segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A polémica Saramago



    Confesso que continuo sem compreender a dimensão da polémica em redor das declarações de José Saramago. Deve ser o prazer da polémica pela polémica. Saramago proferiu declarações que facilmente se podem caracterizar de levianas, não apenas pelo tom, mas pela superficialidade em relação à complexidade do tema. É certo que o homem é Nobel, mas não é por isso que o vão levar a sério quando se propõe resolver em duas penadas o mais controverso e antigo dilema do ser humano. Mas foi essa a conclusão pessoal a que chegou e decidiu partilhá-la. Não percebo a celeuma porque não creio que seja, nem de perto nem de longe, das coisas mais ignorantes ou desrespeitosas jamais ditas, mesmo que a um crente. É apenas uma opinião, ainda que não tenha sido expressa nos termos mais elegantes. E não é exactamente um segredo de Fátima, que o Deus descrito no Antigo Testamento ainda não tinha adoptado plenamente a máxima de dar a outra face. Mesmo sendo um rapazinho de educação católica, desde que instituída a  tradição de rever "Os Dez Mandamentos" todo o santo Natal na saudosa época dos dois canais, que me apercebi que o Todo Poderoso não é flôr que se cheire quando lhe pisam os calos. Achei muito elucidativa a forma como quinou todos os primogénitos do Egipto após o Faraó recusar libertar o seu povo, que muita falta lhe fazia para construir as pirâmides a baixo preço de custo.

    Além disso, não se trata exactamente de uma situação inédita. Se a memória não fosse curta, bastava lembrar as declarações de Saramago em que equiparava o comportamento de Israel na Palestina ao dos nazis no Holocausto (o exemplo do Gulag teria sido igualmente convincente), ou de como Cuba era um exemplo para todos nós. O facto de ser um escritor extraordinário significa que escreve bons livros e as suas opiniões têm um impacto mediático acrescido. Não implica que a qualidade dos primeiros se transmita por osmose às segundas. E a verdade é que podia defender coisas bem piores, como o ensino do criacionismo no ensino público ou algo semelhante.

    Quanto às declarações acerca da renúncia de nacionalidade por parte de um deputado europeu português em busca dos seus 15 minutos de fama, não me parece que sejam necessários quaisquer esforços argumentativos para demonstrar que são disparatadas. Falamos de um direito do qual apenas o próprio pode dispôr. Se declarações asnáticas fossem motivo para o reivindicar, já este senhor estava a pregar noutra freguesia.

A chama imensa: Jorge Jesus não tem mão na equipa

Por Ricardo Araujo Pereira

"Lamento muito, mas um adepto não deve apenas dizer bem. Sobretudo quando é fácil. Apesar do bom futebol, das vitórias, do imenso receio que o Benfica inspira aos adversários, da profunda satisfação que todos os benfiquistas sentem quando vêem a equipa jogar, nem tudo corre bem. Um treinador deve exercer um controlo perfeito sobre a equipa e Jorge Jesus, por muito que me custe admiti-lo, não consegue. São já várias as conferências de imprensa em que o treinador do Benfica lembra que a equipa não pode golear sempre. Os jogadores, num acto de indisciplina recorrente, e que mereceria castigo sério, continuam a desmenti-lo. Quando chegou ao Benfica, Jorge Jesus disse que os jogadores iriam jogar o dobro do que haviam jogado no ano passado. Neste momento, os jogadores jogam o quádruplo do que Jorge Jesus pensava que eles iam jogar. É muito feio faltar ao prometido.

As falsas expectativas que o treinador do Benfica lançou no início da época tiveram efeitos muito negativos até na minha vida pessoal. Quando soube que o Benfica jogaria o dobro do que havia jogado no ano passado fiquei contente, mas não demasiado. O Benfica não jogava assim tanto para que a perspectiva de passar a jogar apenas o dobro fosse especialmente apelativa. Por isso, cometi a imprudência de marcar compromissos profissionais para dias de jogo do Benfica. Não pude ver no estádio a goleada ao Everton e fui forçado a acompanhar a goleada ao Belenenses apenas na televisão. Tivesse Jorge Jesus sido rigoroso e eu teria metido licença sem vencimento até ao fim da época."

Excerto de "A Chama Imensa", publicada no jornal A Bola a 24 de Outubro 2009

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Regresso ao Passado


As recordações que isto me traz...

Um bom negócio



Lobo Antunes confessa-se em entrevista



António Lobo Antunes foi entrevistado por Judite de Sousa a propósito do lançamento do seu novo livro, "Que cavalos são Aqueles que fazem Sombra no Mar?". Quando questionado acerca da polémica envolvendo as declarações de José Saramago,  começou por dizer que preferia não comentar. E ao não comentar, mas já comentando, lá afirmou que embora sem conhecer as declarações em profundidade, lhe parecia que a comunicação social havia encarniçado umas declarações infelizes. A conversa prosseguiu, e acabou por revelar que o que não gostava era de chegar aquela idade com tão pouco senso crítico. Para quem afirma não haver polémica entre ambos, acabou por utilizar um eufemismo não muito subtil para chamar a Saramago velho e caduco.

No mais, embora tenha ficado conotado com uma postura arrogante nos últimos anos, continua a ser um prazer ouvir as suas entrevistas. Falou da doença que sofreu, e o que isso mudou na sua visão do mundo. A importância de um segurar de mão antes da operação. Ele que confessou que quando era novo e exercia medicina, os pacientes eram sobretudo casos, meros números. Viu-se agora do outro lado da barricada. Contou como chegava a uma sala de espera cheia, com as televisões ligadas para quem ninguém olhava. O orgulho que sentiu em ser português quando viu a dignidade com que aquelas pessoas encaravam a morte certa. Como quando já sabia que ia viver, olhava para crianças que não iam, e pensava como era injusto. Contou a história de um velhote que sempre que ia à consulta, levava o seu melhor fato, sem g ravata. O seu melhor fato era também o seu único, pelo que com o tempo foi ficando cheio de manchas. No entanto, quando se levantava, caminhava com a graciosidade de um príncipe. E nessa postura, Lobo Antunes viu a gravata mais bela do mundo.
 

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Será que era disto que Saramago falava?

A Maldição de Edgar - Marc Dugain



 "A Maldição de Edgar" é uma ficcionalização da vida de Edgar J. Hoover, o homem responsável pelo Federal Bureau of Investigation (FBI) nos termos em que o conhecemos. Existem rumores infindáveis acerca da sua vida. Desde que se tratava de um homem de rara verticalidade, até que era alguém sem qualquer pejo em utilizar abusivamente os colossais meios ao seu dispor para benefício próprio. Marc Dugain recorre ao expediente das memórias fictícias de Clyde Tolson, braço direito de Hoover (e possivelmente seu amante), para nos contar a história da sua vida.

Hoover dirigiu o FBI durante 48 anos (1924-1972), e atravessou 8 Presidências (entre as quais Roosevelt, Truman, Kennedy e Nixon). É inédito que a mesma pessoa se mantenha num cargo desta natureza durante um tão vasto período de tempo (precisamente devido a esta situação, os mandatos no mesmo encontram-se agora limitados a dez anos). Sobretudo, quando quase todos os Presidentes com que se cruzou, tentaram, em determinada momento, afastá-lo. Dugain elabora sobre os expedientes que terá utilizado para se  salvaguardar. Era raro existir alguém que merecesse a pena mencionar, sobre o qual Hoover não tivesse um detalhado dossier pessoal com algum tipo de informação comprometedora. Mas mais do que centrar-se na personalidade de Hoover, o livro utiliza a sua longa liderança à frente do FBI, como fio condutor para narrar um período particularmente rico da história norte-americana, tanto nas suas vertentes política como criminal. É dada particular importância à família Kennedy, acompanhando o seu percurso desde a ascensão ao trágico declínio.  Podemos conhecer a opinião (extremamente negativa), que tinha do clã que representava o sonho americano. Outras temáticas como a II Guerra Mundial; a Guerra fria em que o combate ao comunismo era uma prioridade; a postura dúbia da lei e do FBI perante o crime organizado na sua época dourada; a morte de Marilyn Monroe e o assassinato de JFK, são também alvo de escrutínio.

A razão da existência de Hoover era o seu trabalho. Considerava-se o único habilitado a defender a América dos perigos que a ameaçavam, e estava disposto a fazer o necessário para se manter na posição que o permitia fazer. Na sua esfera mais pessoal, o livro aborda as alegações da homossexulidade de Edgar Hoover, e descreve a sua relação com Tolson como a de um casal. Aquando do seu falecimento, Tolson foi o seu herdeiro, recebeu inclusive a bandeira no seu serviço fúnebre. Analisa também a forma pouco saudável como encarava as mulheres, comportamento que encontra as suas raízes numa idealização excessiva da mãe e na incapacidade para lidar com um desgosto amoroso ocorrido cedo na vida.

A escrita de Marc Dugain é boa e assertiva. Adopta um tom de relatório oficial, o que é consistente com a sua suposta autoria por Tolson. A narrativa atinge os seus momentos mais conseguidos quando descreve determinado episódio de forma mais mordaz. Recomendável apenas para quem já tenha um interesse prévio pelos assuntos mencionados, sob pena de se tornar fastidioso.

Classificação: 6,5/10

Edição: 2006
Páginas: 228
Editor: Ambar

Porque os livros são como as cerejas: "Memórias de um Agente Secreto"

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Serenata para Maité Proença




 Se você disser que eu sou burrinho, amor
Saiba que isso não provoca em mim qualquer dor
Só privilegiados têm inteligência igual à sua
Eu possuo apenas o que Deus me deu
Se você insiste em classificar
Meu comportamento de esquisitinho
Eu me sinto na obrigação de te contar
Que isto é Portugal
Se não gosta escusa de voltar
O que você não sabe nem sequer pressente
É que os portugueses para você se estão a marinbar
Vi você na minha televisão
Revelou-se a sua enorme ingratidão
Faz favor de cuspir no seu país
Prefiro ser patego a ser porco
Você com o seu humor esqueceu o principal
Para a gente rir a piada tem de entender
Mas sabe como é este povo atrasado
Melhor ficar no Brasil que sabe te compreender
Faz um favor e chama o Sousa Tavares
Pressinto que vão se entender
Se você disser que eu sou saloio, amor
Saiba que isso não provoca em mim qualquer dor
Só privilegiados têm classe igual à sua
Eu possuo apenas o que Deus me deu
E se você insiste em classificar
Meu comportamento de limitado, amor
Me sinto na obrigação de te informar
Que o Tejo não é o mar
E tivemos mais que 20 anos de Salazar
Mas deixa te perguntar
Na favela os números tão todos no lugar?
Faz favor de comer mais um pastelzinho
Com a boca cheia não sai asneira
Seu avô português deve tar virando na cova
Que ironia a genética pode ser
Você com a sua ignorância esqueceu o principal
É que para Deus dar num lado
Para ser mesmo generoso
Para fazer algo tão gostoso
Não pode dar no outro

Versão mutilada da letra de "Desafinado" de Tom Jobim

Crónicas de um comprador de livros compulsivo



 Já confessei anteriormente ser um bibliófilo. Bibliófilo, no sentido de alguém que gosta não apenas de ler, mas que já encara a sua biblioteca pessoal como uma extensão da própria personalidade. Como muitas das pessoas que se enquadram neste perfil, dá-me um prazer enorme falar sobre livros. Não apenas das histórias que albergam ou dos seus autores, mas muitas vezes, também das circunstâncias em que vieram parar à minha posse. Com pessoas que sofram da mesma maleita em semelhante grau, não há problema. Mas para todos os outros, rapidamente se pode tornar chato e irritante. Assim, para prevenir essas situações, e num acto de puro narcisismo literário, vou passar a instrumentalizar este blog como escape para tal entusiasmo. As razões porque comprei aquele livro, os bons negócios que apanhei, enfim, coisas que muitas vezes provavelmente interessarão apenas a mim. Mas ao menos aqui, existe sempre a prerrogativa de as ignorar.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Parece que a moda pegou



E os zombies continuam a atacar os clássicos... - no Bela Lugosi

Uma boa oportunidade



 A 12 e 14 de Novembro, "O Viúvo" estará nas bancas com a Visão e o Expresso respectivamente, integrado na colecção jornalistas escritores - escritores jornalistas. Ainda não li "O Viúvo", mas de Fernando Dacosta conheço "Nascido no Estado Novo" e "Memórias de Salazar". São narrativas que conseguem proporcionar-nos uma perspectiva que concilia mais do que é normal nas obras sobre o tema, o lado humano com a vertente histórica do que era viver no Estado Novo. Fernando Dacosta é um autor que passa injustamente despercebido nos dias que correm, quando o seu trabalho é um importante contributo para apreender a complexidade de um período que tanto nos marcou. Sobretudo, para aqueles que como eu, já nasceram em democracia. Por 3,90€, é de aproveitar.

Um ignorante pelos padrões literários cosmopolitas

The Man Booker Prize 2009 - "Wolf Hall" de Hilary Mantel
Não conheço a autora nem o livro. Gaita, nem o vencedor do ano passado ("Tigre Branco" de Aravind Adiga) ainda li.

Prémio Nobel 2009 - Herta Müller
Nunca vi a senhora mais gorda.

Prémio José Saramago 2009 - "As Três Vidas" de João Tordo (Quidnovi)
Vá lá...Ainda não li, mas ao menos já o comprei. A parte mais cara já está despachada.


Prémio Literário Fernando Namora 2009 - "A Sala Magenta" de Mário de Carvalho (Caminho)
Conheço apenas de reputação. Tanto o galardoado, como o autor que dá nome ao prémio. Tenho um livro de cada em casa para me apresentar, mas ainda não chegou a sua vez.


Prémio P.E.N. Clube de Ficção 2009 - "Myra" de Maria Velho da Costa (Assírio e Alvim)
Está na lista.


Prémio Leya 2009 - "O Olho de Hertzog", de João Paulo Borges Coelho
O vencedor da primeira edição não me cativou o suficiente para ler tal tijolo. Achei que o jaguar estava bem era à solta na selva. O vencedor deste ano é uma incógnita para mim. Nem de nome o conheço.

Um lema para a vida

E tu, já fizeste a tua parte para salvar o planeta?

Urinar no duche para poupar água. Eis que após a campanha para erradicar o ponto de exclamação, surge finalmente uma causa de idêntica nobreza. Lanço um apelo a que o maior número possível de blogs, adopte o seguinte slogan: "Este blog urina no duche!". Acalento também a esperança, de que o Pedro Vieira venha a patrocinar mais esta demanda com um dos seus desenhos.

O Planeta conta com todos nós.

A vergonha só se perde uma vez

"Não consigo perceber. Para mim foi uma surpresa muito grande." Fátima Felgueiras, sobre a sua derrota eleitoral.

Em busca do tempo perdido II

No passado dia 5 de Outubro, celebrou-se o quadragésimo aniversário da primeira emissão de Monty Python's Flying Circus. Falta imperdoável da minha parte não o assinalar. Como fã incondicional, não quero deixar de seleccionar alguns dos meus sketches favoritos.



O Homem em Queda - Don DeLillo


Don DeLillo, um dos mais conceituados romancistas norte-americanos contemporâneos, escreve nesta obra sobre os atentados de 11 de Setembro de 2001. Mais concretamente, sobre as suas sequelas. O grau de espectacularidade com que foram realizados, e a destruição que infligiram, chocaram o mundo inteiro. Inculcaram no espírito colectivo um sentimento de terror de que nenhum lugar era seguro doravante. Todos vimos as imagens até à exaustão, e ouvimos análises intermináveis ao que sucedeu. Ouvimos até que fizesse, de alguma forma, sentido. Foi um marco, e nunca nada voltará a ser igual. Mas ficou para trás. Excepto para os residentes de Nova Iorque, que muito tempo após a solidariedade e comoção geradas se desvanecerem, continuaram a ter de enfrentar o dia seguinte com esta chaga ainda demasiado presente. É neste terreno que se move o livro. No que ficou irremediavelmente mudado e para quê.

O núcleo central de personagens é constituído por Keith, Lianne e o filho de ambos, Justin. Uma família que teve um novo fôlego graças ao trauma provocado pela tragédia, e que funciona como um microcosmos exemplificativo de diversos prismas da sociedade.

Keith, um dos sobrevivente das torres, lida com as recordações que vão progressivamente emergindo e procura recuperar um sentido para a sua existência. Embora o seu primeiro instinto seja procurar Lianne (de quem estava separado), cedo compreende que certos sentimentos são passíveis de compreensão apenas por quem passou por uma experiência similar. Acompanhamos a sua tentativa de descobrir se ainda existe um lugar no mundo que lhe proporcione alguma harmonia. Mantém um equilíbrio precário entre a sua realidade familiar e os fantasmas que não mais o abandonam. Todo o ódio, raiva e desespero que sente têm de ser extravasados de alguma forma, e é nos pequenos hábitos que Keith tenta encontrar forma de se reerguer, ou quanto mais não seja, de se anestesiar.

Lianne debate-se com o regresso de Keith, um Keith diferente. Assistimos ao dilema de uma reconciliação que pode ser um novo começo, mas também não passar de uma fuga para o conforto de uma vida conhecida que a poupe ao medo e angústia. As conversas com a sua mãe (cuja saúde se deteriora rapidamente), e o grupo de leitura para idosos que organiza, acabam por funcionar como um barómetro da sua sanidade. Tem a perspectiva de um nova-iorquino que não esteve fisicamente no Ground Zero, mas que nem por isso saiu incólume. Todos os habitantes da cidade perderam alguém. E todos perderam uma parte de si.

Justin e os seus amigos, ainda crianças, tentam assimilar o que sucedeu recorrendo à imaginação própria dessa idade. Ao efabularem os acontecimentos desse dia fatídico, acabam por criar um universo próprio, com o qual os pais têm dificuldade em comunicar. Somente o tempo lhes permite ir descobrindo a linguagem necessária para o fazer, e assim sarar o mal feito a mentes tão impressionáveis.

Embora numa escala mais reduzida, também mergulhamos na vida de um dos executantes do atentado. O seu comportamento no período que antecede esse derradeiro acto e as razões com que justificou perante si próprio a escolha que fez.

As circunstâncias do livro são utilizadas para uma metáfora do período subsequente. O poderio e visão da América sobre o mundo, e como este lhe devolve o olhar (sem nunca resvalar para um tom panfletário). A importância incontornável dos laços de família (mesmo os disfuncionais), para o ser humano. O lugar de Deus na nossa sociedade. E a inevitabilidade de seguir em frente, haja o que houver.

O final é muito bem conseguido, transmitindo uma sensação de círculo completo em que o 9/11 e o presente se encontram. Também a razão que dá origem ao título é um toque de inspiração.

O domínio narrativo e estilístico de DeLillo é praticamente perfeito. Mas embora seja essa a minha avaliação de um ponto de vista imparcial, a nível emotivo nunca estabeleci uma empatia forte o suficiente com a história. Cheguei a achá-la enfadonha em algumas partes. Simplesmente, nunca me preocupei o suficiente com as angústias das personagens. Ainda assim, é um livro que creio valer a pena conhecer.

Classificação: 7/10

Edição: 2007
Tradutor: Paulo Faria
Editor: Sextante
Páginas: 260

Manuela Moura Guedes - Legado para a eternidade

Em busca do tempo perdido I

Uma das grandes polémicas pré-eleitorais, foi o saneamento de Manuela Moura Guedes dos ecrãs nacionais. Não acredito muito nas alegações de interferência do PS, não devido a uma crença na sua inabalável ética (aquelas reportagens sobre o Freeport não devem ser muito populares em São Bento), mas sobretudo por causa do timing. Mais depressa culparia os seus adversários políticos. A altura do reajustamento do edifício informativo em Queluz, foi realmente infeliz. Mas parece-me evidente para qualquer pessoa, que a abordagem irreverente (chamemos-lhe assim) adoptada por Moura Guedes, só era possível devido à coincidência de ser o seu marido quem mais ordenava naquela casa. Sem me alongar sobre os (de)méritos da mesma, após a saída de José Eduardo Moniz da TVI, era apenas uma questão de tempo até a responsável pelo Jornal de Sexta levar o proverbial pontapé.


Aproveito para partilhar o seguinte texto que me enviaram por mail:

TVI - A Minha Leitura (José Niza)


Fui director de programas da RTP e depois seu administrador. E garanto-vos que, se alguma vez algum apresentador ou jornalista desse uma entrevista a chamar-me “estúpido”, a primeira coisa que aconteceria seria o cancelamento imediato do seu programa, independentemente de haver ou não eleições em curso.
Por isso me parece incompreensível que, embora rios de tinta já se tenham escrito sobre o cancelamento do jornal nacional que Manuela Moura Guedes (MMG) apresentava na TVI, todos os analistas e comentadores tenham ignorado a explosiva e provocatória entrevista que MMG deu ao Diário de Notícias dias antes de a administração da TVI lhe ter acabado com o programa.
Em meu entender essa entrevista, realizada com antecedência para ser publicada no dia do regresso de MMG com o seu jornal nacional, foi a gota de água que precipitou a decisão da TVI. É que, o seu conteúdo, de tão explosivo e provocatório que era, começou a ser divulgado dias antes. E se chegou ao meu conhecimento, mais cedo terá chegado à administração da TVI.
Nessa entrevista MMG chama “estúpidos” aos seus superiores. Aliás, as palavras “estúpidos” e “estupidez” aparecem várias vezes sempre que MMG se refere à administração.
É um documento que merece ser analisado, não somente do ângulo jornalístico, mas sobretudo do ponto de vista comportamental. É uma entrevista de uma pessoa claramente perturbada, convicta de que é a maior (”Eu sou a Manuela Moura Guedes”!) e que se sente perseguida por toda a gente. (Em psiquiatria esse tipo de fenómenos são conhecidos por “ideias delirantes”, de grandeza ou de perseguição).
MMG diz-se perseguida pela administração da TVI; afirma que os accionistas da PRISA são “ignorantes”; considera-se “um alvo a abater”; acusa José Alberto de Carvalho, José Rodrigues dos Santos e Judite de Sousa de fazerem “fretes ao governo” e de serem “cobardes”; acusa o Sindicato dos Jornalistas de pessoas que “nunca fizeram a ponta de um corno na vida”; diz que o programa da RTP 2, Clube de Jornalistas, é uma “porcaria”; provoca a ERC (Entidade Reguladora da Comunicação Social); arrasa Miguel Sousa Tavares e Pacheco Pereira, etc.
E quando o entrevistador lhe pergunta se um pivô de telejornal não deve ser “imparcial”, “equidistante”, “ponderado”, ela responde: “Então metam lá uma boneca insuflável”!
Como é que a uma pessoa que assim “pensa” e assim se comporta, pode ser dado tempo de antena em qualquer televisão minimamente responsável?
Ao contrário do que alguns pretendem fazer crer – e como sublinhou Mário Soares – esta questão não tem nada a ver com liberdade de imprensa ou com a falta dela. Trata-se, simplesmente, de um acto e de uma imperativa decisão administrativa, e de bom senso democrático.
Como é que alguém, ou algum programa, a coberto da liberdade de imprensa, pode impunemente acusar, sem provas, pessoas inocentes? É que a liberdade de imprensa não é um valor absoluto, tem os seus limites, implica também responsabilidades. E quando se pisa esse risco, está tudo caldeirado. Há, no entanto, uma coisa que falta: uma explicação totalmente clara e convincente por parte da administração da TVI, que ainda não foi dada.
Vale também a pena considerar os posicionamentos político-partidários de MMG e do seu marido.
J. E. Moniz tem, desde Mário Soares, um ódio visceral ao PS. Sei do que falo. MMG foi deputada do CDS na AR.Até aqui, nada de especialmente especial.
O que já não está bem – e é criminoso – é que ambos se sirvam de um telejornal para impunemente acusarem pessoas inocentes, sem quaisquer provas, instilando insinuações e induzindo suspeições.
Ainda mais reles é o miserável aproveitamento partidário que, a começar no PSD e em M. F. Leite, e a acabar em Louçã e no BE, está a ser feito. Estes líderes políticos, tal como Paulo Portas e Jerónimo de Sousa, sabem muito bem, que nem Sócrates nem o governo tiveram qualquer influência no caso TVI. Eles sabem isto. Mas Salazar dizia: “O que parece, é”!
E eles aprenderam.

– 1984. Eu era, então, administrador da RTP. Um dia a minha secretária disse-me que uma das apresentadoras tinha urgência em falar comigo: – “Venho pedir-lhe se me deixa ir para a informação, quero ser jornalista”! Perguntei-lhe se tinha algum curso de jornalismo. Não tinha. Perguntei-lhe se, ao menos, tinha alguma experiência jornalística, num jornal, numa rádio… Não tinha. “O que eu quero é ser jornalista”! Percebi que estava perante uma pessoa tão determinada quanto ignorante. E disse-lhe: “Vá falar com o director de informação; se ele a aceitar, eu passo-lhe a guia de marcha e deixo-a ir”. A magricelas conseguiu. Dias depois, na primeira entrevista que fez – no caso, ao presidente do Sporting, João Rocha – a peixeirada foi tão grande que ficou de castigo e sem microfone uma data de tempo.
P.S.
A jovem apresentadora chamava-se Manuela Moura Guedes.
E se eu soubesse o que sei hoje…

Terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Doce despertar do período de hibernação.