sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Lançamentos que me ficaram na retina




A Porta dos Infernos
Laurent Gaudé - Porto Editora

«Épico e sonoro, trágico ou inspirado, Laurent Gaudé comporta todo um mundo de trevas. Nas guerras, na pobreza ou no exílio, o autor procura fazer entender a dimensão solar com que cada personagem ilumina a sua própria trajectória. Ritmado, potente e fascinante, A Porta dos Infernos opõe à finitude humana a fé dos homens na possibilidade de arrancar um ser ao vazio.
A narrativa começa em 1982 quando, a caminho da escola, levado pela mão do pai, Pippo é atingido por uma bala perdida no meio de uma refrega das máfias de Nápoles. Matteo e Giuliana, os pais, passam a viver obcecados pela vingança – mas Matteo não consegue a coragem necessária para abater Cullaccio, o responsável pela morte do seu filho.
Abandonado pela mulher, Matteo vagueia pela noite de Nápoles, onde travará conhecimento com um conjunto de personagens estranhos: Grace, um travesti felliniano, Garibaldo, dono de um café que permanece aberto toda a noite, o velho padre Mazerotti e o professore Provolone, um especialista em questões esotéricas que lhes garante que é possível descer aos Infernos e que conhece, na própria Nápoles, uma das entradas possíveis. Acompanhado do padre, Matteo aventura-se então nas entranhas do Reino dos Mortos em busca do seu filho perdido.»

Passatempo "Pobres e mal-agradecidos"

    Nos últimos tempos, têm-se multiplicado os passatempos para oferecer livros nos mais variados blogs. Não há fome que não dê em fartura, e ainda bem que assim é. Participo em muitos destes passatempos e já ganhei alguns. Tenho verificado no entanto, um aumento no número de insinuações acerca da transparência dos mesmos. Cada um pensa o que quer, mas eu encaro estas iniciativas de boa-fé na honestidade de quem as organiza. Até onde sei, não retiram qualquer vantagem dos mesmos, e convenhamos que os prémios não são assim tão valiosos. 
 
    Por mais que goste de receber livros que me agradam de borla, tento não perder de vista que falamos de simples passatempos. As únicas exigências que me parecem legítimas fazer aos seus responsáveis, é que os termos de participação e os critérios para determinar os vencedores, sejam explicitados o melhor possível.
 
    A quem quiser continuar a alimentar suspeitas, digo sinceramente que acho não valer a pena. Porque se quem organiza estes passatempos os quiser falsear, nada mais fácil de fazer. É verdade que, nem que seja estatisticamente, é provável que aconteçam algumas trafulhices. Mas a quem estiver convencido de estar perante uma farsa, resta sempre a possibilidade de não participar nos mesmos. Agora fazê-lo, e posteriormente questionar a hombridade de quem os organizou, parece-me rude e sinal de alguma ingratidão. Se fosse eu a organizar um destes passatempos, e me deparasse com esse tipo de reacções, muito provavelmente ficaria irritado e a considerar se valia a pena continuar a fazê-lo. 

Versão alargadada dos comentários que deixei hoje numa discussão sobre este assunto no Porta-livros.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Palavras leva-as o vento, o que fica são os actos





   Admirava Drogba como futebolista. Agora admiro-o como ser humano. É verdade que abdicar deste dinheiro não afectará em nada o seu nível de vida, mas isso não diminui em nada a nobreza do seu gesto. São muitas as personalidades com fortunas iguais ou superiores, que nunca tiveram a mesma atitude. Não creio que se deva criticar a forma como cada um gasta o seu dinheiro. Mas deve-se louvar quem o faz desta maneira. São iniciativas que têm um profundo impacto na vida de inúmeras pessoas, que todos os dias lutam para sobreviver em contextos que a maior parte de nós não consegue sequer conceber.  E coloca sob uma luz diferente muitos comportamentos e apelos públicos tidos como beneméritos, que muitas vezes não passam de uma gota de água perante a amplitude dos recursos ao dispôr de quem os pratica.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Lançamentos que me ficaram na retina



 
 
O Sindicato dos Polícias Iídiches
Chabon, Michael
«Um dos melhores romances literários, ao nível de Philip K. Dick e Philip Roth.» ('Qué Leer') O autor é Prémio Pulitzer, o livro venceu o Nebula Award, o The Locus Award, o Hugo Award e o Sidewise Award for Alternate History. Será brevemente adaptado para o cinema pelas mãos dos irmãos Joel e Ethan Cohen. Ao longo de sessenta anos, refugiados judeus e os seus descendentes prosperaram no Distrito Federal de Sitka, um refúgio temporário criado no rescaldo das revelações do Holocausto e do chocante colapso do recém-criado Estado de Israel. Orgulhosos, gratos e esperançosos de se tornarem americanos, os judeus do Distrito de Sitka criaram um pequeno mundo num pedaço no Alasca, uma cidade fronteiriça vibrante, corajosa e complexa, que pulsava ao ritmo do dialecto iídiche. Por sessenta anos foram deixados sós, negligenciados e esquecidos, mas agora, os ventos da História ameaçam devolver a região aos nativos locais. O detective de homicídios Meyer Landsman, da Polícia Distrital, já tem problemas suficientes para ainda se preocupar com a Reversão, a grande devolução do território. A sua vida é uma confusão, um naufrágio. O seu casamento e a sua carreira são um desastre. Para piorar, a nova supervisora de Landsman é o amor da sua vida, mas também o seu pior pesadelo. Até que no hotel decadente onde ele está hospedado alguém comete um homicídio mesmo debaixo do seu nariz. Por hábito, obrigação e um misterioso sentimento de que esse caso lhe oferece, de algum modo, a própria redenção, Landsman começa a investigar a morte do seu vizinho, um ex-prodígio do xadrez.

«...um livro excepcional e de difícil classificação: é ao mesmo tempo um policial na linha ortodoxa de noir americano de entre os anos 30 e 50, um romance "literário" de História alternativa, e recebeu, pelo menos, quatro prémios de ficção científica...»
Público, ípsilon

«...pastiche simultâneo de Raymond Chandler e Lenny Bruce e cuja metáfora central é um problema de xadrez concebido por Nabokov.»
Rogério Casanova, Expresso, actual

Servir de cupido

    Nos últimos tempos, algumas pessoas têm vindo parar a este blog através de critérios de busca como "noiva russa procura marido". Tudo por causa deste excerto do livro "Russendisko". Espero que o texto, tenha ao menos auxiliado os potenciais interessados a tomar uma decisão informada em relação a tão importante compra.

Os packs malditos 1/2

Crónicas de um comprador de livros compulsivo    

    Gasto mais dinheiro em livros do que devia, e compro-os muito mais rápido do que os consigo ler. Faço-o por um hábito de coleccionismo e pela expectativa que sinto ao ter aquele livro na estante, aguardando a oportunidade ideal para ser lido. Encontro o mesmo prazer em descobrir um livro comprado anos atrás, uma obra de que não me recordo a última vez que nela pensei, que encontro numa compra mais recente. Minto. Sinto um prazer ainda maior. Porque olho para as minhas estantes como um reduto em que guardo alguns dos meus bens mais valiosos. Ao percorrê-las, revisito as circunstâncias e motivos que me convenceram a comprar cada um dos seus ocupantes. É nessas alturas que me apercebo de como a minha biblioteca se foi tornando uma extensão da minha personalidade.

    Ao adoptar este comportamento à revelia de qualquer racionalidade económica, acabo por sentir a premência de alcançar alguma forma de equilíbrio com a minha consciência.  A solução que encontrei, é procurar sempre os melhores negócios possíveis. Quando os encontro, a convicção de que dificilmente encontrarei uma oportunidade semelhante, constitui um argumento difícil de rebater. No seguimento desta lógica, interiorizei nos últimos três meses quão vulnerável sou a um tipo de promoção específica. Começou, como começa sempre, com um negócio de ocasião.

    Os hipermercados Continente, simpáticos bastiões do capitalismo, organizaram a campanha best-seller. Na compra de um conjunto de packs seleccionados, apenas pagávamos o preço de um de dois livros. Ora os packs de Daniel Silva e Haruki Murakami caíam que nem ginjas no meu pecúleo literário, provocando  baixas há muito ansiadas na minha lista de desejos. Para além disso, senti que era minha obrigação cívica adquiri-los enquanto um cidadão que pretende contribuir, ainda que modestamente, para a revitalização da nossa economia numa época de crise.

    O pack de Daniel Silva era constituido por "O Assassino Inglês" e "O Criado Secreto", precisamente os únicos livros do autor publicados em português que me faltavam. Dos muitos autores de espionagem a que já foi comparado, o que Daniel Silva mais me recorda é Frederick Forsyth (autor de "O Chacal" e "O Quarto Protocolo"), mas numa encarnação actualizada. Tem uma fórmula que obedece a critérios bem definidos, apostando na riqueza de pormenores dos contextos e competente gestão do suspense para enriquecer a narrativa. Ao escolher Gabriel Allon, um espião israelita, como protagonista de uma boa parte dos seus thrillers, Daniel Silva descobriu um filão inesgotável de estórias. Entre repercussões da perseguição a que os judeus foram sujeitos na II Guerra Mundial, e os conflitos em que Israel se encontra actualmente envolvida no Médio Oriente, matéria prima é coisa que não lhe falta. A Bertrand poderia era tratar com mais respeito esta série e quem a lê. Existe uma sequência na mesma que tem sido ignorada. No primeiro lançamento ainda se compreende. Provavelmente estavam a tentar recriar um sucesso literário internacional. Mas a partir do momento em que concluiram que a fórmula funcionava no nosso mercado, não compreendo porque motivo a sequência de lançamentos parece continuar a ser decidida de forma aleatória, e não na ordem cronológica. Acabam por ser desvendados prematuramente, determinados elementos da evolução pessoal das personagens que conduzem a efeito spoiler perfeitamente evitável.

    O pack de Haruki Murakami oferecia na compra de "A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol", o livro "Dança, Dança, Dança", continuação de "Em Busca do Carneiro Selvagem". Dos livros de Murakami que conheço (para além deste, "Kafka à Beira-Mar" e "Norwegian Wood"), foi o que mais gostei. A escrita de Murakami tem uma assinatura muito própria, assente num plano parcialmente abstracto e que se mantêm constante de livro para livro. Não ser um escritor versátil no tipo de atmosferas que cria, não constitui um problema porque ninguém mais cria atmosferas iguais às suas. Como já tinha o primeiro livro, aproveitei por fazer uma compra de Natal antecipada por um preço em conta. E consegui o "Dança, Dança, Dança" por 13,50€ quando o seu preço é de 18€ mesmo com 10% de desconto. Por uma questão prática, darei um pequeno salto temporal para maleitas futuras. Isto porque a desgraça em Murakami não se resumiu a esta compra. Na fnac online, aproveitando a pré-compra de "Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo", recebiamos de oferta "After Dark, Passageiros da Noite". As obras de Murakami têm sido particularmente recorrentes neste tipo de promoções. Aliás, este foi um ano particularmente profícuo em sinergias entre a minha biblioteca e a obra do escritor nipónico. Já tinha aproveitado uma outra promoção para comprar o ensaio "Underground - O Atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa" editado pela Tinta da China.

    Existe um aspecto que me parece curioso quando se fala de Murakami. Foi um autor que demorou a chegar a Portugal. Recordo-me de ouvir diversas intervenções em que diferentes intelectuais referiam com entusiasmo o fenómeno Murakami como o que de mais original tinha surgido no panorama literário internacional. Chegou a ser mencionado como exemplo do atraso com certas obras significativas chegavam ao nosso mercado. Quando finalmente chegou, foi-se tornando paulatinamente um sucesso de vendas. E começámos a observar um silêncio cada vez maior da crítica. É verdade que os seus livros não são normalmente alvo de críticas negativas. Simplesmente não lhes é dada grande atenção. Deixou de ser um segredo bem guardado, apenas ao alcance daqueles cujo conhecimento do mercado vai para além das nossas fronteiras, tornando-se um produto de massas. Há quem se refira ao mesmo como o Dan Brown dos intelectuais. Outra crítica recorrente é o facto de ser um dos escritores japoneses mais ocidentalizados. Parece-me uma crítica pertinente apenas se alguém o referir como um paradigma do estilo dos autores nipónicos. Não é difícil entender o motivo porque os traços culturais japoneses, ainda que mitigados, parecem exóticos aos olhos de alguém tão distante e desconhecedor dessa realidade. Pode muito bem ser, que seja precisamente o facto de estar a meio caminho entre as culturas ocidental e oriental, que o torna tão apelativo a ambas.
  
 "O Assassino Inglês" + "O Criado Secreto" de Daniel Silva por 16,16€




"A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol" + "Dança, Dança, Dança" de Haruki Murakami  por 13,50€



"Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo" + "After Dark, Passageiros da Noite" de Haruki Murakami por 13,50€ 


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Lançamentos que me ficaram na retina


 
 "De regresso à cidadezinha onde nasceu depois da morte dos pais, a escritora Erica Falk encontra uma comunidade à beira da tragédia. A morte da sua amiga de infância, Alex, é só o princípio do que está para vir.
Com os pulsos cortados e o corpo mergulhado na água congelada da banheira, tudo leva a crer que Alex se suicidou.
Quando começa a escrever uma evocação da carismática Alex, Erica, que não a via desde a infância, vê-se de repente no centro dos acontecimentos. Ao mesmo tempo, Patrik Hedström, que investiga o caso, começa a perceber que as coisas nem sempre são o que parecem. Mas só quando ambos começam a trabalhar juntos é que vem ao de cima a verdade sobre aquela cidadezinha com um passado profundamente perturbador…" 

"A Princesa do Gelo" de Camilla Läckberg - Oceanos (2009)

Uma proposta a propósito da efeméride do dia



E aproveitem para conhecer também a excelente banda sonora de Yann Tiersen.


Quando o muro foi abaixo


  
    Faz hoje 20 anos que caiu o Muro de Berlim. Retenho fragmentos das imagens que vi na altura na televisão. Ainda um miúdo, não compreendia a verdadeira amplitude daquele acontecimento. Como assinalava o final da Guerra Fria e a reunificação da Alemanha. Com a Alemanha una novamente, começava finalmente a sarar uma das últimas chagas que perduravam da II Guerra Mundial. Mas do que me apercebi, foi do êxtase das pessoas enquanto derrubavam, bocado a bocado, aquela parede de cimento que durante tanto tempo simbolizou uma opressão implacável. Acho que foi a primeira vez que vi materializado em imagens, como o ideal da liberdade pode ser importante.

Separadas à nascença 2





 

Existem muitas capas que evocam uma sensação de reconhecimento em nós. Outras, são simplesmente muito parecidas. Ambas constituem uma curiosidade para quem se interesse pelo aspecto gráfico dos livros. Um obrigado ao Rui Azeredo, que viu estas capas e  mas enviou a propósito de um post anterior.

sábado, 7 de novembro de 2009

Atravesse sempre na passadeira



Fotografia de campanha publicitária - retirada daqui.

Um erro histórico


   
     Afinal, a queda do Muro de Berlim foi um erro histórico. Não sei como foi possível andarmos enganados todo este tempo, mas ainda bem que temos o Avante para nos abrir os olhos. Por um futuro melhor, façam um esforço, e leiam o texto seguinte até ao fim (sublinhados meus). Vale bem a pena. Muito obrigado ao blogOperatório (post de 6 de Novembro) por me proporcionar talvez o melhor momento de humor de 2009. Cada um tem direito a defender as suas convicções, mas algumas só podem ser catalogadas como anedóticas. Sem mais delongas:

Alemães de Leste preferem socialismo
20 anos de retrocesso

As ditas «comemorações» do 20.º aniversário da queda do muro de Berlim são pretexto para mais uma campanha anticomunista, na qual se procura criminalizar os ideiais do socialismo e os que lutam pela superação do capitalismo.

No sábado, 31, três antigos chefes de Estado, considerados como os «obreiros» da destruição do muro (e não só), reuniram-se em Berlim. Helmut Kohl, ex-presidente da Alemanha, George Bush (pai), ex-presidente do EUA, e o inefável Mikhail Gorbachov voltaram a sentar-se à mesa para se congratularem com o seu «feito». Gorbatchov aproveitou as luzes da ribalta, que já só raramente incidem sobre a sua pessoa, para se desdobrar em entrevistas, onde se gaba e reconhece que «perdi, mas a perestróika ganhou» ( letemps.ch, 02.11).
Toda a imprensa ocidental dominante faz coro em qualificar a queda do muro, e portanto a derrota do socialismo, como a «libertação» do povo da RDA e sinónimo de avanço civilizacional.
Porém, a realidade das últimas duas décadas, não só na Alemanha de Leste, mas também na generalidade dos antigos países socialista do Centro e Leste Europeu, já para não falar da URSS, não testemunha qualquer progresso, por mínimo que seja, para o povo, mas antes um tremendo retrocesso económico e social que reduziu à miséria amplas camadas da população, condenou a juventude ao desemprego, privando a grande maioria de uma perspectiva optimista de futuro.
Não é por acaso que todos os anos o governo federal alemão promove um sondagem entre a população de Leste sobre as actuais condições de vida em comparação com a experiência da RDA socialista.
Apesar campanhas massivas de obscurecimento e criminalização do socialismo, os resultados de tais inquéritos têm sido invariavelmente decepcionantes para os seus promotores. A maioria dos alemães de Leste continua a preferir o socialismo e mostra-se desiludida com o capitalismo.
A última sondagem data de 26 de Junho. Os seus resultados, publicados no jornal Berliner Zeitung, são inequívocos: «a maioria dos inquiridos considera que a antiga República Democrática Alemã (RDA) tinha “mais aspectos positivos que negativos”.» «Passados 20 anos de anexação, 57 por cento da população da ex-RDA continua a defender o socialismo.» (Avante! n.º 1857).

O valor do socialismo

Já em 1992, no vergonhoso julgamento a que foi submetido pelas autoridades alemãs ocidentais, Erich Honecker, antigo chefe de Estado da RDA, declarou perante o tribunal de Berlim: «O único objectivo desde processo (...) [é] desacreditar totalmente a RDA e o socialismo na Alemanha».
Mas, sublinhou, «cada vez mais alemães de Leste constatarão que tinham as condições de vida menos deformadas na RDA do que os alemães ocidentais com a economia “social” de mercado; que as crianças da RDA, nas creches, jardins-de-infância e escolas cresciam mais felizes, menos preocupadas, mais bem formadas e mais livres que as crianças da RFA (...). Os doentes constatarão que, apesar dos seus atrasos técnicos, o sistema de saúde da RDA os considerava como pacientes e não como objectos comerciais (...) Os artistas compreenderão que a censura da RDA, real ou imaginada, não era tão hostil aos artistas como a censura do mercado (...) Reconhecerão que na vida quotidiana, em particular no local de trabalho, tinham na RDA uma liberdade inigualável.» 
 
    Não há maior publicidade à liberdade, que levar um tiro porque se quer atravessar para o outro lado de um muro. Mas compreendo a necessidade de proteger as pessoas de si próprias. A liberdade é uma coisa muito boa, mas apenas quando se sabe o que fazer com ela. Embora confesse, acho estranho este comportamento ignorante por parte de pessoas com uma educação de excelência. Parecem aqueles mentecaptos de Cuba, que se lançam ao mar abandonando irreflectidamente a terra da fraternidade. Será que ninguém vê que o muro servia para impedir as pessoas de entrar e não de sair?

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Os perigos do terrorismo

Dan Brown, o McDonald's da literatura



     Eu ainda sou do tempo em que o McDonald's existia em Lisboa e pouco mais. Um almoço no dito cujo, chegava a ser descrito na escola com honrarias de ponto alto de uma viagem ao estrangeiro. Quando começaram a aparecer novos restaurantes da marca, era normal vê-los cheios com famílias inteiras em refeições de fim-de-semana, festas de aniversário e almoços de negócios. Depois, entrou na nossa rotina e generalizou-se. Passou a moda e surgiram os sucedâneos. Ainda hoje é um sítio onde um grande número das pessoas vai comer de tempos a tempos. Um pequeno guilty pleasure. Surgiram nessa altura os puros e castos. Gente que jura a pés juntos que nunca comeu aquela porcaria. Outros comeram, mas entretanto tiveram uma epifania, e antes morrer a tragar McDonald's novamente. Cada um é livre de comer o que quer. E houve evidentemente, muita gente que nunca sentiu o apelo do ícone americano da fast food. É precisamente por ser algo tão natural, que não sentem a necessidade de o anunciar ao mundo como se tivessem salvo uma vida. Mas o que é que esta conversa mal enxertada tem a ver com o Dan Brown?

    É que é precisamente este tipo de comportamento, de que me recordo quando penso nas reacções manifestadas em relação a "O Código da Vinci", durante os anos que mediaram a edição deste e de "O Símbolo Perdido". Aquando do seu lançamento, gerou um fenómeno ainda hoje difícil de igualar no mercado editorial nacional, vendendo mais de 500 mil exemplares. Pessoalmente, acho o "Código da Vinci" um bom livro. Lido compulsivamente, cumpriu plenamente a função recreativa que dele esperava. Não vai ficar para a história como uma obra maior da literatura, mas também não me parece esse o seu lugar ou pretensão. Parece-me que a maior fragilidade, não do livro, mas da obra de Dan Brown, é a estrutura narrativa. Porque é sempre a mesma. O número de personagens principais; os ardis utilizados para desviar a atenção do verdadeiro vilão; a dinâmica romântica dos casais principais; até a forma como a montanha acaba por parir o rato nas conspirações, fruto de um indivíduo tresloucado e não das instituições milenares. E como cereja no topo do bolo, há aquele momento aerodinâmico no "Anjos e Demónios", a que os americanos chamariam jump the shark (quem leu o livro sabe de certeza ao que me refiro), que de tão rídiculo nos impossibilita qualquer hipótese de levar a sério o livro.

    Entretanto, parece que ninguém tinha lido o livro. Que se tornou um fenómeno de geração espôntanea. Um livro que se via por todo o lado, escolha de eleição para oferta de Natal e aniversários, tornou-se no manuscrito maldito. Na crítica literária, é recorrentemente nomeado como um exemplo intragável de livro ou simplesmente tratado com a condescendência reservada ao trabalho de um amador esforçado. Critica-se a falta de exactidão histórica do mesmo e a falta de densidade dramática. São verdade ambas as críticas. A inexactidão de factos não me incomoda particularmente porque ficções históricas não me parecem o melhor meio de adquirir informações fidedignas acerca de que assunto for, para além de algumas noções gerais. É verdade que existem algumas excepções, mas que servem sobretudo para confirmar a regra. Quanto à densidade dramática, existem de facto melhores alternativas. Ide ler os clássicos. Mas nem só de Tolstoi e Balzac se alimenta o intelecto (acho eu). Tal como no cinema ou música, na literatura existem alternativas para diversas necessidades e estados de espírito. A literatura de aeroporto também serve o seu propósito. E para quem enquadra "O Código da Vinci" nessa categoria, é no contexto da mesma que a deve avaliar. É perfeitamente normal que muita boa gente o ache pura e simplesmente lixo. Mas parece-me difícil, por qualquer cânone, considerá-lo como do que pior surgiu nos escaparates das livrarias. Quanto mais não seja, porque na enxurrada de thrillers esotéricos que tentaram capitalizar o seu sucesso (embora um efeito colateral pelo qual não pode ser responsabilizado directamente, talvez este sim, seja o pior malefício que se lhe pode apontar), existem muitos candidatos melhor qualificados para esse papel.

    Entretanto, foi lançado "O Símbolo Perdido" e os ânimos serenaram. Afinal de contas, o livro está a vender bem e não parece ser uma boa altura para as vozes críticas se manifestarem. Se alguém conceituado admitir ler Dan Brown (#469), provavelmente até terá direito a ser louvado pelo ecletismo que caracteriza as suas leituras. Não sou um defensor incondicional de Brown. Li quatro dos seus livros, sendo que um deles, "Fortaleza Digital", pareceu-me um simples desperdício de papel. Para ser sincero, duvido que possa retirar mais alguma coisa da sua escrita. Tenho uma curiosidade reduzida pelo seu mais recente romance, e a possibilidade de o ler está subordinada a um eventual negócio de ocasião. Simplesmente, e sendo verdade que a opinião é totalmente livre, não perder o sentido de proporção quando se opina nunca fez mal a ninguém.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Maria, a mascote oficial do Alexandria


Estou a ficar velho, e recordar é viver - Roque Santeiro & Tieta

Uma conversa de fim-de-semana foi parar ao tema das novelas (na altura praticamente uma instituição, quanto mais não fosse pela falta de alternativas) que marcaram a infância dos que estão próximos, ou já ultrapassaram a casa dos trinta. Existem duas que são praticamente unânimes, e das quais nos havemos de recordar o resto da vida: "Roque Santeiro" e "Tieta".

Da primeira ficaram-nos duas personagens, interpretadas por Regina Duarte e Lima Duarte, das mais divertidas de sempre. A estridente viúva Porcina, que parecia inspirada na porquinha dos Marretas, e que no final se decidiu a ficar não com o regressado santo, mas com Sinhozinho Malta, o coronel que era tão bruto como os cornos que adornavam o capot do seu carro. A sua contribuição para a posteridade foi a expressão "Tou certo ou tou errado?"

Esta novela reservou para um dos seus vilões, um dos melhores finais de sempre. Zé das Medalhas morre soterrado pelas suas próprias manufacturas.

Nos primeiros 3m50 do vídeo, Sinhozinho Malta em todo o seu esplendor:



E mais algumas recordações:





Mas a minha favorita é mesmo "Tieta". Inspirada no romance homónimo de Jorge Amado, conta a história do regresso de Tieta à sua terra natal, 20 anos depois de ter sido apelidada de kenga, e escorraçada da cidade pelo próprio pai. Já que tinha a fama, acabou por ter o proveito e abriu um muito conceituado bordel na cidade grande. São incontáveis as memórias que ficaram. O coronel e as suas rolinhas; o pai de Tieta que arreava em toda a gente com o cajado; a Princesinha do Agreste, único meio de transporte para fora da cidade; os ataques da mulher de branco; o Bafo-de-Bode que acabou milionário no final; os achaques de Cinira por falta de homem; Modesto Pires que presenteava a sua teúda manteúda com o carinhoso "uh,uh, senta aqui"; Osmar e o seu oxente. E claro, Perpétua (interpretada por Joana Fomm), talvez a melhor personagem da história das telenovelas brasileiras. Para além da sua maldade, o tribufu era também conhecido pela recordação fálica empalhada que guardava do falecido marido.

"Tieta" tem ainda uma das bandas sonoras mais famosas das produções brasileiras.











As Dez Figuras Negras - Agatha Christie



    "As Dez Figuras Negras" ("Ten Little Niggers" ou "Then there were none" no original) é o romance mais vendido de sempre de Agatha Christie. Um conjunto de dez pessoas, aparentemente sem qualquer ligação entre si, são atraídas a uma ilha sob falsos pretextos. Todos os preparativos foram feitos para os acomodar, mas também isolar. Não há maneira de comunicar para fora da ilha, não existem quaisquer embarcações que possam usar, e não se sabe quando alguém virá. Descobrem que o misterioso anfitrião ausente que tudo orquestrou, é uma só pessoa, cuja identidade desconhecem. Todos são acusados de terem cometido crimes pelos quais não foram condenados pela justiça. Crimes pelos quais serão agora punidos. É nesse momento que as primeiras mortes acontecem.

    O primeiro instinto de todos é procurar o assassino escondido na ilha, mas cedo se apercebem de que  este pode muito bem ser um dos presentes. Para conseguir manter o suspense, a autora distribui equitativamente pelas personagens a informação que desvenda. É-nos dado um vislumbre do passado de cada um, sobretudo as circunstâncias dos acontecimentos que justificam a sua presença na ilha. É através destas pistas que vamos formando uma opinião sobre o carácter de cada um e a sua possível culpabilidade. Não existe um vilão ou um herói definidos na história. A velocidade a que as mortes se sucedem imprime um ritmo vertiginoso ao livro. Ainda assim, a autora consegue manter o suspense até à última página, tanto acerca do responsável pelas mortes, como dos detalhes e razões por detrás do seu plano.

    Não fiquei mais impressionado pelo livro porque já conhecia diversas adaptações da história em formato televisivo (algumas das quais lamentáveis), facto que lhe retirou parte do impacto. Mas isso não é culpa da autora, que ao escrevê-lo em 1939 criou algo genuinamente inovador.

Classificação: 7/10

Porque os livros são como as cerejas: "O Mistério do Quarto Amarelo" de Gaston Leroux

Capa da edição original, 1939

Ten little Soldier boys went out to dine;
One choked his little self and then there were nine.
Nine little Soldier boys sat up very late;
One overslept himself and then there were eight.
Eight little Soldier boys traveling in Devon;
One said he'd stay there and then there were seven.
Seven little Soldier boys chopping up sticks;
One chopped himself in halves and then there were six.
Six little Soldier boys playing with a hive;
A bumblebee stung one and then there were five.
Five little Soldier boys going in for law;
One got in Chancery and then there were four.
Four little Soldier boys going out to sea;
A red herring swallowed one and then there were three.
Three little Soldier boys walking in the zoo;
A big bear hugged one and then there were two.
Two Little Soldier boys sitting in the sun;
One got frizzled up and then there was one.
One little Soldier boy left all alone;
He went out and hanged himself and then there were none.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Mais 24 horas (24 season 8 trailer)



Foram divulgados esta semana os primeiros trailers da oitava (e possivelmente última) temporada de 24. Jack Bauer regressa aos ecrãs a 17 de Janeiro de 2010.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Só o Amor Faz Rodar o Mundo

    "Certo dia, o proprietário sumiu-se e deixou as mulheres sozinhas. O bordel foi fechado. Desesperada, a Diana telefonou aos únicos clientes regulares que tinha: primeiro o director de teatro, depois o técnico de ventilação. Por fim, acabou por lhe aparecer em casa, em Spandau, e desta vez aceitou a proposta de casamento dele. Assim, o técnico meteu baixa por uma semana e pediu um empréstimo de 5000 marcos a uma linha de crédito pela Internet. Depois, foram os dois até Goziki, na Bielorrúsia, para casar. Aqui, o Frank foi de imediato confrontado com os bárbaros costumes bielorussos. Ainda na estação, roubaram-lhe a mala. Depois, as damas de honor acusaram Diana de trição à pátria e puseram-na com um olho negro. Aliás, também o Frank foi atacado pelos nativos por motivos patrióticos, o que não invalidou que, mais tarde, acabassem todos amigos. A boda foi celebrada na maior sala da aldeia, o ginásio da escola primária. O Frank comprou cinco grades de vodka para os homens e cinco grades de vinho tinto para as mulheres. A festa durou dois dias e teria continuado por mais tempo, não fosse o pai da Diana ter estragado tudo. Eufórico e alegre, foi até ao rio de Goziki completamente bêbado para tomar um banho - e nunca mais voltou. Os esforços para encontrar o corpo dele e o retirar do rio duraram um dia inteiro. E sem pausa nem interrupção, a boda foi dar em enterro."

Excerto retirado do capítulo "Só o Amor Faz Rodar o Mundo" de "Russendisko - Discoteca Russa" de Wladimir Kaminer (páginas 41 e 42)

Cavalo de Ferro (2005)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Construir uma biblioteca a partir de um quiosque

    Embora se continuem a vender livros com publicações de imprensa, o grande boom aconteceu há alguns anos atrás. Não sendo pioneira (pelo menos a Visão lançou duas colecções anteriores, das quais ainda hoje é normal encontrar exemplares para venda em feiras do livro), a colecção Mil Folhas do Público (2002) foi um marco neste tipo de iniciativas. Com uma primeira série de 30 volumes, acabou por se perpetuar durante um período de 2 anos, até atingir o número 100. A tiragem média das suas edições foi de 50 mil exemplares e incluiu títulos tão diversos como "O Nome da Rosa" de Umberto Eco, "Sinais de Fogo" de Jorge de Sena, ou "1984" de George Orwell. Disponibilizou inclusive, alguns livros que eram difíceis de encontrar no mercado português.

    Animados pelo sucesso da Mil Folhas, outros intervenientes tentaram recriar o modelo. Umas tentativas mais bem sucedidas que outras. O DN, por exemplo, lançou uma colecção com obras de diferentes Prémios Nobel. O próprio Público repetiu a receita com a colecção Geração, e muitas outras subsequentes, numa aposta que perdura até aos dias de hoje.

    A Banda Desenhada teve os seus 15 minutos de fama com a colecção completa das aventuras de Tintim e  Corto Maltese a 4€ cada volume. O segmento dos livros de arte foi fortemente promovido junto do público através da parceria Taschen/Público, que permitiu que dezenas dos seus títulos Basic Art chegassem aos quiosques a 4,50€. Posteriormente, esta parceria foi repetida na área de arquitectura. A revista Sábado lançou uma colecção de livros patrocinada por um banco (o patrocínio de uma entidade específica não é invulgar nestas colecções), sobre os mais famosos Museus do Mundo e as obras que albergam, que continham  reproduções de pinturas com uma qualidade invulgar para edições que rondavam os 13€. Lançaram-se números únicos sobre assuntos tão díspares como a obra gráfica de Paula Rego ou o conflito entre Israel e a Palestina. Ao longo dos anos, foram  contempladas áreas como a literatura, culinária, arte, viagens, BD, policiais e poesia, entre outras (com o cinema e o formato de DVD aconteceu um fenómeno semelhante).

    Muita gente manifesta desconfiança em relação a estas edições. Seja por desagrado perante a utilização de publicações periódicas para vender outros produtos, ou cepticismo quanto à qualidade de uma edição nestes moldes e preço. Cada um é livre de pensar o que quiser. Pessoalmente, foi a partir desse momento que a constituição da minha biblioteca sofreu um impulso irreversível. Possibilitou-me o acesso a preços acessíveis (até para um estudante sem grandes rendimentos na altura) a um vasto conjunto de obras e respectivos enquadramentos, o que contribuiu para solidificar um quadro de referências literárias. Foi uma oportunidade de conhecer muitos autores diferentes, representativos de correntes e períodos diversos. Descobri livros que normalmente não teria comprado, ou sequer ouvido falar.

Existem de facto exemplos em que a qualidade se ressente. Pode ser na encadernação, na mancha usada ou na qualidade da tradução. Mas uma grande parte da resistência advêm da mentalidade portuguesa. Se é barato não pode ser bom. E ainda hoje, os livros que se compram (a importância da novidade) e onde se compram, constituem muitas vezes um acto de afirmação.

Uma parte significativa das edições publicadas nestes termos, utilizam traduções cedidas pelas editoras que detêm os direitos para Portugal (facto que quando sucede, vem devidamente assinalado na ficha técnica ). São diferentes os direitos de autor para livros a vender em livrarias, e para comercialização com publicações periódicas, pelo que não podendo impedir a sua publicação, negociar os direitos de tradução é uma boa forma das editoras recuperarem parte do investimento.

    Houve algum tumulto como é costume nestas situações, com alguns livreiros e editores a acenarem com os perigos de desequilíbrio do mercado que estas edições trariam. É indeterminado o impacto das mesmas no mercado livreiro e editorial, visto que não são sectores que pugnem pela disponibilização de dados fidedignos. O preço das novidades parece ter-se mantido mais ou menos constantes. Mas o que se alterou, foi o preço a que eram vendidas edições mais antigas, até então praticamente insensível à data do seu lançamento. Verificou-se um crescimento das feiras de final de edição. Se as pessoas estavam receptivas a comprar livros que não eram novidades desde que por um preço mais baixo, porque não aproveitá-lo para rentabilizar livros que já haviam ultrapassado o seu período útil de mercado. Sobretudo numa altura em que a rotatividade de títulos nas livros aumentava a olhos vistos. É muito provável que tenha existido uma relação directa entre estas duas realidades.

    Com o tempo, houve uma saturação do mercado (muitas vezes, grande parte destes produtos é comprado por um público recorrente. E com o aumento da oferta, deixaram de constituir oportunidades tão irresístiveis). Começaram a sair menos colecções, e as que saíam tinham um custo cada vez mais elevado (passando a barreira psicológica dos 5€). Mas já tinham desmpenhado um importante papel. E não desapareceram completamente, continuando a surgir bons negócios. Um bom exemplo são as colecções que a revista Sábado tem lançado com uma incidência cada vez maior, em que por 1,5€ podemos conhecer obras de nomes como Roth, Allende ou Eco. E acrescentar mais uns títulos à biblioteca.