérios de busca como "noiva russa procura marido". Tudo por causa deste excerto do livro "Russendisko". Espero que o texto, tenha ao menos auxiliado os potenciais interessados a tomar uma decisão informada em relação a tão importante compra.

Os packs malditos 1/2

Crónicas de um comprador de livros compulsivo    

    Gasto mais dinheiro em livros do que devia, e compro-os muito mais rápido do que os consigo ler. Faço-o por um hábito de coleccionismo e pela expectativa que sinto ao ter aquele livro na estante, aguardando a oportunidade ideal para ser lido. Encontro o mesmo prazer em descobrir um livro comprado anos atrás, uma obra de que não me recordo a última vez que nela pensei, que encontro numa compra mais recente. Minto. Sinto um prazer ainda maior. Porque olho para as minhas estantes como um reduto em que guardo alguns dos meus bens mais valiosos. Ao percorrê-las, revisito as circunstâncias e motivos que me convenceram a comprar cada um dos seus ocupantes. É nessas alturas que me apercebo de como a minha biblioteca se foi tornando uma extensão da minha personalidade.

    Ao adoptar este comportamento à revelia de qualquer racionalidade económica, acabo por sentir a premência de alcançar alguma forma de equilíbrio com a minha consciência.  A solução que encontrei, é procurar sempre os melhores negócios possíveis. Quando os encontro, a convicção de que dificilmente encontrarei uma oportunidade semelhante, constitui um argumento difícil de rebater. No seguimento desta lógica, interiorizei nos últimos três meses quão vulnerável sou a um tipo de promoção específica. Começou, como começa sempre, com um negócio de ocasião.

    Os hipermercados Continente, simpáticos bastiões do capitalismo, organizaram a campanha best-seller. Na compra de um conjunto de packs seleccionados, apenas pagávamos o preço de um de dois livros. Ora os packs de Daniel Silva e Haruki Murakami caíam que nem ginjas no meu pecúleo literário, provocando  baixas há muito ansiadas na minha lista de desejos. Para além disso, senti que era minha obrigação cívica adquiri-los enquanto um cidadão que pretende contribuir, ainda que modestamente, para a revitalização da nossa economia numa época de crise.

    O pack de Daniel Silva era constituido por "O Assassino Inglês" e "O Criado Secreto", precisamente os únicos livros do autor publicados em português que me faltavam. Dos muitos autores de espionagem a que já foi comparado, o que Daniel Silva mais me recorda é Frederick Forsyth (autor de "O Chacal" e "O Quarto Protocolo"), mas numa encarnação actualizada. Tem uma fórmula que obedece a critérios bem definidos, apostando na riqueza de pormenores dos contextos e competente gestão do suspense para enriquecer a narrativa. Ao escolher Gabriel Allon, um espião israelita, como protagonista de uma boa parte dos seus thrillers, Daniel Silva descobriu um filão inesgotável de estórias. Entre repercussões da perseguição a que os judeus foram sujeitos na II Guerra Mundial, e os conflitos em que Israel se encontra actualmente envolvida no Médio Oriente, matéria prima é coisa que não lhe falta. A Bertrand poderia era tratar com mais respeito esta série e quem a lê. Existe uma sequência na mesma que tem sido ignorada. No primeiro lançamento ainda se compreende. Provavelmente estavam a tentar recriar um sucesso literário internacional. Mas a partir do momento em que concluiram que a fórmula funcionava no nosso mercado, não compreendo porque motivo a sequência de lançamentos parece continuar a ser decidida de forma aleatória, e não na ordem cronológica. Acabam por ser desvendados prematuramente, determinados elementos da evolução pessoal das personagens que conduzem a efeito spoiler perfeitamente evitável.

    O pack de Haruki Murakami oferecia na compra de "A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol", o livro "Dança, Dança, Dança", continuação de "Em Busca do Carneiro Selvagem". Dos livros de Murakami que conheço (para além deste, "Kafka à Beira-Mar" e "Norwegian Wood"), foi o que mais gostei. A escrita de Murakami tem uma assinatura muito própria, assente num plano parcialmente abstracto e que se mantêm constante de livro para livro. Não ser um escritor versátil no tipo de atmosferas que cria, não constitui um problema porque ninguém mais cria atmosferas iguais às suas. Como já tinha o primeiro livro, aproveitei por fazer uma compra de Natal antecipada por um preço em conta. E consegui o "Dança, Dança, Dança" por 13,50€ quando o seu preço é de 18€ mesmo com 10% de desconto. Por uma questão prática, darei um pequeno salto temporal para maleitas futuras. Isto porque a desgraça em Murakami não se resumiu a esta compra. Na fnac online, aproveitando a pré-compra de "Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo", recebiamos de oferta "After Dark, Passageiros da Noite". As obras de Murakami têm sido particularmente recorrentes neste tipo de promoções. Aliás, este foi um ano particularmente profícuo em sinergias entre a minha biblioteca e a obra do escritor nipónico. Já tinha aproveitado uma outra promoção para comprar o ensaio "Underground - O Atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa" editado pela Tinta da China.

    Existe um aspecto que me parece curioso quando se fala de Murakami. Foi um autor que demorou a chegar a Portugal. Recordo-me de ouvir diversas intervenções em que diferentes intelectuais referiam com entusiasmo o fenómeno Murakami como o que de mais original tinha surgido no panorama literário internacional. Chegou a ser mencionado como exemplo do atraso com certas obras significativas chegavam ao nosso mercado. Quando finalmente chegou, foi-se tornando paulatinamente um sucesso de vendas. E começámos a observar um silêncio cada vez maior da crítica. É verdade que os seus livros não são normalmente alvo de críticas negativas. Simplesmente não lhes é dada grande atenção. Deixou de ser um segredo bem guardado, apenas ao alcance daqueles cujo conhecimento do mercado vai para além das nossas fronteiras, tornando-se um produto de massas. Há quem se refira ao mesmo como o Dan Brown dos intelectuais. Outra crítica recorrente é o facto de ser um dos escritores japoneses mais ocidentalizados. Parece-me uma crítica pertinente apenas se alguém o referir como um paradigma do estilo dos autores nipónicos. Não é difícil entender o motivo porque os traços culturais japoneses, ainda que mitigados, parecem exóticos aos olhos de alguém tão distante e desconhecedor dessa realidade. Pode muito bem ser, que seja precisamente o facto de estar a meio caminho entre as culturas ocidental e oriental, que o torna tão apelativo a ambas.
  
 "O Assassino Inglês" + "O Criado Secreto" de Daniel Silva por 16,16€




"A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol" + "Dança, Dança, Dança" de Haruki Murakami  por 13,50€



"Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo" + "After Dark, Passageiros da Noite" de Haruki Murakami por 13,50€ 


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Lançamentos que me ficaram na retina


 
 "De regresso à cidadezinha onde nasceu depois da morte dos pais, a escritora Erica Falk encontra uma comunidade à beira da tragédia. A morte da sua amiga de infância, Alex, é só o princípio do que está para vir.
Com os pulsos cortados e o corpo mergulhado na água congelada da banheira, tudo leva a crer que Alex se suicidou.
Quando começa a escrever uma evocação da carismática Alex, Erica, que não a via desde a infância, vê-se de repente no centro dos acontecimentos. Ao mesmo tempo, Patrik Hedström, que investiga o caso, começa a perceber que as coisas nem sempre são o que parecem. Mas só quando ambos começam a trabalhar juntos é que vem ao de cima a verdade sobre aquela cidadezinha com um passado profundamente perturbador…" 

"A Princesa do Gelo" de Camilla Läckberg - Oceanos (2009)

Uma proposta a propósito da efeméride do dia



E aproveitem para conhecer também a excelente banda sonora de Yann Tiersen.


Quando o muro foi abaixo


  
    Faz hoje 20 anos que caiu o Muro de Berlim. Retenho fragmentos das imagens que vi na altura na televisão. Ainda um miúdo, não compreendia a verdadeira amplitude daquele acontecimento. Como assinalava o final da Guerra Fria e a reunificação da Alemanha. Com a Alemanha una novamente, começava finalmente a sarar uma das últimas chagas que perduravam da II Guerra Mundial. Mas do que me apercebi, foi do êxtase das pessoas enquanto derrubavam, bocado a bocado, aquela parede de cimento que durante tanto tempo simbolizou uma opressão implacável. Acho que foi a primeira vez que vi materializado em imagens, como o ideal da liberdade pode ser importante.

Separadas à nascença 2





 

Existem muitas capas que evocam uma sensação de reconhecimento em nós. Outras, são simplesmente muito parecidas. Ambas constituem uma curiosidade para quem se interesse pelo aspecto gráfico dos livros. Um obrigado ao Rui Azeredo, que viu estas capas e  mas enviou a propósito de um post anterior.

sábado, 7 de novembro de 2009

Atravesse sempre na passadeira



Fotografia de campanha publicitária - retirada daqui.

Um erro histórico


   
     Afinal, a queda do Muro de Berlim foi um erro histórico. Não sei como foi possível andarmos enganados todo este tempo, mas ainda bem que temos o Avante para nos abrir os olhos. Por um futuro melhor, façam um esforço, e leiam o texto seguinte até ao fim (sublinhados meus). Vale bem a pena. Muito obrigado ao blogOperatório (post de 6 de Novembro) por me proporcionar talvez o melhor momento de humor de 2009. Cada um tem direito a defender as suas convicções, mas algumas só podem ser catalogadas como anedóticas. Sem mais delongas:

Alemães de Leste preferem socialismo
20 anos de retrocesso

As ditas «comemorações» do 20.º aniversário da queda do muro de Berlim são pretexto para mais uma campanha anticomunista, na qual se procura criminalizar os ideiais do socialismo e os que lutam pela superação do capitalismo.

No sábado, 31, três antigos chefes de Estado, considerados como os «obreiros» da destruição do muro (e não só), reuniram-se em Berlim. Helmut Kohl, ex-presidente da Alemanha, George Bush (pai), ex-presidente do EUA, e o inefável Mikhail Gorbachov voltaram a sentar-se à mesa para se congratularem com o seu «feito». Gorbatchov aproveitou as luzes da ribalta, que já só raramente incidem sobre a sua pessoa, para se desdobrar em entrevistas, onde se gaba e reconhece que «perdi, mas a perestróika ganhou» ( letemps.ch, 02.11).
Toda a imprensa ocidental dominante faz coro em qualificar a queda do muro, e portanto a derrota do socialismo, como a «libertação» do povo da RDA e sinónimo de avanço civilizacional.
Porém, a realidade das últimas duas décadas, não só na Alemanha de Leste, mas também na generalidade dos antigos países socialista do Centro e Leste Europeu, já para não falar da URSS, não testemunha qualquer progresso, por mínimo que seja, para o povo, mas antes um tremendo retrocesso económico e social que reduziu à miséria amplas camadas da população, condenou a juventude ao desemprego, privando a grande maioria de uma perspectiva optimista de futuro.
Não é por acaso que todos os anos o governo federal alemão promove um sondagem entre a população de Leste sobre as actuais condições de vida em comparação com a experiência da RDA socialista.
Apesar campanhas massivas de obscurecimento e criminalização do socialismo, os resultados de tais inquéritos têm sido invariavelmente decepcionantes para os seus promotores. A maioria dos alemães de Leste continua a preferir o socialismo e mostra-se desiludida com o capitalismo.
A última sondagem data de 26 de Junho. Os seus resultados, publicados no jornal Berliner Zeitung, são inequívocos: «a maioria dos inquiridos considera que a antiga República Democrática Alemã (RDA) tinha “mais aspectos positivos que negativos”.» «Passados 20 anos de anexação, 57 por cento da população da ex-RDA continua a defender o socialismo.» (Avante! n.º 1857).

O valor do socialismo

Já em 1992, no vergonhoso julgamento a que foi submetido pelas autoridades alemãs ocidentais, Erich Honecker, antigo chefe de Estado da RDA, declarou perante o tribunal de Berlim: «O único objectivo desde processo (...) [é] desacreditar totalmente a RDA e o socialismo na Alemanha».
Mas, sublinhou, «cada vez mais alemães de Leste constatarão que tinham as condições de vida menos deformadas na RDA do que os alemães ocidentais com a economia “social” de mercado; que as crianças da RDA, nas creches, jardins-de-infância e escolas cresciam mais felizes, menos preocupadas, mais bem formadas e mais livres que as crianças da RFA (...). Os doentes constatarão que, apesar dos seus atrasos técnicos, o sistema de saúde da RDA os considerava como pacientes e não como objectos comerciais (...) Os artistas compreenderão que a censura da RDA, real ou imaginada, não era tão hostil aos artistas como a censura do mercado (...) Reconhecerão que na vida quotidiana, em particular no local de trabalho, tinham na RDA uma liberdade inigualável.» 
 
    Não há maior publicidade à liberdade, que levar um tiro porque se quer atravessar para o outro lado de um muro. Mas compreendo a necessidade de proteger as pessoas de si próprias. A liberdade é uma coisa muito boa, mas apenas quando se sabe o que fazer com ela. Embora confesse, acho estranho este comportamento ignorante por parte de pessoas com uma educação de excelência. Parecem aqueles mentecaptos de Cuba, que se lançam ao mar abandonando irreflectidamente a terra da fraternidade. Será que ninguém vê que o muro servia para impedir as pessoas de entrar e não de sair?

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Os perigos do terrorismo

Dan Brown, o McDonald's da literatura



     Eu ainda sou do tempo em que o McDonald's existia em Lisboa e pouco mais. Um almoço no dito cujo, chegava a ser descrito na escola com honrarias de ponto alto de uma viagem ao estrangeiro. Quando começaram a aparecer novos restaurantes da marca, era normal vê-los cheios com famílias inteiras em refeições de fim-de-semana, festas de aniversário e almoços de negócios. Depois, entrou na nossa rotina e generalizou-se. Passou a moda e surgiram os sucedâneos. Ainda hoje é um sítio onde um grande número das pessoas vai comer de tempos a tempos. Um pequeno guilty pleasure. Surgiram nessa altura os puros e castos. Gente que jura a pés juntos que nunca comeu aquela porcaria. Outros comeram, mas entretanto tiveram uma epifania, e antes morrer a tragar McDonald's novamente. Cada um é livre de comer o que quer. E houve evidentemente, muita gente que nunca sentiu o apelo do ícone americano da fast food. É precisamente por ser algo tão natural, que não sentem a necessidade de o anunciar ao mundo como se tivessem salvo uma vida. Mas o que é que esta conversa mal enxertada tem a ver com o Dan Brown?

    É que é precisamente este tipo de comportamento, de que me recordo quando penso nas reacções manifestadas em relação a "O Código da Vinci", durante os anos que mediaram a edição deste e de "O Símbolo Perdido". Aquando do seu lançamento, gerou um fenómeno ainda hoje difícil de igualar no mercado editorial nacional, vendendo mais de 500 mil exemplares. Pessoalmente, acho o "Código da Vinci" um bom livro. Lido compulsivamente, cumpriu plenamente a função recreativa que dele esperava. Não vai ficar para a história como uma obra maior da literatura, mas também não me parece esse o seu lugar ou pretensão. Parece-me que a maior fragilidade, não do livro, mas da obra de Dan Brown, é a estrutura narrativa. Porque é sempre a mesma. O número de personagens principais; os ardis utilizados para desviar a atenção do verdadeiro vilão; a dinâmica romântica dos casais principais; até a forma como a montanha acaba por parir o rato nas conspirações, fruto de um indivíduo tresloucado e não das instituições milenares. E como cereja no topo do bolo, há aquele momento aerodinâmico no "Anjos e Demónios", a que os americanos chamariam jump the shark (quem leu o livro sabe de certeza ao que me refiro), que de tão rídiculo nos impossibilita qualquer hipótese de levar a sério o livro.

    Entretanto, parece que ninguém tinha lido o livro. Que se tornou um fenómeno de geração espôntanea. Um livro que se via por todo o lado, escolha de eleição para oferta de Natal e aniversários, tornou-se no manuscrito maldito. Na crítica literária, é recorrentemente nomeado como um exemplo intragável de livro ou simplesmente tratado com a condescendência reservada ao trabalho de um amador esforçado. Critica-se a falta de exactidão histórica do mesmo e a falta de densidade dramática. São verdade ambas as críticas. A inexactidão de factos não me incomoda particularmente porque ficções históricas não me parecem o melhor meio de adquirir informações fidedignas acerca de que assunto for, para além de algumas noções gerais. É verdade que existem algumas excepções, mas que servem sobretudo para confirmar a regra. Quanto à densidade dramática, existem de facto melhores alternativas. Ide ler os clássicos. Mas nem só de Tolstoi e Balzac se alimenta o intelecto (acho eu). Tal como no cinema ou música, na literatura existem alternativas para diversas necessidades e estados de espírito. A literatura de aeroporto também serve o seu propósito. E para quem enquadra "O Código da Vinci" nessa categoria, é no contexto da mesma que a deve avaliar. É perfeitamente normal que muita boa gente o ache pura e simplesmente lixo. Mas parece-me difícil, por qualquer cânone, considerá-lo como do que pior surgiu nos escaparates das livrarias. Quanto mais não seja, porque na enxurrada de thrillers esotéricos que tentaram capitalizar o seu sucesso (embora um efeito colateral pelo qual não pode ser responsabilizado directamente, talvez este sim, seja o pior malefício que se lhe pode apontar), existem muitos candidatos melhor qualificados para esse papel.

    Entretanto, foi lançado "O Símbolo Perdido" e os ânimos serenaram. Afinal de contas, o livro está a vender bem e não parece ser uma boa altura para as vozes críticas se manifestarem. Se alguém conceituado admitir ler Dan Brown (#469), provavelmente até terá direito a ser louvado pelo ecletismo que caracteriza as suas leituras. Não sou um defensor incondicional de Brown. Li quatro dos seus livros, sendo que um deles, "Fortaleza Digital", pareceu-me um simples desperdício de papel. Para ser sincero, duvido que possa retirar mais alguma coisa da sua escrita. Tenho uma curiosidade reduzida pelo seu mais recente romance, e a possibilidade de o ler está subordinada a um eventual negócio de ocasião. Simplesmente, e sendo verdade que a opinião é totalmente livre, não perder o sentido de proporção quando se opina nunca fez mal a ninguém.