segunda-feira, 15 de junho de 2009

Lista de Desejos

Mais um para a lista de desejos. O seu antecessor "Budapeste", foi um dos livros mais belos e marcantes que já li. Quero ver se Chico Buarque conseguiu pelo menos igualar a força da estória do escritor anónimo José, dividido entre duas cidades, duas línguas, duas vidas . "Budapeste" está incluído na colecção BisLeya, pelo que quem o quiser adquirir, o pode fazer por cerca de 6€. Uma verdadeira pechincha.

sábado, 13 de junho de 2009

Está tudo cinco estrelas!

Via Cadeirão Voltaire, descobri um interessante texto de Francisco Vale no blog da Relógio D'Água, em que este disserta porque não faz sentido para si o sistema de pontuação quantitativa de livros (as famosas estrelas incluídas).

Tudo isto aconteceu. Tudo isto voltará a acontecer(?)

Ao fazer um intervalo no trabalho, passei os olhos na rtp2. Estava a dar um documentário sobre um campo de concentração alemão, que tem sido mantido como testemunho do que aconteceu. Os visitantes escutam os guias explicarem como funcionava aquele lugar. Os registos de mortes que se dividiam entre os suicídios e as mortes legais. Não havia outro tipo de mortes. Às vezes, os SS executavam alguém a sangue frio. Sem necessidade de um porquê. Atiravam depois o corpo para a vedação, tiravam uma foto para o registo, e pronto, mais um que não aguentou a pressão. Quem é que ia estranhar? Estamos a falar de judeus e afins. Não se pode esperar muito. Quem é que se ia importar? Às vezes, os detidos estavam tão magros, que quando lhes batiam com um bastão de borracha, a pele rasgava. Tudo era tão organizado, tão eficiente. Existia um organograma para dividir os ocupantes em categorias. Os mais susceptíveis de fugir tinham um ponto nas costas. Uma ajuda visual para os guardas. O pior dos piores, era o judeu homossexual. Mas esses não duravam muito. Uma vizinha do campo, conta como viu uma pilha de corpos empilhados quando voltava das compras. Nem se deram ao trabalho de os matar a todos antes. Faz sentido. Optimização de recursos. Faz todo o sentido. Vemos os "duches", os fornos. Vemos os excursionistas questionarem-se como metiam as pessoas no seu interior. Estariam mortos ou vivos; iriam de livre vontade?

Meu Deus! Como é que isto foi possível? Racionalmente sei até onde pode ir a crueldade humana. Sei até onde já foi, pelo menos. Mas ao ver aquilo...Como é que fomos capazes de o fazer, de o permitir. Elie Wiesel, sobrevivente do holocausto e Prémio Nobel da Paz, escreveu uma frase no seu livro "Noite", em que relata as experiências que viveu em dois desses campos:"Eu era o acusador, e Deus o acusado. Com os olhos bem abertos, vejo que estou só - terrivelmente só num mundo sem Deus e sem Homem." É uma boa maneira de pôr as coisas.

Quanto mais o tempo passa, mais necessários parecem estes santuários reconvertidos. Para nos lembrarem do que se passou; para nos subtraírem a possibilidade de esquecer ou relativizar. Confesso que achava um pouco macabra a peregrinação a estes lugares (excepção feita a sobreviventes). Vou vendo as coisas de forma diferente. Os testemunhos que nos foram legados materializam-se ali. Existiu mesmo. Parece coisa pouca, mas pouco mais de 60 anos foram suficientes para surgir o negacionismo destas atrocidades (com um número crescente de adeptos). Ou então, discutem-se os números. Como seis milhões de mortos é claramente exagerado. Na melhor das hipóteses, quatro. E vá lá. Não por rigor histórico. Mas como atenuante. Não foi tão grave assim afinal. Não importa que o único motivo para não ter sido ultrapassada a barreira dos dez milhões; dos vinte milhões, foi alguém tê-los detido. Mas talvez alguns lamentem apenas que os nazis não tenham conseguido acabar o serviço.

No final, um dos responsáveis explica que as aves e os animais não se aproximam do campo. Pode ser do cheiro do crematório, diz. Ele acredita que é porque sentem a morte.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Quem fala assim não é gago

(...)Certa vez escrevi um texto sobre a função pública que indignou de tal forma um senhor que ele encerrava o seu mail furibundo,com esta frase maravilhosa sobre a minha pessoa: "Que bela punheta que se perdeu."Reparem que, ao contrário das ofensas mais batidas, esta evita dizer mal dos meus progenitores ao mesmo tempo que atinge o mais ínfimo de mim. Ela afirma isto: "Mas porque é que o pobre do seu ppai se lembrou de ir gastar um dos seus espermatozóides consigo?" Isto é magnífico, com alguma dor, a perda de um belo momento de onanismo, trocado pele miserável concepção da pessoa cuja triste figura podem verificar na foto apensa. Nem o capitão Haddock se lembrou de tal, embora desconfie que a palavra "punheta" não ficasse particularmente bem num livro de Tintim.(...)

João Miguel Tavares - jornalista e director-adjunto da Time Out no sofá da revista LER Junho 2009 sobre o melhor insulto, do ponto de vista qualitativo, que já recebeu.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Borat was so 2006 - Bruno Trailer

Futurama Ressuscita

Boas notícias para quem lamentou o cancelamento desta série de Matt Groening (criador dos Simpsons), alguns anos atrás. Seis anos depois vai voltar a ser produzida.

Os Pecados do Lobo - Anne Perry


Integrado na excelente colecção de policiais da Gótica "Nocturnos", a acção de "Os Pecados do Lobo", de Anne Perry, desenrola-se na Inglaterra Vitoriana e tem no detective William Monk a sua personagem principal. Monk é abrupto, inconveniente e sarcástico; ao fim e ao cabo, alguém que não é tido na melhor das contas. Mas é também extremamente inteligente e incansável a defender uma causa que considere justa, não hesitando em desrespeitar a maioria dos extremamente rígidos preconceitos sociais da época. Rege-se apenas pelos seus princípios pessoais, sem dar muita importância às consequências que possa sofrer. Embora seja o primeiro que leio, não se trata do primeiro livro da série. As constantes da mesma são um conjunto de personagens comuns e o contexto pessoal de cada uma. Os elementos mais relevantes dos mesmos são facilmente introduzidos (o caso de um anterior despedimento de Monk da Polícia e a amnésia de que sofre). Já o crime investigado neste volume, é autónomo e circunscrito ao mesmo, pelo que não é indispensável ler os volumes anteriores.

A enfermeira Hester Latterly (pertencente ao núcleo de personagens comuns), vê-se acusada do crime de homicídio por envenenamento, de uma sua doente que acompanhava em viagem. Os indícios encontrados apontam fortemente para a sua culpabilidade. Sabendo-se inocente, Hester tem também consciência que apenas um dos membros da família onde a vítima era matriarca, poderia ter tido os meios e oportunidade para cometer o crime, e ainda deixar provas incriminatórias contra si. Recorre à ajuda de Monk, e do advogado Oliver Rathbone, os quais, pelo passado que partilham, acreditam intransigentemente na sua inocência. São os três vértices de um triângulo amoroso subtil, que gera alguns dos momentos mais divertidos do livro.

O livro caracteriza-se essencialmente pela sua capacidade descritiva e pelo tom leve que, embora sem ter pretensões humorísticas explícitas, nos leva a viajar pelo mesmo com um sorriso nos lábios. As personagens, tanto principais como secundárias, estão bem conseguidas. Raramente se limitam a estereótipos. Mesmo as que não são exploradas a um nível mais complexo, conhecemos delas o suficiente para nos transmitir a sensação de que há mais nelas do que um primeiro olhar alcança. Levando o seu tempo a descrever cada uma das etapas da história, o ritmo da trama acaba por sair algo prejudicado. A descrição da estrutura familiar e dos rígidos padrões sociais em meados do séc.XIX é cativante sem ser exaustiva, limitando-se às exigências da história. O papel das mulheres na sociedade e como este se começava lentamente a alterar tem um destaque especial. Na guerra da Crimeia, onde Hester serviu como enfermeira, pela primeira vez as mulheres acederam à profissão de enfermeira por vocação, e não como um trabalho rebaixante reservado para quem esgotou outras alternativas. Neste confronto notabilizou-se a figura de Florence Nightingale, uma personalidade real que chega a ser integrada na história numa homenagem à importância dos seus feitos. Granjeou um respeito profundo dos seus contemporâneos que roçava a adoração, e foi fundamental para uma melhoria drástica dos cuidados de saúde que se prestavam, sobretudo aos mais pobres.

Enquanto tenta descortinar motivos no seio da família da vítima susceptíveis de impelir ao assassinato, Monk acaba muitas vezes em becos sem saída. Os avanços mais significativos na investigação do crime, sucedem numa fase já adiantada do livro. Em resultado disso, os acontecimentos acabam por se precipitar de forma um pouco atabalhoada. É esse twist final que revela as motivações subjacentes ao crime e, embora seja algo forçado e não totalmente surpreendente para quem esteja habituado a este tipo de histórias, não prejudica a sensação de agradabilidade que ler este livro nos transmite.

Os 25 Anos da Taschen (1)

No seguimento de Parabéns Taschen!








Imagens retiradas do livro "Japanese Prints" - Fahr-Becker, Gabriele / Walther, Ingo F.
Hardcover, 24 x 30 cm (9.4 x 11.8 in.), 200 pages
€ 9.99

Para ti,kk

terça-feira, 9 de junho de 2009

Salve-se quem puder

Nunca um programa de televisão em Portugal teve um nome tão apropriado. Nem a Diana Chaves sem som salva aquilo.

Cada macaco no seu galho

Em relação às recentes eleições europeias, e às suas consequências para o rumo da União Europeia, um post de Eduardo Pitta no Da Literatura cuja leitura me angustiou. Talvez gostemos de pensar que, como sociedade, somos melhores do que efectivamente somos. A fotografia que acompanha está bem esgalhada.

Diferença entre defender a lei e a filha-da-putice 2

Primeiro ver Diferença entre defender a lei e a filha-da-putice

Consultando o site da IGAC, temos acesso ao diploma que regula a lei do preço fixo do livro. Esta, no seu artigo 15, nº1, alínea b) estabelece como excepção ao regime da mesma, os livros usados e de bibliófilo, ficando estes isentos.

Uma grande parte dos livros em questão estão em bom estado, mas não deixam de ser usados. Quando entraram no mercado, entraram respeitando a lei. As flutuações nos seus preços aconteceram já após entrarem na esfera de um privado. Caso contrário, nem lhe seria possível praticar preços significativamente mais baixos. Não falamos de um grande grupo económico, com capacidade para comprar a preço de custo. Teve necessariamente de os comprar mais baratos do que os vende. Sei disto porque é apenas lógico, e porque eu próprio já lhe vendi livros. Não tantos quanto os que lhe comprei, mas aconteceu.

A lei parece clara mas talvez haja uma interpretação ou um artigo que me tenha escapado. Afinal de contas, houve lugar a uma coima. Algum motivo a teve de fundamentar, não é?

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Para o Verão, a minha prenda, eu quero que seja...

Diferença entre defender a lei e a filha-da-putice

A semana passada, visitei o meu vendedor de livros usados favorito a participar numa feira temporária, e fiz o meu avio do mês. Na conversa com esse meu conhecido, soube que tinha recebido uma visita da IGAC devido a uma denúncia por desrespeito da lei do preço fixo (durante os primeiros 18 meses após a sua edição, um livro não pode ser vendido com um desconto superior a 10% do preço de editor. Estão ainda disponíveis um número limitado de dias em que se pode fazer um desconto máximo de 20%, se respeitadas certas circunstâncias.). Desta visita resultou uma coima. Não conheço a lei em concreto e não sei se abrange o mercado de usados. Sei isso sim, que estamos a falar de 1 ou 2 exemplares de cada livro. Os títulos disponíveis são os que calham. Muitas vezes nem se tratam de compras e vendas, mas sim de trocas directas. Sei ainda que existe uma diferença entre alguém bater-se pelas leis concorrenciais do mercado que visam evitar desequilíbrios no mesmo, e a FILHA-DA-PUTICE MESQUINHA E INVEJOSA de quem está de olho em mais meia dúzia de trocos e não tem problemas em prejudicar alguém que faz isto nos fins-de-semana mais por carolice e um pequeno extra que outra coisa. Não se preocupem. Como é honesto, todos os livros nessas condições foram guardados até que tenha certezas sobre se pode vendê-los ou não. Mas tenho uma questão: se comprar um livro que seja uma trampa, e o vender a preço de uva mijona reflectindo a pouca estima que lhe nutro a um amigo antes dos 18 meses, posso ser alvo de coima? E o amigo que mo compre? Malandros...Devíamos ficar proibidos de ler durante 18 meses.

Mais uma vitória para os auto-proclamados guardiões da cultura!

Parabéns Taschen!

A editora fundada por Benedikt Taschen iniciou o seu percurso em 1980. Conhecida mundialmente pela boa relação que consegue estabelecer entre a qualidade das suas obras e o respectivo preço, a Taschen publica actualmente obras sobre áreas tão diversas como arte, fotografia, arquitectura, design, decoração e viagens entre outros. Ao completar 25 anos, lançou uma série comemorativa que reproduz uma grande parte do seu catálogo em edições mais económicas. Passados 4 anos, continuam a ser acrescentados títulos a esta iniciativa. No entanto, muitos dos livros que primeiro a integraram estão já esgotados.

Consegui adquirir uma parte significativa dos livros que me interessavam da mesma, e à semelhança do que fiz no post anterior, vou colocar algumas imagens dos meus favoritos nos próximos tempos deste blog. São para mim, um verdadeiro deleite para os sentidos.

Sugestões 1 - "Olhos nos Olhos"

Enquadrado na série comemorativa dos 25 anos da editora Taschen, foi publicado recentemente o livro "Olhos nos Olhos" de Frans Lanting. Para quem apreciar fotografia da vida animal, é uma excelente oportunidade, porque trata-se de um livro que conjuga uma enorme qualidade com o preço acessível de 15€. A edição portuguesa pode ser encontrada pelo menos na FNAC, Bertrand e Almedina.




domingo, 7 de junho de 2009

A Canção de Kali - Dan Simmons


Robert Luczack é um jornalista americano, que viaja até Calcutá incumbido de redigir um artigo sobre um novo poema que está a intrigar o mundo literário. Consigo viajam também a sua mulher Amrita, e a bebé de ambos, Victoria. Amrita, embora nascida na Índia, não visita o país desde criança. Atribuído ao poeta Das, o poema em questão é controverso. Embora comprovadamente recente, todos os indícios apontam para a morte do seu autor à cerca de dez anos atrás. À medida que investiga a veracidade do manuscrito, Robert descobre estar efectivamente perante o trabalho de Das, mas também que os rumores da sua morte não foram exagerados. O conteúdo deste novo poema diverge do seu trabalho anterior e remete incessantemente, em termos grotescos, para Kali, a deusa da Morte. Preso nesta contradição insanável, o único caminho para descobrir a verdade parece ser através de uma seita conhecida como o culto de Kali, a qual parece ter os seus próprios intentos para o jornalista. Com cada passo que dá, mergulha cada vez mais num emaranhado de crenças que a sua mente lhe dizem impossíveis, mas que sente cada vez mais como reais. Quando encontra finalmente alguém com uma explicação para o ressurgimento de Das, fica hipnotizado enquanto escuta o seu testemunho do que presenciou. Apercebemo-nos que nós também. Essa narrativa dentro da estrutura principal do romance é particularmente bem conseguida e, para mim, o ponto em que o livro me conquistou definitivamente.

A cidade de Calcutá é a personagem principal da história. É a sua natureza que nos transmite uma atmosfera de desconforto que vai em crescendo até atingir um terror palpável. Dan Simmons descreve um lugar maligno; submerso na imundice e miséria. Os prédios encavalitam-se, as pessoas também. Tudo fede permanentemente a uma mescla de lixo, doença e excrementos. Calcutá está para além da salvação, para além de piedade. Nada mais é que uma chaga abjecta na humanidade. Deveria ser varrida da face do planeta por uma violenta explosão; uma nuvem em forma de cogumelo com que Robert chega a sonhar, que expurgasse o mundo inteiro desse mal.

Embora integrando elementos sobrenaturais na história, os verdadeiros contornos dos mesmos nunca são completamente explicitados. Na minha opinião, é essa ambiguidade a grande força do livro. Como nunca sabemos até onde chega o toque de Kali, compreendemos o desespero do protagonista para quem nada é já completamente seguro, e que não sabe como combater algo que está longe de compreender por inteiro. Para quem estiver à espera de uma explicação clara para o como e porquê de tudo o que é descrito na história, pode sentir-se defraudado.

Quanto mais avançamos no livro, mais convictos ficamos de que o seu final será de alguma forma trágico. Esta é uma história sobre o Mal. Não é sobre uma luta entre o Bem e o Mal. Somente sobre o Mal; até onde nos pode inquinar e se é possível preservar um vislumbre de esperança no nosso íntimo. Um outro desfecho não respeitaria a natureza da história.

"A Canção de Kali"
Dan Simmons
Tradução de João Barreiros
Edições Saída de Emergência
Setembro, 2005

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Vislumbres 1



Tea Room - Sebastião Salgado

Nuno Bragança

A D.Quixote reeditou recentemente, num único volume, a obra completa de Nuno Bragança. Quase todos os blogs da especialidade cantaram loas à qualidade da obra e mencionaram a importância que teve na sua época. Desconheço; foi antes do meu tempo. Mas entendi que tanto elogio merecia, pelo menos, uma vista de olhos. Ficou na lista.

Mas depois tropecei nuns excertos do livro no blog da livraria Trama. Passou para o topo da lista. A escrita do homem tem qualquer coisa de hipnótico. Reconheci o título "A Noite e o Riso" de uma colecção que fiz ("Grandes Autores de Língua Portuguesa"-Dom Quixote/Visão/JL - 2003) e procurei-o no recanto dos livros que comprei e hei-de ler porque ainda sou novo e para mais foram tão bons negócios. Vai ser este o meu primeiro contacto com a sua obra.

Deixo aqui os excertos que me prenderam, com o devido agradecimento à Trama, mais concretamente à Catarina, roubados daqui.

«Um homem quando vem à vida é uma frescura que nem uma novidade em horta trabalhada. Um rapaz pequeno é um raio, uma perdiz nova. Ouve tudo vê tudo ele quer mas é tudo e acabou-se. Mas chega o dia em que o começam a acordar quando ele inda tem sono. Vai para a escola, dizem. E um gajo sai de casa só com uma boca de pão para o dia todo e quando chega à escola já amorfou tudo, está a ver? Depois é fazer isto e mais aquilo. Ao princípio sempre há a camaradagem, isso é uma coisa importante. Há grandes cabrões para fazer queixa da gente mas a gente dá porrada dura, está a ver? E quando é coisa de matar a fome a roubar fruta sempre é melhor com um ou dois camaradas. Ao começo a coisa inda vai. Mas já não é o mesmo, vê vossemecê um rapaz pequeno é mesmo uma perdiz nova mas é como se estivesse um ginete a roçar a sarda ali ao pé, à espreita. Um dia chega o dia de um homem acordar pela manhã e perceber que desde o momento que nasceu foi mas é prantado à parva de borco na vida. Isto começa quando inda se é rapaz pequeno e vêm sacudir-nos pela manhã. É nessa altura que um homem começa a descobrir. Porra, lá tenho eu mas é de ir puxar à nora. Mas como eu lhe estava declarando, ao começo inda vai. Mas um dia começa a ser mas é mesmo impossível. E então um homem quando acorda sente um buraco no peito que é uma coisa fantástica. E o povo diz, é o bicho. Há um bicho a roer o homem por dentro e ele dá por isso mal acorda. Quase todo o tempo um homem sente o bicho mas de manhã ao acordar aquilo rói por dentro que é um caso sério e um gajo vai mas é direito à aguardente se não quem é que o arranca ao sossego para o engatar à nora? Dar o melhor do corpo ao manifesto?»

«E então quando é Inverno e é noite escura?», disse o servente que tinha estado de costas.

«Matar o bicho.», disse o ruço, «Tudo o que um homem faz é matar o bicho. Até aos domingos é matar o bicho. Um gajo dá uma trancada de fazer cair as traves, cai a dormir. Porreiro. E o bicho fica à espera da manhã, está vossemecê a ver? Um homem acorda de manhã, às vezes mesmo no meio da noite, e sabe logo isto que eu estou a dizer. O doutor, digo eu. E ao depois?, diz ele. Com a sua licença, digo eu. Se essa cambada de abécuas que está ali no corredor tivesse uma instrução apropriada dizia mas era cona da mãe e acabou-se.»

Nuno Bragança, em Directa

LER de Junho



Com um desconto substancial para leitores Bertrand, e a oferta do livro "Rayuela - O Jogo do Mundo" de Júlio Cortázar, deixei-me seduzir pela assinatura da revista LER.
O número deste mês relembrou-me (pré-publicação das primeiras páginas), que está quase nas livrarias o terceiro volume da saga Millennium de Stieg Larsson, até ver o último (a família e a namorada de longa data do autor estão em disputa judicial pelas páginas que este deixou escritas do quarto volume). Conhecemos também os principais lançamentos literários até final de Julho. Mas, num primeiro relance, o que mais me cativou foi a entrevista a Pedro Rosa Mendes, que, faz agora dez anos, publicou um grande livro de seu nome "Baía dos Tigres".

Os Livros Estimulam a Inteligência

É sempre esta labreguice...Acabou-se o Harry Potter, cabe à saga Crepúsculo carregar o manto. Pelos vistos, são muitas as livrarias que vão estar abertas às 0h00 de 9 de Junho, para que os leitores mais ávidos possam comprar o seu livro imediatamente após ficar disponível. Se fosse para trabalhar, de certeza que não faziam tanta fila. Cada um faz o que entende, mas como é que existe gente suficiente para isto? Vão começar a ler o livro logo ali na caixa, ou têm terror que esgote? Esperaram tantos meses, que uma noite a mais fará assim tanta diferença? Passavam pela livraria na terça de manhã (até podem reservar o livro), disfrutavam do prazer de o ter nas mãos e folhear enquanto bebiam o primeiro café do dia. Uma maravilha! Quarta e quinta são feriados e tudo. Recuperavam o atraso aí.


Haja paciência...