terça-feira, 7 de julho de 2009

2666 de Bolaño - Para quando a publicação em Portugal?



De todos os livros que li este ano, apenas um caracterizaria como obra-prima: "Os Detectives Selvagens" de Roberto Bolaño. A expressão "primeiro estranha-se, depois entranha-se", descreve na perfeição o sentimento que mergulhar neste livro me provocou. Existe uma componente obsessiva no mesmo, que faz com que o impacto da sua leitura em nós aumente quanto mais o tempo passa. Talvez ainda coloque em palavras a minha opinião do mesmo. Mas por ora, limito-me a deixar o link para a crítica do Bibliotecário de Babel.

Para os conhecedores da obra de Bolaño, o seu expoente máximo é o romance "2666" (cerca de 1000 páginas), publicado postumamente. Encontrei um "primeiro rascunho sobre 2666" no Absurdo, que me abriu ainda mais o apetite. Esperemos que a Teorema (ou outra editora com perspicaz sentido comercial e artístico), não demore muito a editá-lo em Portugal. Quanto a mim, há uma edição inglesa que ando a namorar no Bookdepository (abençoados portes gratuitos), que palpita-me ainda vem cá parar a casa. Para os interessados, fica a advertência de que exactamente a mesma edição na FNAC (importada), é cerca de 10€ mais cara. Quem avisa amigo é.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

As Velas Ardem até ao Fim - Sandór Marai



Num pequeno castelo de caça na Hungria, um coronel envelhecido aguarda durante 40 anos o reencontro com Konrád, o seu outrora inseparável amigo. Sabe que antes de morrer se hão-de encontrar novamente, e é a expectativa desse momento que o prende a este mundo. Num ritmo pausado, mas nunca enfadonho, conta-nos a história da sua vida. Como foi crescer em condições privilegiadas naquela época, e em como essa amizade com alguém no extremo social oposto se inicia e aprofunda. A separação de alguém que era como um irmão, e a morte da sua mulher, foram dois acontecimentos que o marcaram profundamente. E de alguma forma parecem estar ligados entre si. Perdeu o prazer pela vida e paira como um espectro, ruminando incessantemente o passado e esperando, sempre esperando. Essa ligação vai-nos sendo confidenciada ao longo da história. Mas não se pense que é a força motriz do livro. A escrita de Márai é muito boa. Deslizamos por ela, desfrutando o prazer que nos proporciona, e quase esquecendo o papel que cada capítulo desempenha na história. A recriação do ambiente da época é outro ponto forte do livro. Durante os quarenta anos que permeiam a história, o Império Austro-Húngaro entrou em declínio. A realidade opulenta e orgulhosa que conhecemos numa primeira fase, apoiada nas suas raízes militares e aristocráticas, desapareceu entretanto. E no novo mundo que se lhe seguiu, não parece haver lugar para Henrik e Konrád.

"As Velas Ardem até ao Fim" acaba por ser essencialmente um monólogo, pois mesmo após o tão aguardado encontro, continua a ser o Coronel a fazer as despesas da trama. A sua introdução permite despoletar emoções mais veementes no espírito do nosso narrador, mas Konrád destaca-se mais pelo que não diz, pela importância dos seus silêncios.

Um livro pequeno, que se lê em poucas horas, mas cuja marca da sensibilidade e mestria com que foi escrito, perdura no nosso espírito. Uma relação de amizade pode ser o vínculo mais nobre e profundo entre duas pessoas. Tão forte como um vínculo de sangue; tão profundo como um amor romântico. Foi a amizade entre ambos que definiu a medida dos homens que ambos seriam. Márai aborda as subtilezas de uma amizade. Da confiança e lealdade que a caracterizam; e da sua vulnerabilidade, pois não há ninguém de quem esperemos mais.

Sandor Márai teve bastante sucesso na época em que viveu, até ver os seus livros proibidos na sua Hungria natal, na altura sob o jugo do comunismo. O seu trabalho acabou por cair no esquecimento, e apenas recentemente tem sido redescoberto e aclamado. Suicidou-se em 1989, na Califórnia.

"As Velas Ardem até ao Fim"
Sandór Márai
Tradução do húngaro de Mária Magdolna Demeter
Dom Quixote
1ªEdição - Outubro 2001/19ªEdição - Abril 2009

Classificação: Muito Bom. A escrita de Márai é excelente, e transforma uma reflexão subtil sobre a amizade num livro marcante. Noutras mãos, facilmente resvalaria para a banalidade.

Em busca de uma alma gémea; uma qualquer...

Hoje descobri duas coisas. Primeiro, que ainda existe uma coisa chamada Hi5. É algo de que normalmente não me lembro porque nunca fui grande adepto do mesmo. Segundo, que o mesmo inclui agora uma função apelidada Hi5 Namoros. Os interessados fazem um pedido de namoro, e ao destinatário basta dizer sim ou não. Encontrei um post de alguém a quem não faltam promissoras candidaturas. É de uma pessoa se escangalhar a rir.

Como bónus, pela mesma vizinhança encontrei outros dois bons motivos para rir (aqui e aqui).

Adenda: Ao fazer uma rápida pesquisa, fiquei surpreendido com a quantidade de derivações do Hi5 que encontrei. Hi5Porcas (lembrava-me da existência deste), Hi5 Porcalhonas, Porcas do Hi5, etc. Enfim, todos parecem partilhar do mesmo antepassado suíno. Realmente, é preciso cuidado com as fotografias pessoais que se colocam na net. E é impressionante a quantidade de miúdas e mulheres, que usam o hi5 como uma espécie de portfolio erótico online. Porque muitas das fotografias, não oferecem quaisquer dúvidas quanto ao seu carácter a ninguém de bom senso.

Booktailors Publishing Magazine, B:Mag para os amigos

A Booktailors lançou uma revista online gratuita, relativa à edição literária nacional. O primeiro número reúne os textos publicados no espaço "Opinião no Blogtailors". Para os interessados, ver como fazer o download aqui.

Um caso à parte até na morte

Houve cerca de um milhão e seiscentos mil candidatos ao sorteio de entradas gratuitas para o funeral de Michael Jackson. Cerca de dezassete mil foram contemplados com o bilhete que lhes permitirá fazer parte da histórica ocasião. Mórbida postura, ou simples tentativa de antecipação e controle da enorme afluência que se espera? Sei lá...Como prova do espírito empreendedor americano, no ebay, alguns dos bilhetes já valem 3500€.

O rei vai nu!

Grande texto de António Barreto sobre o nosso destemido líder.

domingo, 5 de julho de 2009

Agora falando a sério

A trilogia de posts anterior, "Cada tiro, cada melro", aborda de forma algo sarcástica algumas das reacções padrão a situações de criminalidade em bairros considerados problemáticos. Para mim, ao autonomizar e amplificar ao limite uma das vertentes do problema, um determinado interveniente simplifica excessivamente a discussão do mesmo. Acredito que algumas vezes o faça por convicção e não por má-fé. Mas também acredito que essa abordagem resulta em mais mal do que bem. Porque poucas questões são hoje em dia tão complexas como as causas por detrás desta realidade.

Tenho algumas opiniões que gostava de partilhar sobre a temática, mas acho importante fazê-lo de forma fundamentada. Fica por agora, apenas a intenção de publicar aqui, uma série de textos sobre a mesma. Assim haja tempo.

Cada tiro, cada melro 3

Para adiantar trabalho, que tal alguém começar a preparar os cartazes em que se jura a pés juntos os bons rapazinhos que os eventuais detidos sempre foram? Quando forem identificados, basta colocar as fotos e respectivas legendas (com nomes de guerra, tipo Jekkas e 3Gun). Pode-se sempre queimar algum património público e chamar a TVI para dar um certo colorido.

Cada tiro, cada melro 2

Se se confirmar que os disparos foram efectuados por dois indivíduos de raça negra, o PP, de forma mais ou menos subtil (provavelmente menos), chamará a atenção para como este infeliz acontecimento se encontra relacionado com a falta de uma política responsável de emigração. Não se trata de qualquer forma de xenofobia, mas sim de impor limites. Ainda que na maior parte destas situações, os envolvidos sejam imigrantes de 2ª ou 3ª geração, com nacionalidade portuguesa e em muitos casos nunca sequer saíram do país. Mas um discurso de problema claro, com solução clara, apela muito melhor ao eleitorado alvo. Só assim se pode transmitir a noção de que se dependesse deles, isto resolvia-se já amanhã. Como diz o cartaz: "Não basta ter razão. É preciso ter votos".

Cada tiro, cada melro

Dois polícias foram baleados hoje na Amadora. Em princípio vão sobreviver. Fico ansiosamente a aguardar as explicações do Bloco de Esquerda acerca de como estes factos foram, na realidade, resultado de um inadequado comportamento das autoridades e de uma limitada política social maniqueísta por parte do Governo (para recorrer ao vernáculo oficial).

O Brüno está a chegar

É já quinta-feira a estreia de "Brüno", a nova criação de Sacha Baron Cohen, conhecido sobejamente pelo seu alter-ego Borat. A fotografia foi roubada ao Sound + Vision. Podem ver o trailer num outro post deste estaminé: Borat was so 2006 - Bruno Trailer

Deambulações pela FNAC 2


Lin Hai & Friends - Pipa Images

Estava em cima de um dos postos de escuta na FNAC, desarrumado. Não o conhecia de lado nenhum. Mas a capa chamou-me a atenção e decidi experimentar. Muito bonito. E bonito serviço também. Como se já não tivesse tentações suficientes em lista de espera.

Mais tarde, uma breve pesquisa revela que "Lin Hai é pianista e compositor da nova era. Inspirados pelas coisas que viu durante uma visita à região do Sul do Rio Yangtsé, ele criou as músicas deste álbum tocadas pelo instrumento tradicional chinês Pipá, mas com melodias e ritmos totalmente modernos, integrando elementos de Jazz, New Age e elementos de minorias étnicas."

Deambulações pela FNAC 1

Para quem quiser aproveitar, existem diversas temporadas das séries 24, Sopranos e Battlestar Galactica, disponíveis por cerca de 20€ cada. Metade do preço habitual, mais coisa, menos coisa. Qualquer uma vale bem a pena o dinheiro. Battlestar Galactica foi a minha grande descoberta (tardia) do ano. Excepcionalmente bem escrita, vai muito além da classificação de ficção científica. Aborda a natureza humana e os dilemas, terrenos e espirituais, que nos assolam. E sim, também há uma data de coisas a explodir.

Paulo Coelho III

E, aparentemente em contradição total com os dois posts anteriores, assumo o meu interesse em ler a biografia do homem. Confusos? A culpa foi da entrevista dada pelo autor, o jornalista brasileiro Fernando Morais, a Isabel Coutinho; e do texto da Pipoca mais doce a 22 de Maio de 2009 que abaixo reproduzo (não consegui colocar o link directo) :

"Coisas que fiz e das quais tenho vergonha #1: comprar um livro do Paulo Coelho (mais ou menos)

Então foi assim que a coisa se deu: faz amanhã duas semanas entrei na Fnac ao final do dia. Estava à espera que o meu homem me fosse buscar e, para fazer tempo, dei um salto ao bar da Fnac só para comprar uma água. Acontece que estava a decorrer a apresentação de um livro, feita pela Leonor Xavier. Não percebi que livro era, pela conversa pareceu-me altamente entediante, até que passaram a palavra ao autor. Era um brasileiro, com idade para ser meu pai, e daqueles que abre a boca e uma pessoa já não consegue desligar. Peguei na água, sentei-me, e fiquei a ouvi-lo mais de uma hora. Ora o livro deste senhor, de seu nome Fernando Morais, é nada mais nada menos do que a biografia do Paulo Coelho. Pois. Um calhamaço com mais de 600 páginas. Mas o senhor (que é jornalista, e daqueles mesmo bons) vendeu a história tão convincentemente (e que história, a vida do homem mete todas as drogas e mais algumas, satanisno, choques eléctricos, experiências homossexuais... e, ainda assim, vende livros como ninguém), que eu dei por mim a folhear o livro. Senti-me mais aliviada quando ele anunciou que o livro era tanto para os que amavam como para os que não percebiam o fenómeno Paulo Coelho. Como estou neste último sector (apesar de ter lido vários livros do senhor na adolescência), acabei por levar o livro para casa. No fim fui falar com o Fernando Morais e disse-lhe isto tudo. Que só tinha ido comprar uma água e que, sabe-se lá como, tinha acabado com a biografia do Paulo Coelho nas mãos. E que nem gostava dele. E ele disse que mais do que gostar de Paulo Coelho, o livro valia pela história. Já percebi que sim, que o homem escreve bem que se farta e que é um excelente contador de histórias. Mas agora tenho de andar no metro com um livro chamado "O Mago", onde o nome Paulo Coelho é bem maior do que o do próprio autor. E tenho um bocadinho de nada de vergonha. E vou sempre a tentar esconder a capa. E odeio forrar livros, se é essa a vossa sugestão. Pois, pois, sou preconceituosa, que fazer?"

Paulo Coelho II

Será que a Veronika decidiu morrer porque a obrigaram a ler a obra completa do senhor? É que só de ler "O Alquimista", já tive vontade de pegar no cajado do protagonista e desatar a distribuir bordoada a torto e a direito. Não me convenceu. Parece-me a estrutura narrativa de uma parábola bíblica, cruzada com um livro de auto-ajuda. Na onda daqueles livrinhos que os jeovás nos impingiam. E a mim não ajudou. Mas gostos são gostos. E a verdade, é que se trata de um livro que potencia ao máximo os valores que os leitores nele queiram projectar. Sejam eles quais forem.

Adenda politicamente correcta, mas ainda assim verdadeira: não tenho nenhum problema com a fé Jeová, ou com a maioria das religiões disponíveis no mercado. Nunca reagi foi bem ao marketing agressivo.

Entrevista a Miguel Sousa Tavares

Hoje, entrevista a Miguel Sousa Tavares no DN.

Paulo Coelho I

"Se alguém se esforça além dos seus próprios limites, também quebra a sua vontade." Ler Paulo Coelho é como ler o nosso signo; há sempre um dia em que parece que está escrito à nossa medida.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Primeiro Balanço

Excepção feita a alguns posts experimentais em Março, só comecei a publicar regularmente no Alexandria a 5 de Junho. Criado essencialmente como uma materialização do meu interesse pela leitura, mas também pela área da edição literária, não quis excluir a possibilidade de fazer pequenos desvios por outros assuntos. Fossem áreas como a música, cinema e fotografia; ou deambulações diversas em matérias sobre as quais sinta vontade ou necessidade de escrever. Trata-se de um espaço recente, sujeito a muita experimentação, e que ainda busca a sua identidade. Mas havendo vontade e tempo para o mesmo, acredito que encontrará o seu caminho. Pelo menos ideias para concretizar não faltam.

Até ao dia de hoje foram feitos 51 posts. Foram recebebidas 197 visitas. Coisa pouca, bem sei. Muitos dos blogs que acompanho regularmente, têm facilmente mais afluência que isso num só dia. Mas é algo que não me é particularmente relevante neste momento. Apenas o refiro, porque parece-me surpreendente (e fonte de algum orgulho), que na minha primeira incursão por estas lides, já tanta gente tenha tido interesse em ler o que escrevi. A todos o meu obrigado. Estou a gostar da experiência e espero continuar a fazê-lo enquanto me der prazer, e na medida em que as circunstâncias da minha vida o permitam.

Queria também agradecer ao Estante dos Livros, ao Conta-me Histórias, ao ...viajar pela leitura... e ao Porta-Livros por me adicionarem nas suas barras laterais de blogs seguidos. É agradável saber que passaram por cá, e gostaram do que leram. Por último, um muito obrigado à kk, única pessoa no meu círculo pessoal a quem falei deste projecto até agora, e que tem, pacientemente, sido incansável nos incentivos e opiniões. Obrigado pelo carinho dispensado.

De certa forma, este balanço é mais para mim do que para os que por aqui passam. É a declaração de princípios a que não houve lugar no início. Preferi esperar até ter algo que valesse a pena dizer.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Alice no País das Maravilhas

Vem aí uma nova adaptação da obra de Lewis Carroll. Desta vez, com o toque de génio de Tim Burton.




A vida é frágil

Foi noticiada a morte da coreógrafa alemã Pina Bausch, a um mês de completar 69 anos. Tinha descoberto apenas cinco dias antes, que estava doente com cancro. Cinco dias. A vida é muito frágil...